O Gato Mariano tem direito a uma antologia de cinco anos de Críticas Felinas.

Houve um tempo em que O Gato Mariano era tão preciso como os solstícios no que toca às suas edições de autor. Não fazia listas no início do ano e a meio do mesmo presenteava os seus leitores com um cardinal. Mas se essas eram as suas manifestações impressas, a vida do felino sempre foi digital desde a sua criação.

Porém, algo mudou. Em 2018, os leitores dos zines do gato não contaram com a publicação do meio do ano. E janeiro de 2019 está quase a terminar e sobre as ditas listas que não faz não há notícias. Há quem postule que o felídeo não consegue estar parado, ocupado em nutrir-se com os seus múltiplos interesses. Aliás, o gato nada tem de unidimensional, alimentando-se de sons e ritmos, mas também da palavra e da imagem em múltiplas formas. Mas também já o visionámos deitado no sofá, sem poder com um gato pelo rabo. Mas, na altura, a música tocava… E quando o visado é crítico de música, o quotidiano pode converter-se em trabalho tão permanentemente quanto (ou não) se queira. Até mesmo quando se leva amigos a damas, estrelas decadentes ou casas ardentes.

Avisa-se. O Gato Mariano não é um bacano. O bichano não tem papas na língua de gato e não só faz críticas felinas a bandas, eventos e outras cenas musicais, como não poupa os hipsters sebosos da internet e outros que tais, visitem eles ou não o seu webcomic.

Mas o Gato não é um update 2.0 das cantigas de escárnio e maldizer. Levanta questões bastante pertinentes, inclusivamente aquelas que incomodam e não “interessam” ser levantadas. Quanto menos “interessam”, mais o gato gosta de as miar bem alto, como se fosse um dos maiores felinos existentes à face do planeta. Afinal, nas milhões de horas que os seres humanos passam o seu tempo a visualizar vídeos de gatos, muitos há em que está demonstrado cientificamente o seu complexo de superioridade.

E depois há o Tiago da Bernarda, o gato escondido com o rabo de fora e que por vezes se põe à conversa com autores de BD, ilustradores, fotógrafos e projetos musicais, enquanto o gato confronta os fãs que não entendem as suas reviews.

O Tiago da Bernarda rapidamente se desencantou com a crítica em geral e a musical em particular. Criou uma linguagem e um espaço próprios para fazer e simultaneamente não fazer nem crítica de música nem tiras cómicas. Usa e abusa da síntese. No traço. No texto. Excepto quando não, para o leitor manter a atenção à letra da sua canção, rime ela ou não.

Não faz listas, não faz críticas, não faz tiras… E produz tanto? Aqui há gato!

E também há livro desde janeiro de 2019! Graças à série Mercantologia da Chili Com Carne, foram compilados trabalhos retirados da net e dos seus 5 zines, demonstrando mais uma vez o quão importante é a “recuperação do material perdido no mundo dos fanzines e afins”. E esta missão é recompensada com um conjunto de bandas desenhadas que demonstra a universalidade do trabalho do autor, evitando ser um redutor conjunto de private jokes entre o Gato e a indústria (e não-indústria) musical. Depois de 5 anos de Gato, é impossível evitar o lugar-comum de solicitar que… ou, espera, talvez seja… Venham mais seis! E que comece a pagar os finos que deve aos amigos! Mas, por via das dúvidas, não lhe passem a mão pelo pêlo!

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse:

A música portuguesa sob o escárnio de um gato desbocado.
Peludo, porte médio, língua afiada. É assim que Tiago da Bernarda descreve o seu alter-ego, mais conhecido como Gato Mariano, o crítico felino que vagueia os confins da Internet. É nesse lugar amorfo e amoral que, desde 2014, tem vindo a discutir sobre os mais recentes projectos da música alternativa portuguesa.
O que começou como webcomic vira agora uma antologia que reúne as melhores tiras dos últimos quatro anos, num intenso volume de  144 páginas, muitas delas a cores (18x25cm) e uma super-capa com cortante de gato assanhado!
O Gato Mariano é uma das grandes criações da década (estimativa conservadora) em Portugal. Possivelmente nunca lhe será feita devida justiça, até porque um dos encantos que tem é a “subterraneidade”, o traço e as reflexões como nos grandes mestres de apelo clandestino na BD do final do século passado. Não é um Kochalka português, nem um Tony Millionaire português, nem um Mike Diana português; é um Tiago da Bernarda português. – Samuel Úria 

Tiago da Bernarda (n. 1990) é ilustrador freelancer e autor da webcomic “O Gato Mariano”. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e, posteriormente, tirou o curso de Ilustração para Novos Media na ETIC – Escola de Tecnologias Inovação e Criação. Colaborou com festivais como Milhões de Festa, Zigurfest ou Black Bass – Évora Fest. Ocasionalmente colabora com o site Rimas e Batidas.

O Gato Mariano: Críticas Felinas (2014-2018)
Tiago da Bernarda
Editora: Chili Com Carne
Páginas: 144
Encadernação: capa mole recortada
PVP: 15,00€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.