André Ducci é o autor da mais recente novidade editorial da Polvo, “Fim do Mundo“. Abordamos o seu percurso enquanto ilustrador e autor de banda desenhada, desde o seu inicio de carreira até aos dias de hoje.

Rodrigo Ramos: Começaste a tua carreira de ilustrador para a marca de skateboard Drop Dead e Child e o jornal Rascunho em Curitiba no ano de 1997. Que memórias guardas desses tempos e de que forma te influenciaram?
André Ducci: Foram trabalhos importantes para mim pois além de serem minhas primeiras experiências que exigiam uma postura profissional também foram um estimulo a seguir a carreira de ilustrador. O trabalho realizado com a Drop Dead teve um valor especial por ser uma marca culturalmente muito forte, além de serem bons amigos com quem aprendi muito. Foram quase dez anos de parceria.

RR: Que importância teve para ti participar nas publicações Aargh!!! (da República Checa) e Stripburger (da Eslovénia)?
AD: Ver que meu trabalho poderia ser interessante para pessoas de tão longe. Com uma realidade a princípio tão diferente da brasileira. Tenho um interesse especial pela cultura do Leste Europeu e fazer contato com publicações dessa região foi bem empolgante.

RR: Fala-nos um pouco do teu projecto “Anatomista”.
AD: Esse é um projeto antigo meu que de certa forma não deixei de fazer. Surgiu quando senti que precisava melhorar meu desenho de anatomia e comprei um livro de medicina. A partir desse livro fiquei fascinado com a estética dessas ilustrações, a forma de representar detalhes como vísceras, órgãos, ossos de forma tão esquemática e asséptica, com cores fortes e bem definidas. Desenvolvi vários trabalhos como ilustrações, bandas desenhadas e street art sempre investigando nossa relação com anatomia e ciência. Cheguei inclusive a trabalhar em um hospital infantil como editor de vídeo e estudei ilustração médica por dois anos.

RR: Em 2010 fizeste parte da homenagem “MSP +50 – Maurício de Sousa Por Mais 50 Artistas” com a personagem Jotalhão. Como foi trabalhar com os estúdios Mauricio de Sousa?
AD: Foi uma experiência ótima. Ter sido procurado por eles foi uma honra. O personagem que escolhi foi o Jotalhão, um personagem que se encaixava muito bem com o trabalho que desenvolvo e com o qual tenho bastante afeto. Trabalhar com a equipe do Mauricio de Sousa não poderia ter sido melhor. O Sidney Gusman é um editor muito sensível, capaz de entender a visão de um autor e sugerir ajustes que melhorem a leitura. É um belo projeto que eles desenvolveram e fico muito grato por ter participado.

RR: Participaste em coletâneas como “Cidade Sorriso dos Mortos-Vivos”, “Entre 4 Linhas” ou “Vigor Mortis Comics 2: sangue, suor e nanquim”. Como classificas o panorama artístico em Curitiba?
AD: Creio que seja promissor. Apesar de esse ano, por conta da retração da economia, termos visto menos projetos realizados, temos muitos autores competentes e com estilos bem variados. Já tivemos idas e vindas da cena em Curitiba mas esse movimento que já vem de alguns anos deve ser perene.

RR: Para além de autor de BD, és ilustrador sendo esta a tua principal actividade. Fala-nos um pouco da mesma.
AD: De fato, as oportunidades de se manter sendo autor de BD no Brasil ainda são bastante limitadas apesar de não perceber tanta distinção entre os dois ofícios. Inclusive já fiz algumas BDs encomendadas por revistas. Acaba que a linguagem que desenvolvi como ilustrador se tornou minha assinatura nas BDs e o domínio de narrativa das BDs me ajuda no momento de sintetizar uma ideia em uma ilustração.

RR: Fim do Mundo é o teu álbum de estreia em Portugal. Como descreves o teu álbum aos possíveis leitores?
AD: Gosto de ver o “Fim do Mundo” como uma desventura no ártico levada as últimas consequências por um personagem amoral. Um ser solitário que se vê encurralado na luta pela sobrevivência contra a natureza adversa.