Por Filipe Serra Carlos

A revista Mickey n.º 2 trouxe-nos mais uma incursão pelo mundo da Arte com um novo capítulo da “História da Arte de Mickey”, uma subsérie de histórias que apresenta à maneira Disney momentos e personalidades importantes da História da Arte mundial. Neste episódio, ficamos a conhecer um pouco da vida e da obra desse grande artista do final do século XIX que foi Vincent van Gogh. Para encarnar este protagonista, o autor Roberto Gagnor escolheu o irascível Urtigão, naquele que será provavelmente o seu papel mais erudito de sempre.

Autorretrato, 1887

Van Gogh nasceu em 1853, na Holanda. Na sua curta carreira — morreu aos 37 anos —, dedicou-se apaixonadamente à sua pintura, conhecendo-se mais de 2000 obras de arte (só telas são mais de 800!). Apesar da sua intensa produção, viveu sempre na pobreza, sem lograr o reconhecimento da crítica que ansiava. Isso deveu-se principalmente ao seu estilo, que rompia com as práticas mais populares do Impressionismo, mas também à sua personalidade complexa e instável, que se identifica tão bem no nosso Urtigão — com a barba ruiva ficou um verdadeiro Van Gogh dos quadradinhos.

Nesta história, encontramos Van Gogh a viver em Arles, uma cidade da Provença (sul de França) que, nesta época, era uma região onde muitos artistas passavam temporadas. Aí, Van Gogh viveu cerca de 2 anos (1888-89) e produziu uma grande parte das obras mais significativas da sua carreira. Com efeito, foi aqui que mais desenvolveu o seu estilo, caracterizado pelo uso de cores vibrantes aplicadas em pinceladas largas e rápidas, resultando em obras dinâmicas e expressivas que colocam Van Gogh entre os mais importantes nomes do Pós-Impressionismo. Na nossa história, a obsessão do Urtigão Van Gogh com as suas beringelas representa esse mesmo processo.

Tão marcante é o estilo de Van Gogh que o desenhador Stefano Zanchi, juntamente com as cores do Aranela Studio, incorpora em várias vinhetas, e em jeito de homenagem, vários elementos bem reconhecíveis da obra do pintor, como a seara de trigo, as espirais de vento no céu, os ciprestes ou os famosos girassóis.

O Quarto em Arles, 1888

Para além disso, algumas obras de Van Gogh também foram homenageadas com uma transposição quase direta para dentro da nossa história: é o caso de O Quarto em Arles e, em especial, de Noite Estrelada sobre o Ródano, ambas de 1888 (nas pp. 89 e 96, respetivamente).

Noite Estrelada sobre o Ródano, 1888

O Donald e o Peninha, co-protagonistas habituais das histórias do Urtigão, surgem nos papéis de duas das mais conhecidas figuras associadas a Van Gogh: o pintor Paul Gauguin e o médico Paul Gachet.

Gauguin e Van Gogh conheceram-se quando ambos estavam a viver em Paris, em 1887, e tinham em comum praticarem uma pintura que superava os valores propostos pelo Impressionismo. Alvo de ataques pela crítica, foi postumamente que Gauguin se distinguiu como um dos nomes mais importantes do Simbolismo. A sua relação com Van Gogh é célebre não tanto pela visão artística, mas pelo “episódio da orelha cortada de Van Gogh”, que supostamente aconteceu durante uma visita que Gauguin lhe fez enquanto vivia em Arles. A teoria mais popular do que terá levado Van Gogh a mutilar a sua própria orelha esquerda é ter sido uma consequência de uma discussão entre os dois pintores, exacerbada pela patologia mental de Van Gogh. A nossa história não mostra este pormenor violento, mas faz referência ao destino de Gauguin depois de se ter afastado de Van Gogh: o Taiti, para onde partiu com esperança de encontrar inspiração no exotismo da cultura local.

Já Gachet é conhecido por ter sido o médico que tratou — ou tentou tratar — Van Gogh durante os seus últimos meses de vida, já regressado a Paris. O retrato que este pintou dele é uma das suas obras mais conhecidas. Gauguin e Gachet passaram, assim, pela vida de Van Gogh em momentos diferentes, embora ambos tenham tido um papel importante que justifica a sua inclusão na nossa história.

Papel importante na vida de Van Gogh teve também o seu irmão Theo van Gogh, um colecionador de arte e galerista em Paris que procurou promover a obra de Vincent e que o suportou financeiramente durante vários anos. A personagem do Tio Patinhas desempenha, na nossa história, o papel importante que Theo teve na vida real de Van Gogh. Por um lado, paga (contrariado, como não podia deixar de ser) todas as despesas do Urtigão Van Gogh e, por outro, reconhece o valor das obras por este pintadas, ao ponto de, logo no início da história, afirmar que as suas pinturas hão de valer fortunas um dia, numa alusão ao facto de que a importância de Vincent van Gogh para a história da arte só foi reconhecida depois da sua morte, que aconteceu em 1890 por suicídio.

Como habitualmente, passando ao lado das tragédias que não poucas vezes afligiram a vida dos grandes artistas da História, Roberto Gagnor traz-nos uma história acima de tudo cómica, onde caricatura habilmente os elementos-chave da vida e obra de Vincent van Gogh. Ao mesmo tempo, consegue ainda espaço para umas críticas subtis, por exemplo, ao funcionamento do mercado da arte contemporânea através da personagem do cão Joseph le Fuiteur, que acaba nomeado curador da sua obra.