Por Filipe Serra Carlos

A dupla Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenhos) traz-nos, em Astérix e a Transitálica, editado dois anos depois de O Papiro de César, o 37.º volume das aventuras de Astérix e Obélix. Nesta que é a terceira história saída da mão da equipa que substituiu Albert Uderzo confirma-se que os destinos dos gauleses mais populares do mundo foram deixados em boas mãos, pois os autores continuam a trabalhar com sucesos, ao nível da história e do desenho, os ingredientes da mística das aventuras de Astérix. Desta feita, os dois gauleses participam numa corrida de carros através da Península Itálica promovida por Roma para demonstrar a superioridade das suas estradas.

À primeira vista, o tema da aventura — uma corrida que levará os nossos heróis a percorrer diversas regiões italianas — aproxima-se demasiado d’A Volta à Gália (o 5.º volume da coleção); contudo, a Transitálica revela ser mais do que a mera repetição da fórmula usada no livro de 1965. Desde logo, porque os nossos heróis vão parar a esta corrida sem haver um motivo de força maior — a bem dizer, só porque seria divertido — enquanto que naquela outra história a corrida assume-se como uma marcação de posição da aldeia gaulesa, que queria provar que não estavam confinados e que sim, podiam percorrer livremente toda a Gália. Esta participação nos eventos totalmente deliberada constitui, aliás, uma novidade relativamente às aventuras da série, já que normalmente as viagens da dupla são motivadas por alguma missão que têm de cumprir (para bem da aldeia, para acudir a terceiros, etc.).

Uma vez em Modicia, o ponto de partida da corrida, destaca-se o aspeto em que este livro mais se diferencia d’A Volta à Gália: os gauleses concorrem com aurigas de vários povos pelo objetivo de serem os primeiros a chegar a Nápoles, enquanto que, naquela história, Astérix e Obélix corriam sozinhos (à parte a perseguição constante de legionários romanos). A este nível, os autores não se pouparam às pesquisas para nos apresentarem um catálogo de nacionalidades que nos traz várias novidades, como as aurigas do Reino de Kush, os Sármatas, os Cimbros, além de vários povos já conhecidos destes livros. Destes fazem parte os Lusitanos, merecedores até hoje de apenas uma referência muito breve em O Domínio dos Deuses (17.º volume, 1971). Surgem agora em destaque, acrescentando à popularidade de que Portugal goza atualmente a nível internacional, retratados de uma forma — obstinados lutando contra as adversidades — que optei por interpretar como um elogio à forma de ser portuguesa, especialmente à luz dos eventos dos últimos anos, quando Portugal esteve sob resgate da Troika. Por entre este congresso de povos, sobressai a metáfora aos tempos modernos (como é apanágio desta coleção), tempos de competição entre nações mas também, numa visão animadora da UE e do mundo em geral, de solidariedade e cooperação.

Prolongando de certa forma a temática central do livro anterior, e sinal da sua importância, a sociedade da informação atual volta a marcar forte presença no desenrolar da história com um conjunto de jornalistas a fazer a cobertura do evento desportivo. A corrida dá o mote às inevitáveis caricaturas — umas mais críticas, outras mais inofensivas — do mundo de hoje, desde o retrato do lado negro das manobras para condicionar resultados às mudanças climáticas, passando pela maneira como os ídolos se constroem meticulosamente sobre uma imagem de marca que, a mais das vezes, pouco tem a ver com quem está por trás dela. Assim se compreende Coronavirus, o antagonista na corrida, e a subtileza da sua máscara em forma de smile, símbolo da superficialidade que parece cada vez mais bastar em detrimento da essência. Ao longo da viagem, somos brindados com inúmeras idiossincrasias dos italianos e com características famosas de várias regiões de Itália — a terra vermelha de Volterra, as esculturas de Florença, a piza de Nápoles, o Pálio de Siena, o design de Milão… — e levados a (re)conhecer muitas figuras de proa da Itália contemporânea, como Sophia Loren, Silvio Berlusconi ou Luciano Pavarotti. Aqui reside mais uma demonstração de respeito dos autores pela herança de Uderzo e Goscinny, contudo, a ser levada ao extremo com um cortejo tão denso de referências que a sua descodificação quase se sobrepõe à fruição da história em si. Diz muito da capacidade dos autores captarem a cultura italiana (e dos outros povos participantes) e de a introduzirem na história de modo que diferentes públicos consigam divertir-se de igual maneira e permitindo a cada releitura a descoberta de ainda mais detalhes, mas o segredo está em saber dosear.

Deste volume destaca-se, porém, a ausência de dois elementos de peso na tradição de Astérix: as páginas iniciais com o mapa do célebre texto “Estamos em 50 a. C. …” e com a apresentação das personagens principais. Os autores justificam-na com a existência, no meio da história, de um mapa de Itália, que é o palco da aventura, tal como em Astérix na Córsega (20.º volume, 1973) se substituiu o mapa da Gália pelo daquela ilha do Mediterrâneo. Não obstante, a explicação não me dissuade de que a alteração se terá devido à incapacidade de acomodar a história nas 48 páginas do padrão. Se são mais duas páginas de história para ler, isso é bom? Sim, não é mau, mas preferia que os autores conseguissem encaixar-se no padrão estabelecido pelos criadores da série.

O começo da aventura, como que forçado, conduz a um final também ele diferente. Não é dececionante, mas, não havendo uma missão a cumprir, falta um pouco da ação que noutros capítulos leva os nossos heróis a superarem-se e, para o final, optou-se por um desenlace diplomático, o que dá à história um pendor de fábula à qual não falta sequer a moral.

Pesem embora alguns aspetos que o afastam da perfeição, Astérix e a Transitálica é, posto tudo isto, um digno capítulo da coleção de Astérix, especialmente quando comparado aos últimos volumes saídos da mão de um Uderzo que já acusava algum cansaço (e, quanto a mim, Ferri e Conrad vão continuar a beneficiar dessa comparação durante mais algum tempo).