A compilação da minissérie de Mark Millar e Steve McNiven.

Já há algum tempo que os autores de banda desenhada que trabalham para a indústria norte-americana se aperceberam que, financeiramente, é importante terem criações suas das quais detenham os direitos de autor, não somente para lucrarem com as vendas das suas BD nas diferentes apresentações (revistas, compilações em capa mole e dura, álbuns de luxo, etc), mas com o merchandise e as adaptações das mesmas a outros meios, em especial o cinema e a televisão.

O argumentista escocês Mark Millar tem vindo a trabalhar nas duas frentes, quer realizando trabalhos para editoras como a DC e a Marvel, quer realizando as suas próprias criações para a Millaworld, a empresa criada por si que controla os direitos de autor das suas séries. A primeira minissérie foi Wanted (2003-2005), editada pela Top Cow e adaptada ao cinema em 2008. Mais tarde, surgiria Kick-Ass (2008-2010), editada pela chancela Icon da Marvel e adaptada ao cinema em 2010.

A banda desenhada Kick-Ass e a respetiva transposição para o cinema, granjearam uma fama sem precedentes a Millar, o que lhe permitiu focar-se em conteúdos próprios. Desde então, as suas séries foram inicialmente publicadas pela Icon e posteriormente pela Image – Némesis (2010), Superior (2010), Super Crooks (2012), Kingsman: Serviço Secreto (2012), Kick-Ass 2 (2012), Hit-Girl (2012), Kick-Ass 3 (2013), O Legado de Júpiter (2013), O Círculo de Júpiter (2015), Starlight: O Regresso de Duke McQueen (2014), KM/H: Acima do Limite (2012), Huck (2015), Chrononauts (2015), Imperatriz (2016), Renascidos (2016). Destas minisséries, foram transpostas para o cinema Kick-Ass 2 (que inclui também Hit Girl) e Kingsman.

Apesar de nenhuma das minisséries ter encontrado a mesma receção da crítica e do público que Kick-Ass, a Millarworld tornar-se-ia notícia em 2017, quando a mediática gigante do streaming Netflix adquiriu a empresa, tendo sido anunciado que diversas minisséries seriam adaptadas a filmes, séries televisivas e um anime, a transmitir na Netflix, apesar de ainda não existir nenhuma data de estreia para nenhuma dessas transposições.

Este hype despertou o interesse de diversas editoras estrangeiras na publicação das séries de Millarworld em diferentes países. No entanto, em Portugal, somente a G. Floy demonstrou interesse em tal, tendo conseguido, sem concorrência, assegurar os direitos para a publicação destas séries no nosso país.

Isso permitiu que fosse editado finalmente este ano no nosso país Kick-Ass, um obra importante na história da banda desenhada, apesar do atraso da publicação da mesma poder ofuscar um pouco o quanto foi revolucionária, tal foi a quantidade de sucedâneos e imitações que a indústria norte-americana produziu nos anos seguintes. E a que a própria Millarworld não escapou, na tentativa vã de produzir algo simultaneamente semelhante e diferente de Kick-Ass.

Nesse sentido, a G. Floy tem vindo a publicar a maioria das minisséries da Millarworld, apesar de, com algumas exceções, algumas não merecerem mais do que uma nota de rodapé na história da edição da BD estrangeira publicada no nosso país, dado parecerem utilizar fórmulas recicladas, com twists previsíveis e uma leitura simples e rápida para leitores pouco exigentes, como muitos dos produtos da indústria norte-americana de banda desenhada.

Némesis, um dos 5 lançamentos da G. Floy em dezembro, encaixa perfeitamente nesta definição. Se o anterior Huck editado pela G. Floy permitia uma pausa na violência – como o marketing explorou em todo o seu esplendor, aproveitando-se da má receção aos filmes da DC -, Némesis, na verdade editado anteriormente nos EUA (entre maio e dezembro de 2010, na chancela Icon da Marvel), regressa à mesma. No entanto, estas 2 minisséries têm vários pontos em comum. Ambas tentam – e falham – trazer uma nova abordagem no género em que se inserem. Ambas tentam brincar com conceitos há muito estabelecidos no subgénero dos super-heróis para lhes dar uma nova perspetiva, seja de uma forma um pouco mais séria e um pouco mais conseguida em Huck, ou mais humorística e sem sentido em Némesis.

