por Gabriel Martins

A parceria entre Marta Teives e Pedro Moura continua a solidificar-se a cada nova publicação na BD. Tendo trabalhado juntos nas duas antologias TLS (Cidades e Silêncio) e na terceira edição do fanzine “Quireward“, entre outros trabalhos mais pequenos, os seus nomes são cada vez menos desconhecidos do público leitor.

Agora Marta e Pedro voltam a unir forças a criação deste “Regressos“, uma BD editada pela chancela da Polvo, que se destaca logo pelo facto de estarmos perante uma narrativa mais longa, tratando-se assim do primeiro livro de BD destes dois autores.

Quem já estiver familiarizado com o trabalho passado, em especial com as curtas nas antologias TLS, irá reconhecer imediatamente pontos em comum com esta história. Porém, desta vez, nem tudo que luz é ouro e se “Regressos” a início se apresenta como a clássica história do retorno às raízes, a um passado que se divide entre tempos de ternura e tormento, a dada altura percebemos que também se trata de uma outra história, com elementos bem distintos  daqueles que os autores haviam trabalhado nas antologias referidas.

Para falarmos mais sobre este novo desafio tivemos o prazer de estar à conversa com os dois.

Gabriel Martins: Este tipo de viagens às raízes, estes regressos, por serem histórias tão íntimas, parecem muitas vezes conter alguma carga autobiográfica. Neste caso, não se tratará do vosso passado, por razões óbvias (ou vai na volta…). No entanto, pergunto na mesma se existe alguma carga biográfica (não tem de ser auto) no livro, nomeadamente até na escolha geográfica para a acção?

Marta Teives: Não me tinha ocorrido, mas agora que falas nisso… Sim, existem alguns elementos biográficos que acabei por introduzir no desenho, uns de forma mais consciente que outros. Por exemplo, na vinheta em que a Madalena está a olhar para as fotografias de família, inseri duas ou três fotos icónicas da minha própria família. Está ali um bisavô, um tio-avô piloto que nunca cheguei a conhecer… O interior da própria casa é parcialmente baseado numa casa de família onde já passei vários fins-de-semana, embora a sua localização geográfica não tenha nada a ver com a da história. Aproveitei alguns detalhes e descartei outros. Não sei se o Pedro ainda se lembra disso, mas a cena em que a Madalena sofre uma queda de bicicleta foi inspirada, mas só até certo ponto, numa queda que eu própria tive, no final de uma viagem de bicicleta de duas semanas, uns meses antes de darmos início aos trabalhos.

Pedro Moura: Bom, toda e qualquer obra é autobiográfica até certo ponto, já que é inevitável utilizarmos a nossa própria experiência, o que inclui a dos outros que vivemos por testemunho, quando se criam histórias. Como a Marta disse, a queda de bicicleta da Madalena espelhou algo que ela própria tinha vivido e me contado. Haverá um ou outro pormenor que introduzi baseado em “coisas reais”, mas nada disso constitui um segredo ou enigma a descobrir pelo leitor, servindo tão-somente como factor de referencialidade que, espero, reforça a dimensão naturalista do relato. Seria mais interessante tentar compreender em que medida coisas mais profundas espelhariam a nossa personalidade, de medos e receios a desejos e fantasias pessoais, e alguns desses elementos foram, com efeito, discutidos a dois, mas também pouco importa “identificá-los” para ler a obra. Quanto à questão de “regressar”, bom, cada um dos meus avós são de terras bem distintas espalhadas por Portugal, por isso tenho costelas transmontanas, beirãs, alentejanas, alfacinhas e eu próprio sou saloio-lisboeta e toda a minha infância e juventude andava de trás para diante entre alguns locais recorrentes. Além disso, vivi fora de Lisboa durante uns tempos e, mais tarde, trabalhei em países que não Portugal. A questão de sermos surpreendidos pela paradoxal sensação de que “nada muda” ou “tudo está alterado” dos sítios que revisitamos é-me comum, e terá tido o seu papel.

GM: Como é que surgiu este convite da Polvo que, segundo sei, foi feito pelo Rui Brito ainda antes das vossas curtas de BD terem sido publicadas?

