Em dezembro de 2017, a Tigre de Papel Editora publicou a banda desenhada Gravidez, da autoria de Júlia Barata, editada no mesmo ano pela argentina Musaraña Editora. Trata-se da estreia da Tigre de Papel na BD, sendo também o primeiro álbum de autoria completa de Barata, após algumas autoedições e participações em antologias.

O livro é o produto resultante de um processo de catarse que durou 4 anos, durante o qual a autora foi impelida a registar momentos autobiográficos da sua primeira gravidez nos mais diferentes suportes, desde guardanapos a caixas de medicamentos, tal era a premência de materializar a experiência sob a forma de desenho.

Provavelmente, todas as gravidezes podem gerar interessantes relatos, tendo simultaneamente duas facetas opostas – uma experiência única da mulher (inclusivamente, as gravidezes das multíparas são, também elas, diferentes entre si) mas, sob muitos pontos, partilhada com as demais mulheres. É frequente, nas mais variadas conversações sobre a gravidez, as gestantes descobrirem que algo que julgavam suceder somente com elas, é espelhado noutras.

No caso da autora, além do desenho ser uma atividade inerente ao seu ser enquanto pessoa e profissional, a gravidez rodeou-se de algumas circunstâncias que a marcaram profundamente e impeliram o seu registo com maior voracidade. Trata-se de um gravidez não planeada que surge no meio de um processo de emigração, com o seu companheiro argentino, do Porto para Buenos Aires. Para trás, fica o seu suporte familiar, os seus amigos, a sua rede social e a familiaridade com o sistema de saúde português.

Para as leitoras portuguesas que viram a sua gravidez ser seguida em Portugal pela medicina ocidental, independentemente de terem optado pelo sistema público ou privado, certamente se surpreenderam com alguns conselhos pseudocientíficos e mal fundamentados dados por alguns profissionais com que a autora toma contacto, bem como pela ausência de várias orientações e/ou exames que são gratuitamente realizados no sistema nacional de saúde português. Em Portugal, algumas prestações retratadas poderiam inclusivamente originar que os profissionais fossem processados. Referimo-nos aqui, obviamente, à vertente médica e não às também presentes vertentes alternativas com que a autora contacta. Mais exótico para os leitores, será, por exemplo, o papel da doula.

A autora, uma estranha numa terra estranha, sendo uma primípara, convive com toda a (aparente?) desorganização do seguimento da sua gravidez, sem ter uma noção exata do que deveria esperar (e exigir?). A história tem, no entanto, um final feliz, apesar de terem partido a clavícula ao bebé durante o parto… Após algumas peripécias, o bebé tem alta e é levado para casa. Chega-se assim ao final, após o registo do processo com humor, sarcasmo e desespero q.b.

A nível de desenho, as páginas oblongas da edição poderiam levar a pensar que a autora se tinha expressado através do modelo norte-americano de tiras de BD. Pelo contrário, a autora afasta-se das vinhetas rígidas e os modelos tradicionais, experimentando diferentes soluções em cada uma das páginas. Se o primeiro olhar de algumas páginas pode sugerir uma apresentação caótica, o início da leitura rapidamente prova que existe uma perfeita organização espacial, o que origina uma leitura fluída, sem risco de se perder o sentido de leitura.

Em nota de rodapé, uma revisão mais cuidada teria beneficiado a obra. Se algumas palavras são propositadamente escritas com erros ortográficos para produzir diferentes efeitos, outras encontram-se nitidamente na categoria dos lapsos.

Eis a sinopse da editora:

Júlia Barata tornou-se mãe e deu à luz o livro Gravidez. Esta é a sua história rumo à maternidade, uma aventura intercontinental onde se desenham várias cidades, pessoas, espaços e encontros. Entre a festa e a melancolia, Gravidez é um relato de uma geração. Júlia Barata, no seu tom cómico punk, partilha connosco o fluxo da sua consciência. Os seus desenhos, feitos catarse a preto e branco, são engenhosos. Aqui tudo tem a escala da verdade, e saber-se desenhar assim é um dom.

Júlia Barata (aka Júlia Tovar) nasceu em 1981, em Coimbra. Viveu nómada entre Maputo, Porto, Lisboa, Roterdão, Barcelona e em 2013 emigra para Buenos Aires, onde reside atualmente. Estudou arquitetura e exerce a profissão, dedicando-se paralelamente à banda desenhada e ilustração. É a autora de Gravidez (Musaraña Editora, Buenos Aires / Tigre de Papel, Lisboa – 2017), 2 road comics (autoedição, Buenos Aires – 2017), Cotidiano de lujo2 historias de amorHistorias del tren (3 autoedições, Buenos Aires – 2016), El azar no es mala suerte (com Alejandro Levacov, Musaraña Editora, Buenos Aires – 2015) e As aventuras pós-modernas de Cecília a peixa (autoedição, Barcelona – 2009 / Lisboa – 2010). Participou nas obras El volcán (Editorial Municipal de Rosario, Musaraña Editora, Buenos Aires – 2017) e Zona de Desconforto (Chili Com Carne, Lisboa – 2014).

Gravidez
Júlia Barata
Editora: Tigre de Papel
Páginas: 152
Encadernação: capa mole
PVP: 13,00€

nota: agradece-se à editora a oferta do exemplar.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de SousaAdministrador