Mickey #4 marcou o regresso das revistas Disney. Filipe Serra Carlos analisa o mais recente número de Mickey e as bandas desenhadas que contém.

A meio ano do Natal, mas com o inverno a teimar em não ir embora, a Goody presenteou os seus leitores com o regresso das revistas Disney. A primeira edição foi o número 4 do Mickey, que retoma a numeração no ponto em que tinha sido interrompida no final de 2017.

O aspeto geral da coleção mantém-se (ou então deixava de ser uma coleção), mas há algumas novidades dignas de referência. Desde logo, ao nível físico, verifica-se que as revistas serão doravante um pouco mais robustas, graças ao uso de um papel mais grosso tanto no interior como na capa.

Ao nível do conteúdo, desapareceram as páginas de passatempos e piadas, o que, na minha opinião, se traduz num ganho; nunca achei — talvez porque dirigidas ao público mais infantil— aquelas rubricas particularmente apelativas e assim ganhamos mais páginas de leitura. Questiono-me, contudo, se esta mudança revela que mesmo o público mais jovem dispensa aquelas páginas ou se reflete a tomada de consciência de que os leitores destas revistas serão maioritariamente gente crescida que prefere ler BD.

Respondendo a uma crítica feita por muitos leitores aos números iniciais da coleção, assistimos neste n.º 4 a uma nova opção editorial que nos apresenta histórias que vêm exclusivamente do “lado Mickey” da Disney. Variedade é, ainda assim, a palavra de ordem nas 130 páginas da revista.

Mickey e o Estranho Caso de Jack Dois de Copas

A abrir, somos acolhidos pelo Estranho Caso de Jack Dois de Copas, que teve honras de destaque de capa, uma história em que um mistério policial é temperado com elevadas doses de humor que os desenhos expressivos e ricos em pormenores, a cargo do mestre Giorgio Cavazzano, complementam e enriquecem. Histórias deste calibre nunca são de mais.

Mickey e a Arca da Arte

A série A História de Arte de Mickey, da autoria de Roberto Gagnor, é para mim um pequena delícia dos anos recentes da Disney. Não sendo uma série de grande impacto, como as aventuras de Fantomius, por exemplo, os seus vários capítulos têm-me divertido muito também porque me desafiam a procurar as referências à História da Arte “real” nela incluídas. Nesta edição, mais do que apresentar-nos um artista ou um estilo artístico, o capítulo A Arca da Arte traz-nos uma reflexão em torno de uma questão tão importante quanto o eterno e sempre polémico “o que é Arte?”: “porque é importante a sua preservação?”. Mickey e Pateta veem-se transportados para um futuro tenebroso onde toda a arte é proibida e destruída e os seus defensores perseguidos e, com a sua luta contra a ignorância que domina o mundo, transmitem-nos uma preciosa mensagem simultaneamente pedagógica — a de que a arte é essencial ao conhecimento das sociedades que a produziram e ao de nós próprios — e política — que o desenvolvimento civilizacional dos tempos de hoje não é garante de que os tempos obscurantistas sejam apenas coisa do passado e que há, por isso, que estar vigilante para evitar que a ignorância ponha em causa as conquistas da Humanidade. Se estivesse ao comando da linha editorial da Goody, esta série seria uma das que colocaria em fila de espera para ser editada num só volume e em edição cuidada quando Gagnor finalmente a der por encerrada.

Pergunta ao Patelobo #13

Outra história que merece destaque é Pergunta ao Patelobo simplesmente pelo humor nonsense muito bem conseguido e por ser mais um sinal da variedade que referi, já que é uma história do universo povoado de personagens sobrenaturais de X-Mickey.

Mickey e o Ídolo Tubarão

O sinal mais evidente da diversificação foi a inclusão de uma história de Paul Murry, de 1956! Este desenhador foi provavelmente o mais importante criador de histórias do Mickey e do Pateta dos anos 50 e contribuiu para definir muitas das características destas personagens até hoje e é bom ver as suas histórias a continuarem a ser publicadas e lidas, mesmo não sendo o meu autor preferido. No entanto, pareceu-me desacertada a opção de editar O Ídolo Tubarão com páginas a preto e branco intercaladas nas páginas a cores. Se a intenção era aproximar o aspeto da história ao que acontecia há muitos anos, quando imprimir tudo a cores era muito caro e por isso só algumas páginas tinham esse tratamento, deviam, a meu ver, ter feito duas coisas: por um lado, explicar essa opção aos leitores colocando uma nota no início da história e, por outro, publicar a história com a composição original de 4 linhas de vinhetas por página. A versão publicada foi adaptada para a estrutura de 3 linhas por página, tendo sido alterados os formatos das vinhetas (que resultam desequilibradas por causa do imenso espaço vazio) e, para mim o pior, com uma colorização nova que me parece propositadamente mal feita, com as manchas de cor pouco precisas e com uma paleta muito reduzida. Ora, se eu fosse um leitor de 10 anos em 2018, tenho a certeza de que, chegado à página 100 da revista, passaria imediatamente para a história seguinte (eu próprio senti vontade de o fazer).

Blues!

Quando há pontos altos que se destacam, é porque também existem pontos baixos a lamentar e nesta edição é a história Blues! que conquista esse galardão. Basear toda uma história de banda desenhada — que vive de imagens e texto, mas não de som — na música é um risco muito grande e redundou em 5 páginas de vinhetas que nem estavam bem desenhadas, nem primavam por um texto particularmente divertido e muito menos (obviamente!) tinham a música de blues que aparentemente davam o mote. A piada final da história é completamente ininteligível e a única parte que se aproveita é a participação do Bafo-de-Onça porque põe fim a uma história sofrível e sofrida. Os desenhos do Pateta e do Bafo padecem de falhas nas proporções que só não se podem classificar de falta de rigor anatómico porque se trata de personagens imaginárias. Enrico Faccini, que se dedica principalmente ao Peninha, aventurou-se aqui numa história com o Pateta como protagonista em que os desenhos resultaram desengonçados e deselegantes. Esta história revela ou a limitação de Enrico Faccini para desenhar personagens fora do território dos patos ou apenas um trabalho feito às pressas. E num ou noutro caso, era preferível evitar-se.

Feito o cômputo final, o que importa realmente é que a Mickey 4 dá-nos motivos de sobra para celebrarmos. Antes de mais, por ser o regresso das revistas Disney às bancas e, depois, pelas várias escolhas oportunas e acertadas já referidas. Está aberta uma perspetiva animadora que só podemos esperar se reflita também nas revistas Tio Patinhas e Donald de forma que a encarnação destes títulos venha a ser duradoura, assim consiga congregar um alargado público, especialmente o mais jovem, em torno destas personagens que, hoje como há décadas, têm tudo para ter sucesso.