MT: Se a memória não me falha, tudo começou quando o Rui Brito me contactou, em 2016, para falarmos sobre a possibilidade de publicar um projecto meu pela Polvo.  Não tenho a certeza do que terá motivado esse convite, mas penso que o Rui teria já visto umas páginas esboçadas para uma curta que viria a ser publicada, no ano seguinte, na antologia TLS Series Vol 1: Cidades. Tenho trabalhado sempre com argumentistas e, assim sendo, apresentei ao Rui umas sinopses para uns projectos que já tinha apalavrado com o Pedro, e também com outro argumentista. Como este d’ Os Regressos estava mais adiantado, acabou por ser o projecto escolhido.

PM:Quando o The Lisbon Studio se estava a preparar para uma exposição na Comic Con 2015, a Marta desafiou-me para propor uma história. Fui à “gaveta de histórias” (literalmente tenho um ficheiro com essa designação) e encontrei algo que tinha alinhavado para pouco mais que uma dezena de páginas. Como não era apropriado para o projecto em questão, voltou à casa de partida, mas depois comecei a pensar num outline para umas 30 páginas (pensando numa espécie de comic book one-shot, que faria com a Marta; já agora, uma experiência que explorarei ainda este ano através da Quireward com outro artista). Finalmente, quando o Rui Brito convidou a Marta a apresentar sinopses, voltámos a esta história. Uma vez que já tinha trabalhado com a Marta em, pelo menos, quatro histórias curtas (algumas das quais inéditas até há pouco), e experimentado outros projectos levados a bom porto, não foi difícil pensar na adaptação, que alterou substancialmente essa ideia inicial, em termos de estrutura, abordagem e até humor. Depois de discutirmos certos pormenores da narrativa, vontades do que desenhar, falar de certos métodos, etc., reescrevi-a para as 60 páginas e, em menos de um mês, se não estou em erro, estava a entregar o argumento. Todavia, todos os passos do projecto foram sendo debatidos e reescrevi alguma coisa, inclusive rever os diálogos já o livro estava quase finalizado. Estou sempre flexível a rever as coisas em conjunto com os artistas ou editores.

GM: É de salientar a atenção ao pormenor, desde a forma como as personagens falam ou se movem, até à atmosfera desta aldeia, que se poderia tratar de uma qualquer aldeia real no interior. Podem descrever um pouco esse processo? Em que se basearam para as personagens e para o espaço, Corvelo?

MT: Quanto às personagens, nós costumamos falar sobre as suas características físicas, personalidades e outros detalhes, como as suas histórias pessoais, incluindo coisas que nunca aparecerão na BD, que serão o meu ponto de partida. Ao descobrir os personagens através do desenho, vou acrescentando mais camadas. Uma personagem pode fazer-me lembrar uma ou mais pessoas que conheça, então vou acrescentar um pormenor ou outro dessas pessoas, e assim se vai construindo a personagem no papel.  Outras podem ter modelos mais concretos. Fisicamente, a tia Bé é baseada na mãe de uma amiga minha, que teve a paciência de servir de modelo durante uma tarde… Temos, ainda, uma ou outra piscadela de olhos à cultura popular, que os leitores poderão captar ou não, mas isso não é importante. Corvelo acabou por ser um compósito de aldeias portuguesas que conheço.  Como praticante de montanhismo e trekking, fui percorrendo a pé, ao longo dos anos, as serras do nosso país, pelo que estou familiarizada com as nossas aldeias. Julgo que essa experiência se traduz, aqui, numa espécie de síntese de vários atributos comuns: as ruas estreitas e semi-desertas, os animais a dormir ao sol, o café ou a mercearia como ponto de encontro e convívio, o envelhecimento da população no interior… Esta aldeia fictícia está ancorada algures na Beira transmontana.

PM: Quando idealizei, digamos assim, a minha parte do trabalho, pensei numa amiga que acabou por servir de modelo ou ponto de partida para a protagonista. Passámos uma tarde a falar, com a Marta a desenhá-la, mas depois houve um afastamento natural. E a personalidade ou a história pessoal da personagem nada tem a ver com a pessoa real, tendo a Madalena na verdade laivos de outras pessoas que conheço. Mas o mais importante não é estarmos presos a essa realidade, é sim encontrar a personagem em si. Durante anos, pensava que aquela conversa da “personagem decidir por si mesma” que os criadores falavam era treta, mas na criação de personagens realistas, sobretudo com as histórias da Marta, descobri que esse processo ocorre mesmo: moldamo-las a um ponto de completude em que compreendemos logo o que elas fariam em novas situações, em que elas se recusam a participar numa ideia mal-formada, em como mais correctamente responderiam a uma provocação, etc. E há um ponto em se sente alguma crueldade no que fazemos a estas “pessoas”.

