Uma das novidades da Comic Con Portugal deste ano é o lançamento do terceiro volume da antologia de Banda Desenhada Apocryphus. Para este terceiro volume o tema escolhido foi Femme Power, o mesmo inclui oito histórias de quinze autores que criaram o maior volume de Apocryphus até à data (104 páginas). A ilustração da capa deste volume é da autoria de Sara Leal.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis o prefácio por Miguel Jorge:

Muita  coisa mudou  neste  último ano.

Quando anunciei o tema deste volume em setembro de 2017,  não  imaginava  a importância e expressão que este iria ter no contexto social em que ainda vivemos. Sensivelmente um mês depois da divulgação no Fórum Fantástico, o movimento #metoo tornou-se virai e espalhou pelo mundo inteiro um estado de alerta geral em relação à forma como as mulheres são tratadas na sociedade que se afirma evoluída.

Este livro não é nem nunca pretendeu ser um manifesto pela luta do direito pela igualdade de géneros por­que, para mim, é ridículo ainda ter de se falar disso nesta era.

A igualdade de géneros não é uma ideia moderna. As mulheres na Suméria antiga, uma das primeiras civili­zações da história da humanidade, tinham o direito de comprar, possuir ou vender propriedades. Eram ado­radas divindades femininas e se o homem se divorciasse da mulher teria de lhe devolver toda a propriedade adquirida e em alguns casos pagar uma multa.

No antigo Egipto as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos do homem (por motivos de contexto, não me refiro às diferenças que existiam por questões de estatuto  social).

Na índia, durante o período da civilização Védica (cerca de  1500 a 500 A.C.)  as mulheres desfrutavam não só do mesmo estatuto como do mesmo direito à educação.

Na sociedade Esparta, as mulheres apesar de não terem direitos a nível militar e político, eram veneradas como mães dos guerreiros que davam força à nação helénica.

A partir de um determinado período da civilização romana, a mulher  mantinha-se sob proteção do pai mesmo após o casamento e a lei romana reconhecia a violação como um crime capital no qual a vítima não tinha culpa.

E nos nossos dias? Tristemente vivemos numa era altamente tecnológica e de acesso à informação mas debate-se a mulher tem direitos sobre o seu corpo, se deve ou não ganhar o mesmo quando executa a mesma função que um homem ou ainda ser estranho ver mulheres em funções que há uns 10 anos atrás lhes esta­vam quase vedadas, como motoristas de transportes públicos. Há data que escrevo este texto, as mulheres começaram a poder legalmente conduzir um carro na Arábia Saudita. Triste tudo isto ser notícia e não uma realidade há muito adquirida.

Como é possível que em 2018 estejamos a celebrar um dia Internacional da Mulher, como se fosse uma doença que mata milhares por ano e que por isso nesse dia devemos parar e pensar nela e angariar dinheiro para ajudar o combate?

O que  fazer com igualdade da mulher nos outros 364 dias do ano?

Tal como disse, a ideia inicial era outra e prendia-se com a necessidade que eu vinha sentindo de contrariar  o instinto criativo dos colaboradores do projeto, (embora seja um “mal geral” e não destes em particular), em criarem histórias tendencialmente com protagonistas masculinos ou histórias em que a mulher faz parte de um colectivo, vendo assim o seu papel esbatido e partilhado ao longo do  conto.

Pedi então a todos os colaboradores que trouxessem para este volume histórias onde o papel da mulher não é o de princesa ou de donzela em apuros, mas sim protagonista de histórias que colocam a mulher como motor e ponto central dos  enredos.

Outra novidade, foi na aposta essencialmente em artistas do sexo feminino porque ao apostar neste tema, também eu fui confrontado com as minhas escolhas quanto aos convites aos colaboradores, maioritariamen­te homens.

São seis os autores que se juntam  a nós  neste  volume:

Fernando Lucas, que colaborou comigo pela primeira vez há quase 25 anos, quando juntamente com ele e o Pedro Potier criámos a revista de banda desenhada Art Nove.

No primeiro volume não consegui incluir uma história da Maria João Lima, que foi uma das primeiras pes­soas a enviar uma história para este projeto quando ainda não era mais do que isso, mas este pareceu-me o momento ideal para voltar a convidá-la.

A Ana Varela é uma das melhores artistas que conheci nestes últimos tempos e recomendo vivamente que mantenham este nome e as suas exposições debaixo de olho.

O João Oliveira, apesar de escrever essencialmente fantasia, acedeu ao desafio que se apresentava para este volume.

A Mariana Flores participou no primeiro volume mas apenas como colorista, e aqui, não só reprisa esse papel numa das histórias como mostra que o seu talento vai além das cores.

Quando estava à procura de artista para a capa do segundo volume passei quase duas semanas a contemplar  várias páginas de arte de vários artistas e a Sara Leal era um dos muitos talentos que ilustrou o meu browser durante esses dias. Felizmente,  quando comecei a fazer  os convites recebi um sim antes de chegar a ela. E digo felizmente, porque isso fez com ela fosse a artista ideal para este tema. No seu estilo encantador a Sara criou uma capa com uma voz  única nesta ainda curta existência do Apocryphus.

nota: imagens gentilmente cedidas pelo editor.