Nos últimos anos, graças ao avanço tecnológico a que autores e faneditores têm acesso, os zines de banda desenhada têm-se vindo a aproximar morfologicamente das demais publicações de BD. Não foi esse o caminho que Mário André (aka Kustom Rats)  seguiu para os seus “fanzines de publicação irregular, para adultos e demais que tais” Doce Êmese Canibal, que, tal como o seu autor refere, se assemelham mais a zines “old school”.

Na capa de ambos, há uma declaração dedicada à não adoção do acordo ortográfico, apesar de ficar por explicar a adoção da grafia brasileira do termo médico émese.

A vertente old school é imediatamente enfatizada no início do primeiro volume, com uma biografia do autor norte-americano de naturalidade alemã Charles Bukowski num texto cuja datilografia se assemelha (ou quiça, foi, apesar do itálico no rodapé de uma das páginas, extinguir a magia do passado) àquela escrita numa máquina de escrever, ultimado com uma fotografia do visado com uma qualidade a recordar as fotocópias das fotocópias das fotocópias.

A razão da evocação de Bukowski tem um motivo imediato, uma vez que o leitor rapidamente se apercebe que a BD é dedicada à sua escrita ou de que o protagonista se baseia naquele. Por outro lado, Bukowski é ele próprio um sinónimo de underground e de small press, perfeitamente adequado ao modo de distribuição do zine do it yourself, evocando deste modo também o movimento underground comix norte-americano, tão caro a Mário André, como os seus zines espelham, em especial o primeiro.

Se o primeiro número de Doce Êmese Canibal, estava numerado com um n.º 1 e um ano (2017), o segundo número apresenta-se como o n.º 1 do Ano 2 (2018). Subintitulado Demónios da Krátia, numa óbvia referência à genése da palavra democracia, trata-se de um trabalho que nos parece mais antológico que o primeiro, no sentido de aparentemente compilar um diferente número de bandas desenhadas com experimentações e soluções díspares entre si, ao invés de um fio condutor que as una ou uma evocação comum, como o caso de Bukowski no primeiro número. Por exemplo após a primeira – e verborreica – BD, novamente dedicada a Bukowski, seguem-se diversas páginas de composições mudas (i.e., não legendadas), num claro contraste com o que nos habituou.

No entanto, mais do que a democracia, são as diferentes políticas adotadas a cola deste segundo número. O autor reflete sobre a influência da política na saúde, o ambiente, as migrações e o papel das grandes corporações.

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Mário André (n. Alpiarça, 1956) concluiu em Santarém o Curso de Enfermagem Geral e mais tarde a sua Licenciatura. Exerceu a sua atividade quer no Hospital Distrital de Santarém, quer nos Centros de Saúde de Alpiarça e Santarém. Dedicou-se à enfermagem desportiva no clube desportivo alpiarcense Os Águias, União de Almeirim, Sporting Clube de Portugal e Federação Portuguesa de Futebol. Aposentado, decide dedicar-se à banda desenhada,  tendo frequentado vários Cursos e Workshops, com Pedro Moura, Penim Loureiro e Susana Resende. Em abril de 2018, a Biblioteca Municipal expôs “Mostra de Fanzines de Mário André”, constituída pelos trabalhos dos dois números de Doce Êmese Canibal.

Doce Emêse Canibal
n.º 1 Ano 2017 + Ano 2 N.º 1 2018
Mário André
Fanzine autoeditado
Tiragem: 50 + 100 exemplares