GM: Marta, em termos técnicos como abordaste este trabalho? Quanto em Regressos é feito de forma analógica e usando ferramentas digitais? Houve alguma coisa que mudou em relação aos trabalhos prévios de BD que tens vindo a desenvolver?

MT: O processo para este livro não diferiu muito do das curtas que desenhei mais recentemente. Para arrancar, começo por fazer estudos prévios de personagens e ambientes em folhas soltas ou em sketchbooks. A fase seguinte, dos esboços ou “lápis”da BD em si, é digital, pois assim tenho mais flexibilidade para redimensionar e mover elementos, apagar e redesenhar… Também posso verificar logo o espaço que os balões e legendas irão ocupar nas vinhetas, e trabalhar à volta disso. Recorro novamente ao analógico na fase das artes finais, em que trabalho com pincéis e canetas e tinta-da-china sobre papel, quase sempre sobre bluelines  impressas a partir dos esboços digitais — isso foi algo que aprendi com o Jorge Coelho, meu colega de estúdio, embora os nossos métodos de trabalho sejam distintos. Regresso ao computador para a digitalização das artes finais, uns eventuais retoques, a aplicação de cinzas e a finalização da legendagem.

GM: Todos os vossos trabalhos em conjunto têm sido a preto e branco, salvo a excepção da curta na Quireward n.º 3, que troca o preto pelo azul. Alguma razão para optarem sempre por este minimalismo? Ou é uma questão que se prende puramente com custos?

MT: Quanto às curtas, não tivemos propriamente escolha. Foram todas para projectos previstos para serem editados a preto-e-branco ou, no caso da Quireward, em monocromia. Para Os Regressos, ainda ponderámos brevemente a utilização da cor mas chegámos à conclusão que isso não era essencial para a história, não se justificando esse trabalho extra para mim. No entanto, posso adiantar que a nossa próxima curta deverá ser a cores.

PM: Apenas diria que é importante saber, mesmo quando se escreve, como será o resultado final, pois isso obrigará a pensar em todos os aspectos na criação do argumento. Por mais estranho que possa soar, não é a mesma coisa “escrever para preto-e-branco” do que “escrever para cores”… Mais importante, englobando esse aspecto, é saber para quem ou com quem se está a escrever. Isso ditará muita coisa.

GM: Em termos profissionais, a Marta tem desenvolvido muito trabalho na área da ilustração. A BD é algo que surgiu mais recentemente. Como tem sido este novo desafio? E quais as grandes diferenças, enquanto artista, entre fazer ilustração ou BD?

MT: Embora a minha actividade profissional seja na área da ilustração, o gosto pela BD já vem de bastante longe. Só que fui fazendo outras coisas pelo caminho e, enfim, numa altura em que já devia ter juízo, aqui estamos nós… Quanto às diferenças, para já, fazer BD é muito mais moroso e, também, fisicamente desgastante. Há mais “problemas” para resolver, desde a composição geral da prancha à composição de cada vinheta individual, passando pela continuidade e raccords, e ainda é preciso pensar na junção do texto com a imagem, onde deixar espaço para colocar os balões para que haja fluidez na leitura… Um colega disse-me uma vez que fazer BD é como fazer um filme em que vestes vários chapéus: casting, location scouting, realização, direcção de arte, cenografia, figurinos, interpretação, edição… Tenho de concordar com ele.

GM: Como tem evoluído o vosso trabalho em parceria? O argumento salta de um para o outro várias vezes? Quão colaborativo é o vosso processo criativo, uma vez que terão cada vez mais confianças e à vontade um com o outro?

MT: Assim que chegamos a acordo sobre uma ideia para uma história, o Pedro começa por fazer um outline simples, delineando as acções mais importantes, página a página. Discutimos esse primeiro esquema e, após estar fechado, temos a fase do argumento propriamente dito, que também salta de um lado para o outro. O argumento só está verdadeiramente finalizado quando o livro vai para a gráfica, e já não há volta a dar.