Nesse sentido, a sinopse de Huck faz-nos olhar desconfiados para essa banda desenhada, o que se desvanece durante a leitura ao apercebermo-nos do quão despretensiosa deve ser encarada a obra em questão. Já a sinopse de Némesis (como se pode conferir, abaixo) tenta pregar uma partida ao leitor, ao afirmar-lhe que isto é mais uma BD de um super-herói milionário repleto de gadgets, para no final explicar que afinal não se trata nada disso. Mas a leitura da BD é mais penosa, com um Millar em baixo de forma, imediatamente pós-Kick-Ass. Em ambas as séries, o maior expoente é a arte de Rafael Albuquerque (em Huck) e Steve McNiven (em Némesis), desde a planificação das páginas à arte-final, perfeitamente enquadradas na indústria norte-americana de BD.

Ao contrário de Huck, de Némesis não existem ainda notícias definitivas para uma transposição para o meio audiovisual, apesar de diversos estúdios, desde 2010, se interessarem pela produção da mesma. Talvez seja melhor assim…

Eis a sinopse da editora:

Os autores por trás de sucessos como Velho Logan e Marvel: Guerra Civil regressam com uma história louca de um homem em busca de vingança!
Quem é Némesis?
Ele é o herdeiro de uma família privilegiada e dos milhares de milhões que os seus falecidos pais lhe deixaram. Dono de uma frota de carros espectaculares, de um hangar cheio de aviões e de gadgets tecnológicos sempre às suas ordens. E decidiu vestir uma máscara e uma capa, e tornou-se num homem de branco numa luta implacável por uma causa em que acredita.
Mas se pensam que esta é uma história que já ouviram antes… pensem outra vez! Isto vai ser completamente diferente de tudo o que leram assim que virarem a primeira página. Némesis é o relato das fantasias mais violentas de um vilão para acabar com todos os vilões, um redemoinho de ultra-violência, caos e humor negro, que só a mente louca de Mark Millar (Kick-Ass, Kingsman: Serviço Secreto) poderia imaginar.

Mark Millar já entrou várias vezes para a lista de best-sellers do New York Times com livros seus, e é o escritor de Wanted, Kick-Ass, Kingsman, O Legado de Júpiter e o Círculo de Júpiter, Némesis, Superior, Supercrooks, American Jesus, KM/H, Starlight e Chrononauts. Muitos desses livros foram já adaptados ao grande ecrã, como Wanted, Kick-Ass, Kick-Ass 2 e Kingsman: Serviço Secreto. E todos os outros livros que escreveu estão neste momento em filmagens, desenvolvimento ou produção, para serem transformados em séries de TV ou em filmes, nos mais importantes estúdios atuais, em particular desde que a Netflix adquiriu a Millarworld e iniciou o processo de desenvolvimento das suas propriedades intelectuais.
O seu trabalho na DC Comics inclui o aclamado Superman: Red Son (em português, Super-Homem: Herança Vermelha), e para a Marvel Comics criou The Ultimates (Os Supremos) – que o argumentista Zack Penn declara ter sido a sua inspiração para o filme dos Vingadores, Civil War (Guerra Civil) – que inspirou o filme do mesmo nome-, bem como Wolverine: Old Man Logan (Velho Logan), que serviu de base à história do blockbuster Logan, de 2017.
Mark é produtor executivo em todas as suas adaptações para filme, e é atualmente consultor criativo da Fox Studios para filmes da Marvel. Desde 2018 que os fãs viram o regresso de títulos como Kick-Ass, Hit-Girl e Kingman em aventuras totalmente novas. Ele e a sua mulher continuam a gerir a linha Millarworld dentro da Netflix.

Rafael Albuquerque venceu já vários prémios Eisner e Harvey e é o criador da série best-seller do New York Times American Vampire (DC Comics/Vertigo), escrita pro Scott Snyder e Stephen King, e de Ei8ht, da Dark Horse.
Rafael já trabalha na indústria de comics desde o início dos anos 2000 e tem trabalhos assinados para a maioria das editoras americanas, tendo ilustrado séries populares como Batman, Wolverine, Animal Man e, mais recentemente, Batgirl. Fez parte do relançamento da Millarworld na Netflix, tendo ilustrado um arco de história para a nova série de Hit-Girl, bem como a minissérie Prodigy.

Némesis
Mark Millar & Steve McNiven
Editora: G. Floy
Páginas: 112, a cores
Encadernação: capa dura
ISBN: 978-84-15510-86-5
PVP: 13,00€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.