Uma das novidades mais aguardadas da edição do Fórum Fantástico deste ano é o lançamento do segundo volume da antologia de Banda Desenhada Apocryphus. Relembramos que o primeiro volume tinha como tema a Fantasia e foi lançado na Comic Con Portugal 2016. Para este segundo volume o tema é o Crime e conta com os talentos de Keith W. Cunningham, Miguel Jorge, Patrícia Furtado, Pedro Potier, Nuno Amaral Jorge, Daniel Da Silva Lopes, Inocência Dias, Diana Andrade, Miguel Montenegro, Sofia Freire, Filipe Coelho, Fernando Madeira, com design de Pedro Daniel e capa de Jacky Filipe.

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Eis o prefácio por Miguel Jorge:
Eu cheiro livros.

Cheiro os meus livros não por fetiche mas porque o cheiro deles ativa o “efeito Ratatouille” na minha memória. Sempre que cheiro um dos meus livros recordo-me vivamente do momento em que o li e sinto-me como se estivesse a vivê-lo novamente.

À altura em que escrevo este texto, não sei, obviamente, a que cheira o segundo volume de Apocryphus. No entanto, tenho a certeza de que ao cheirá-lo, a minha memória vai disparar com imagens dos meus encontros com cada uma das pessoas que se juntou a mim neste projeto e do impacto que a qualidade dos seus trabalhos tiveram na altura.

Este tipo de projetos não tem qualquer importância sem o que é mais valioso: as pessoas que nele participam e o seu talento. As memórias dos amigos novos e velhos que embarcaram nesta aventura, vão-me acompanhar por muito tempo.

Não há ordem de importância nenhuma nestas minhas memórias, mas todas elas vão estar sempre comigo.

Em 2004 tomei conhecimento de uma comunidade fantástica de autores e leitores de comics americanos que tinha como fulcro o podcast Comic Geek Speak e o fórum do mesmo nome. A lista de amigos que fiz nessa comunidade não caberia no espaço que tenho para escrever este texto, e foi aí que conheci Keith Cunningham, um escritor e cartoonista de mérito próprio que publica as suas próprias antologias de histórias curtas, ilustradas por variadíssimos artistas. A “Tabula Rasa” marca a nossa terceira colaboração e para celebrar esse evento esta história será publicada em português nas páginas deste livro e em inglês num dos próximos volumes da sua antologia “Strange Places”.

Já passaram mais de duas décadas desde a edição das revistas Art Nove e Crash! Quando eu digo que passaram mais de duas décadas, não suponha que estamos velhos e cansados. Nós éramos todos muito, muito jovens quando essa aventura aconteceu. Mas as memórias e os amigos continuam, tal como é o caso do Pedro Potier, que conheci nessa altura e que volta para mostrar a sua mestria logo no primeiro volume de Apocryphus. Neste volume podemos apreciar o seu trabalho na história “Pesadelo de Uma Noite de Verão” escrita por Patrícia Furtado.

Não conhecia a talentosa Patrícia Furtado até ver o colossal trabalho que ela ilustrou no fenómeno que foi a “Caderneta de Cromos” de Nuno Markl. Desde aí o seu trabalho esteve no “meu radar” e sempre que passava por uma capa ilustrada por ela reconhecia sempre o seu traço e a sua palete que fazia-me parar para apreciar. Quando descobri que a Patrícia gostaria de ter mais banda desenhada no seu “cinto de utilidades”, não hesitei no convite.

Apesar de ter conhecido o Miguel Montenegro na era das revistas Art Nove e Crash!, por variadíssimos motivos, não cheguei a editar a história que escrevi para ele. Mas mesmo no período em que não estive tão ativamente envolvido na banda desenhada em Portugal, o Miguel foi sempre um amigo próximo. Essa amizade permitiu-me ver de perto o seu trabalho, numa altura em que ainda era o único artista português a trabalhar para a Marvel. Muito me agrada vê-lo continuar a fazer trabalho de qualidade e a aventurar-se na escrita para banda desenhada. Neste volume o Miguel abraça a escrita e a arte da história “O Olho”.

Através de uma amiga comum, que achou piada termos o mesmo apelido, conheci o Nuno Amaral Jorge. Thomas Mann disse que “O escritor é alguém para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas” e eu vejo isso no Nuno. Ele sofre cada palavra que escreve e desde que o conheci quis muito trabalhar com ele. Depois de ter ilustrado um conto fantástico da sua autoria no primeiro volume de Apocryphus, dei-lhe a experiência de ter uma história desenhada por outro autor, o Daniel da Silva Lopes. Trabalharam juntos a história “Impressões”.

Conheci o trabalho do Daniel da Silva Lopes pelo Facebook onde ele ia mostrando imagens do seu webcomic. Fiquei fascinado pelo seu estilo urbano e a palete vibrante que ilumina cada página de banda desenhada que faz. E porque acredito que a antologia Apocryphus não deve ter um estilo muito homogéneo, fiquei extremamente satisfeito por o Daniel ter aceite o desafio.

A Diana Andrade deixou-me boquiaberto no decorrer de uma aula de esgrima histórica em que o Mestre D’Armas me chamou à parte para aterrar no meu colo um caderno com esboços da Diana. O convite para participar no segundo volume do Apocryphus saiu-me rapidamente como se não quisesse perder uma oportunidade da qual me iria arrepender. A resposta positiva foi rápida e o entusiasmo de saber que ia desenhar romanos na história “Dois Gládios e Um Copo de Vinho” da Inocência Dias foi ainda maior.

A Inocência Dias é uma fã de manga incondicional e uma escritora extremamente versátil. No primeiro volume levou-nos ao imaginário das Mil e Uma Noites e agora apresenta-nos uma história de época, num Algarve ocupado pelo Império Romano cheia de intriga e mistério. É definitivamente um talento a manter debaixo de olho.

Uma das minhas maiores surpresas foi descobrir que o fantástico e prolífico “reino do Algarve” alberga o “Terminal Studios”, um núcleo de banda desenhada e animação com coordenação de Fernando Madeira (Phermad), uma das pessoas mais ativas na banda desenhada que conheci nos últimos tempos.

Este verão tive o enorme prazer de ser caricaturado pelo Fernando Madeira e pelo Filipe Coelho, artista extraordinário que me foi apresentado pelo Fernando e que faz também parte do contingente algarvio da banda desenhada e da ilustração.

O tema do primeiro volume foi Fantasia e o tema deste volume é Crime, e ninguém criou uma ponte tão perfeita entre os dois temas como a Sofia Freire com a sua história sobre crimes contra a humanidade “A Futilidade do Mal” com arte do Filipe Coelho e Phermad.

Por muito grande “defensor” de banda desenhada que eu seja, não há nada mais importante do que as pessoas que a criam e todos eles têm a minha admiração e por isso aqui fica o meu mais profundo agradecimento a todos os que aqui participaram, sem deixar de lado o meu grande amigo e conselheiro Pedro Daniel que mais uma vez deu ao Apocryphus um ar respeitável com o seu trabalho de design e à participação fantástica do artista de capa deste volume Jacky Filipe sobre o qual a frase que mais oiço sobre o seu trabalho é “Este miúdo vai longe”.

Este será sempre o meu perfume customizado do segundo volume do Apocryphus.

nota: imagens gentilmente cedidas pelo editor.