PM: Com a excepção do desenho, para o qual não posso contribuir de forma alguma (ainda que tenha feito uns rabiscos para tentar expressar uma qualquer ideia de composição), penso que se trata com efeito de uma co-criação. Haverá outros projectos em que pode haver uma distribuição mais clara entre “escrita” e “desenho”, numa óptica de que o segundo é execução da visão da primeira, mas não no nosso caso. Não há praticamente aspecto que não tenha sido debatido a dois, mesmo que haja coisas que possam ser “atribuíveis” a um ou outros dos criadores, mas o livro em si, o todo que esperamos que ele seja, é fruto de uma colaboração, de um encontro de duas perspectivas, dois esforços, que se conseguem encontrar um caminho comum para o levar ao fim, muitas vezes abrem tensões que criam a “personalidade” final do projecto. Haveria coisas que, se as fizesse eu “sozinho”, se calhar tinham sido tratadas com muito menos elegância, com bruteza, e sem atenção para outras dimensões.

GM: Pedro, como tem sido conciliar a escrita sobre BD com a escrita para BD? Quando é que estes dois trabalhos se cruzam, forçando-te a optar por um em detrimento do outro?

PM: Uma coisa não atropela a outra, de forma alguma. Levantará problemas de gestão do tempo e dos esforços, claro, mas isso já se verifica na decisão entre o tempo para a escrita e aquele reservado para a preparação das aulas, traduções, outros compromissos profissionais, já para não falar da vida pessoal. Tal como ocorre com muito outros exemplos de pessoas que produziram mais escrita crítica do que criativa, ou essa primeira função antes de se dedicaram à segunda (o que não é, em rigor, o meu caso), haverá algumas lições aprendidas na interpretação das obras de outros que depois se procuraram aplicar nos próprios textos originais, mas cabe aos leitores verificar se isso teve ou não resultados positivos. Dito isto, tendo escrito para animação, cinema, teatro musical, dança e outras disciplinas, estamos sempre a aprender com todos os projectos criativos, claro. No entanto, isso levanta algumas questões de relacionamento ou de ética na relação com certas plataformas, como por exemplo no que diz respeito à participação de concursos, dos quais me tenho de afastar por poder participar nos mesmos, ou mesmo que não participe, não estar a exercer esse peso. Não me coibirei de dar continuidade ao meu trabalho de investigação, comissariado e organização de eventos, mas nesse papel de “avaliador”, terei de procurar outros modos de participação pública.

GM: Há algumas influências a destacar durante o fabrico deste livro?

PM: Essa é uma pergunta  impossível de responder, pelo menos de modo sério, ou completo, sem ser com o cliché de “tudo” ou “nada”. Quer dizer, é impossível responder que “não há nenhuma” influência, naturalmente, mas são tantos os factores, leituras, experiências que contribuem para quem somos enquanto pessoas e autores, que é difícil estar a afunilar as possíveis referências. Em termos de banda desenhada, como imaginarás, tenho na algibeira, a qualquer momento, centenas de referências. À medida que escrevia uma cena, uma linha de diálogo, uma solução de composição ou transição, distribuição da acção, etc., teria sempre em mente uma biblioteca de referências, que serviam de estímulo, alerta ou escolho a evitar… A ruralidade d’Os Regressos será mais devedora ao Comès que li na minha infância ou ao José Riço Direitinho que li na idade adulta? Tendo-me alimentado com toda a BD “slice of life” dos anos 1980 e depois a autobiografia e os alternativos dos anos 1990, não haverá elementos disso empregues na primeira metade do livro? A parte da fantasia tenta beber do conhecimento que tenho de vários sistemas mitológicos e do folclore nacional, ainda que não se mergulhe directamente em citações. Houve uma pessoa que folheou o livro e disse, “parece uma cena de BD americana”, informada por coisas clássicas (não de comic books contemporâneos mainstream), outra notou que a composição de páginas era mais devedora dos clássicos franco-belgas… Apenas espero que não seja visto como um pot-pourri ou uma colagem ao calhas, mas sim uma confluência feliz de várias referências num objecto e uma história que vos agrade.

Terminamos esta entrevista com a estreia do booktrailer da obra: