Um dos lançamentos do XIV Festival Internacional de BD de Beja foi a obra O Espião Acácio, de Fernando Relvas (1954-2017), autor que teve direito a uma mesa-redonda no supracitado festival, na qual se abordou o seu trabalho.

Este livro da Turbina Associação Cultural sob a chancela editorial Mundo Fantasma reúne a obra integral das aventuras do inconfundível espião português Acácio de Mello, 40 anos depois do início da sua publicação na revista nacional Tintin.

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Eis a sinopse, da autoria de Rui Duarte:

Corre mundo a história do espião Acácio, o emissário que involuntária e indelevelmente deixou marca portuguesa pelos corredores da intriga internacional. Do advento republicano quase até à guerra fria, perpassa o seu nome, riscado a negro, por relatórios e arquivos secretos da intelligentsia ocidental até ao médio oriente, em meio século da mais alta coscuvilhice. Agente duplo, ou triplo, e a tempos agente de coisa nenhuma, tornou-se célebre pela improvável habilidade com que soube ultrapassar o arame farpado para o lado inimigo, e de volta para trás.

Acácio de Mello era um rapaz muito bisbilhoteiro — saía à mãe. De raro poder de dedução (raro no sentido de muito pouco) foi cultivando o engenho da neutralidade e do disfarce: nem monárquico, nem republicano, não era maçónico mas era de boas famílias. Com o apoio dos irmãos, monárquicos exilados nas Américas, cedo conheceu o mundo, qual caixeiro viajante, colecionando contactos pelo Reich alemão, pela França ou no Médio Oriente, onde apurou o seu enorme talento para o desenrascanço. Reza a história que recebeu a primeira missão de um agente alemão, o obscuro Prof. Djadja. Sob disfarce odontológico, calcorreia metade da Europa. Foi preso na Rússia, de onde se escapuliu com a ajuda de judeus, irlandeses, alemães e ingleses. Recapturado, entrega uma temível arma secreta aos prussianos. D’acolá para a fronteira da Sérvia foi um tirinho, sendo novamente condenado a fuzilamento. Atravessa o país e desemboca em Paris, onde é reconduzido ao serviço alemão. É enviado para o Médio Oriente onde estabelece contacto com novo agente germânico, Rundfunk, um pombo-correio. Literalmente, um pombo-correio. Cruza várias vezes o deserto e conhece Lawrence, nas Arábias, o seu próximo alvo. Ressurge nas trincheiras alemãs às ordens do barão Von Rikchete, para um estágio de observação aérea.

Perseguido pela sua inevitável vocação, volta ao serviço duplo, entre alemães e britânicos. Reaparece em Rompiopek, nenhures no Leste, o paraíso dos espiões. E volta à folha salarial do Reich. O mercado era único e até com cámones se entremeteu.

Estas são estórias de um homem diligente que suportou as prisões do Czar, a guerra e o desconforto dos transportes públicos, muitas fugas nocturnas e amanhãs incertos. Conheceu animais falantes, um génio cientista muito à frente, e uma paixão de outro mundo. Foi mal pago, condecorado, despedido e contratado novamente, por agências secretas e governos por toda a Europa e arredores.

Viu discos voadores e as maravilhas da alquimia, encarou criaturas da mitologia e personagens da História, e desdito conspirou, e nunca mais disse nunca, numa época em que uma tendência intelectual subversiva significava alguma coisa. Foi atacado como gente grande por soldados, sanguinários, extraterrestres e tuaregues, chegando a ser morto mas apenas temporariamente. Em último registo oficial, é forçado a trabalhos numa mina colonial de holandeses. Tudo isto são factos, e grande parte é quase verdade.

Acácio é um dos grandes espiões da história do mundo moderno, que nasceu com a revolução industrial e atingiu tão segredado zénite atravessando, vivinho da silva, décadas de múltiplos impérios e guerra num dos períodos mais negros da rasteira política. Era português e tinha bom coração.

Ninguém sabe o que é feito.

Foi visto uma última vez no Porto, no inverno de 2005, por altura do Salão. Tomava um café pingado, numa esplanada a céu aberto junto ao Mercado Ferreira Borges. Fumava cigarros importados e todo janota, tinha um cão.