Por Filipe Serra Carlos

No passado mês de dezembro, a Escola Superior de Educação (ESE) do Politécnico do Porto recebeu a visita de Giorgio Cavazzano, o grande artista da banda desenhada Disney, com quem tive o prazer de conduzir uma conversa em que nos falou da sua longa carreira e dos seus processos criativos.

Nascido em Veneza em 1947, Giorgio Cavazzano comemorou, em 2017, 50 anos de carreira ao serviço da Disney e o prazer com que se dedicava aos seus desenhos há meio século perdura ainda hoje e é o mesmo com que conversa com os seus fãs e admiradores. Passou num ápice a hora e meia durante a qual nos contou, em italiano, factos e episódios caricatos relacionados com as inúmeras histórias que já desenhou até hoje. A barreira da língua foi sendo ultrapassada com o apoio de muitos gestos, das muitas imagens que nos trouxe para mostrar exemplos dos seus trabalhos e, em especial, por uma simpatia e boa disposição inexcedíveis.

Era ainda bastante cedo quando se abriram as portas do auditório da ESE — a sessão fora marcada para as 9h30 por condicionantes da agenda do convidado —, mas rapidamente se encheu com os muitos alunos, mas também professores, curiosos e desejosos de conhecer um dos nomes maiores de um universo que faz parte da vida de tantos de nós.

Inevitavelmente, Giorgio começou por fazer referência aos nomes de outros grandes artistas Disney que de alguma forma o marcaram na sua juventude, como Floyd Gottfredson ou Romano Scarpa. Este em particular, com quem trabalhou alguns anos passando os seus desenhos a tinta, foi decisivo nos seus anos iniciais no desenvolvimento da técnica e do seu estilo. Em 1967, Cavazzano viria a desenhar a sua primeira história Disney — protagonizada pelo Donald e o Peninha. Iniciava-se assim o percurso em que, de arte-finalista de Scarpa, se tornaria artista de pleno direito na Disney italiana.

Ao sabor das imagens que desfilavam, ficámos a conhecer alguns dos “truques” em que o mestre italiano foi pioneiro para conferir aos desenhos maior dinamismo e as pesquisas fotográficas minuciosas que realiza para poder colocar nos seus desenhos o máximo de rigor histórico, científico ou geográfico, por exemplo quando se trata de desenhar veículos ou edifícios. Também ficámos a conhecer a sua faceta de caricaturista ao vermos algumas pranchas de histórias onde representou, entre outros, o realizador italiano Federico Fellini ou os atores Humphrey Bogart e Clark Gable. Revelou-se aqui uma certa predileção de Cavazzano por fazer paródias ao mundo do cinema, com adaptações de vários filmes célebres, como o Casablanca. No campo das adaptações, mostrou-nos páginas da recente história que desenhou em homenagem à banda desenhada Corto Maltese – A Balada do Mar Salgado (que também celebrou 50 anos em 2017). Desta história, publicada em Portugal pela Goody na revista Mickey n.º 2, de setembro passado, vimos algumas pranchas na versão a lápis e na versão arte-finalizada e a cores. A possibilidade de ouvir Cavazzano falar das várias correções e alterações que faz no desenho a lápis antes de ser finalizado ao mesmo tempo que víamos vários exemplos — vinhetas, ilustrações de capas, trabalhos publicitários a que se dedica à margem da banda desenhada — foi um dos momentos especiais da sessão.

Houve ainda tempo para nos falar — e mostrar — personagens e histórias de fora do universo Disney em que trabalhou ao longo dos anos: o mais conhecido será provavelmente o Homem-Aranha, de que desenhou uma história passada em Veneza para a Marvel (2003), mas estas suas incursões iniciaram-se já nos anos 70 e delas destacam-se personagens como Talkie Walkie, Altai & Jonson, Captain Rogers ou Dylan Dog. Contextos diferentes, muitas personagens humanas, mas com o estilo “cavazzaniano” sempre bem presente e reconhecível.

E porque nem tudo são rosas, por entre as histórias das estórias, Cavazzano descreveu-nos algumas das dificuldades e aspetos menos positivos com que lidou ao longo dos anos. Contudo, como o próprio ressalva à maneira de conselho para os aspirantes ali presentes, o otimismo e o esforço foram elementos constantes e indispensáveis para singrar nesta atividade… tal como alguma sorte.

Ainda antes do final da sessão, Giorgio Cavazzano brindou o público com uma demonstração in loco da sua magia a acontecer. De marcador em punho, desafiou o público a dar ideias de um enredo de história que ele de imediato foi esboçando no papel. Enquanto Tio Patinhas e Donald iam aparecendo à frente dos nossos olhos, ia explicando algumas das opções que toma, logo de início, ao nível da composição da página e da estrutura das vinhetas e algumas técnicas para conduzir o leitor ou para dar mais vivacidade à narrativa.

A aula improvisada e inesperada com o grande mestre Disney dos patos e dos ratos foi o ponto alto — especialmente para os alunos de Artes Visuais que frequentam a instituição — com que terminou a conversa com Giorgio Cavazzano. Infelizmente, outros compromissos impediram-no de poder ficar a conversar com as dezenas de alunos que a ele acorreram na expectativa de poder trocar impressões ou pedir autógrafos. Não obstante, a satisfação de todos era notória e uma aura de entusiasmo pelos momentos especiais ali vividos perdurou nos corredores da ESE.