A proibida obra de Jamón y Queso é publicada em Portugal.

O mote para a criação de O Pesadelo de Obi foi simples. Após um discurso televisivo do Presidente da Guiné Equatorial Obiang Nguema Mbasogo, onde este afirmava que o país era um dos mais prósperos do mundo com o maior rendimento per capita no continente africano, três amigos, perante a miséria em que a população vive, interpretaram que o Presidente se estava a rir dos guinéu-equatorianos e que estava na altura da população também se rir do Presidente. Decidiram então criar um livro de banda desenhada, o primeiro da Guiné Equatorial.

Chino e Tenso Tenso (pseudónimo dos autores que desejam permanecer anónimos, por enquanto) ficaram responsáveis respetivamente pelo argumento e os diálogos. Quanto aos desenhos, competem a Ramón Esolo Ebalé, que também assina na imprensa internacional como Jamón y Queso.

Atendendo à pouca liberdade de expressão que se vivencia no país, contactaram a organização não governamental norte-americana EG Justice, a qual ficou responsável por editar e distribuir a banda desenhada na Guiné Equatorial. Entretanto, Ebalé emigrou para o Paraguai, onde o designer gráfico Rodrigo coloriu mais de uma centena de páginas de BD.

Ao fim de três anos de trabalho, em 2014, 3000 exemplares foram impressos em espanhol em Barcelona e distribuídos clandestinamente na Guiné Equatorial, tendo ainda sido impressos outros 500 em língua inglesa para distribuição nos EUA.

Desde essa altura, muito aconteceu, tendo sido o mais noticiado internacionalmente a prisão de Ebalé em 2017 quando regressou ao seu país para renovar o passaporte. Sob acusações falsas, num plano confessado aquando da sua libertação, esteve preso cerca de 7 meses na infame Black Beach apesar da pressão internacional, só lhe sendo renovado o passaporte cerca de 2 meses depois, novamente graças à pressão internacional.

Ebalé, durante a sua estadia na prisão, foi galardoado com o Prémio “Coragem em Publicação Cartoonista” da Cartoonists Rights Network International, em reconhecimento da sua criatividade artística e bravura face à brutal repressão de que foi alvo na prisão. Como noticiámos, em janeiro deste ano, no âmbito do festival Off to Off, que promove a cerimónia anti-prémios de Angoulême, foi-lhe atribuído o Prémio “Couilles au cul”, que valoriza a coragem dos ilustradores de imprensa. Três meses antes, tinha sido editado em França Le Cauchemar d’Obi pelas Editions L’Harmattan.

E no dia 3 de dezembro, a Tigre de Papel lança a obra no nosso país, no espaço lisboeta Todomundo, sito na Av. Duque de Loulé, 3A, pelas 18h30, com a participação do desenhador via skype.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

O Pesadelo de Obi foi elaborado por Ramón Esono Ebalé e por dois companheiros sob pseudónimo. A sátira pungente ao regime de Obiang, apesar de proibida, correu a Guiné Equatorial de mão em mão e Esono Ebalé foi preso. A situação ganhou dimensão internacional e o autor foi libertado após longos meses numa das mais violentas prisões africanas.
O Pesadelo de Obi é uma BD onde se narram, em tom humorístico, as desventuras de uma personagem, uma representação de Obiang, que uma manhã acorda convertido num guineense normal, vítima da miséria e da opressão da sua própria ditadura.
Este «artefacto proibido» foi traduzido agora para português, e é publicado pela Tigre de Papel, com o mesmo objetivo com que foi lançado originalmente na Guiné Equatorial: chamar a atenção para a realidade do atual regime deste país da CPLP.

O Pesadelo de Obi
Chino, Tenso Tenso & Ramón Esono Ebalé
Editora: Tigre de Papel
Páginas: 136, a cores
ISBN: 978-989-99974-6-2
PVP: 17,75€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.