A entrevista aos editores da Ala dos Livros, cerca de um ano e meio após o seu início de atividade.

A editora Ala dos Livros dos irmãos Ricardo e João Magalhães Pereira iniciou a sua atividade no segundo semestre de 2018, com a edição da banda desenhada Beowulf dos espanhóis Santiago García e David Rubín, sendo este último um dos autores convidados na altura pela Comic Con Portugal.

Desde então, tem vindo a constituir um catálogo de banda desenhada europeia, do qual já constam 8 lançamentos. Entretanto, a sua obra “A Morte Viva” de Olivier Vatine e Alberto Varanda, com direito a presença dos autores e exposição no XV Festival Internacional de BD de Beja, foi galardoada com o Prémio Melhor Desenho de Autor Português para Varanda na iniciativa municipal dos Prémios Nacionais de Bandas Desenhada do Festival Internacional de BD da Amadora em 2019. Neste último evento, por sua vez, esteve presente o duo Antonio Altarriba e Keko, autores da obra “Eu, Louco”.

Nas vésperas da visita profissional à 47.ª edição do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême, propícia a uma altura em que a editora está a limar o seu plano editorial para 2020 – ano em que a Ala dos Livros pretende editar uma dezena de obras -, entrevistámos os seus editores. As respostas devem ser consideradas da editora enquanto entidade, exceto no caso das respostas pessoais, onde é identificado qual dos editores entrevistados procedeu às mesmas.

Nuno Pereira de Sousa: Qual foi o momento-chave que vos motivou a constituir uma editora de banda desenhada?
Ala dos Livros: A decisão de criar a Ala dos Livros surgiu por vários motivos. Talvez o mais relevante tenha sido o facto de o nosso avô, Jorge Magalhães, apesar da sua grande paixão pela BD e do seu muito e reconhecido trabalho como editor, nunca ter tido a “sua” editora. Ouvimos esse desabafo várias vezes e ficou registado como sendo algo que gostaria de ter feito. Uma vez que temos outras atividades profissionais, pensámos nisso mas fomos adiando o momento, a que, felizmente, ele ainda assistiu. Podemos pensar se podíamos tê-lo feito antes, mas aconteceu quando tinha de acontecer e entendemos que existiam condições para avançar. Trata-se de um projeto que não depende de ninguém e que, apesar de ser difícil dissociar o nome, também não pretende viver à sombra do nome de família. Nem nós nem a Ala dos Livros precisamos de “roubar” o nome e/ou projetos de ninguém como forma de afirmação pessoal.

NPS: Acreditam que o vosso crescimento e formação pessoal foram influenciados pela banda desenhada?
AL: Como não podia deixar de ser, a banda desenhada foi uma presença constante em nossa casa. As visitas, almoços e jantares com autores mais ou menos conhecidos foram desde cedo uma realidade e eram algo habitual e normal. Talvez isso tenha ajudado no sentido de não termos sido habituados a ter de gostar de toda a banda desenhada ou de tudo o que um autor publicava apenas porque era aquele autor. Sempre nos foi permitido criar e manifestar o nosso gosto pessoal. Se houve alturas em que era normal andarmos pelos bastidores dos festivais de BD com regularidade, noutras fases da vida fomos tendo outros focos de interesse que deixavam pouco espaço e tempo para os livros de quadradinhos.

NPS: De que forma tal se manifesta atualmente no vosso novo papel de editores?
AL: Manifesta-se sobretudo nas nossas preferência e gostos pessoais. Desde cedo que fomos tendo noção do que era fazer livros. Primeiro pelas conversas que íamos tendo ou ouvindo sobre isso, depois, por alguns trabalhos que nos foram sendo propostos de tradução ou revisão. No fundo, entrámos neste meio da mesma forma que o nosso avô e a nossa mãe também tinham entrado. Talvez por isso tenhamos começado a desenvolver algum espírito crítico sobre a qualidade e realidade das edições que nos chegavam às mãos. Isso é algo que tentamos colocar em prática na Ala dos Livros.

– David Rubín na Comic Con Portugal 2018

NPS: Atendendo ao pouco que se publica sobre banda desenhada em Portugal e tendo vós provavelmente acesso a material privilegiado, está nos vossos planos escreverem sobre a banda desenhada publicada em Portugal nas últimas décadas, tendo por base o trabalho de Jorge Magalhães e Maria José Pereira?
Ricardo M. Pereira: Não é um objetivo pessoal. Penso que há uma grande diferença entre gostar de banda desenhada, mesmo ao nível da sua edição, e ser um estudioso e profundo conhecedor da banda desenhada como era o nosso avô Jorge Magalhães, ou ter um percurso nacional e internacional como a nossa mãe. Pessoalmente, será muito difícil que venha a ter sequer uma infíma parte do conhecimento do meu avô sobre o tema. Da mesma forma que a nossa mãe, que na minha opinião será certamente uma das maiores conhecedoras e mais experientes editoras de BD em Portugal, em particular no segmento franco-belga, assume não saber muito do que o meu avô sabia. Ouvir o meu avô falar de BD era, além de um prazer – mesmo quando não fazia ideia do que ele estava a dizer ou de quem estava a falar -, uma autêntica lição de “história de arte”. Mas, apesar disso, ele sempre fez questão de não fazer valer esse seu maior conhecimento dos temas – BD ou outros – como algo de maior importância perante os outros. Também por isso não tenho qualquer pretensão ou presunção nesse sentido. Gosto da BD simplesmente como forma de arte e de expressão. Apesar de esta poder transmitir diferentes mensagens e sentimentos, não partilho a necessidade de “intelectualizar” a leitura de uma obra para justificar gostar ou não da mesma. Penso que isso não torna o trabalho de edição forçosamente melhor. Sempre que nos propomos editar um título, não deixa de haver um trabalho de pesquisa prévio, sobre o autor, sobre a série, com o qual aprendemos sempre mais alguma coisa na procura de podermos compreender como fazer melhor aquela edição.

NPS: Não se editam no nosso país edições de luxo, mais onerosas, de obras de banda desenhada. Acreditam que há mercado em Portugal para tal?
AL: Acreditamos que sim, embora reconheçamos que o nosso mercado é limitado em dimensão e poder de compra. Haver mercado há, claramente. A questão que colocamos em termos de decisão editorial é se esse mercado tem dimensão suficiente para justificar o investimento com retorno no tipo de edição que por vezes até gostaríamos de fazer. Mesmo com a nossa curta existência editorial, também já tivemos de tomar algumas opções sobre um equilíbrio entre a forma ideal em que gostaríamos de editar uma obra e a realidade dos números e estudos de mercado. No nosso entender, a edição de obras em formato mais cuidado valoriza a obra e valoriza o próprio livro em si, dando ao ato de ter e de ler um livro maior importância. Alguns dos lançamentos que vamos fazer em 2020 enquadram-se perfeitamente em edições de luxo, tanto em termos de apresentação como de acabamentos.

NPS: A Ala dos Livros posicionou-se como uma editora de BD franco-belga (e espanhola). Quais as razões de tal? Prevêem alargar o catálogo a outras latitudes?
AL: A Ala dos Livros não é uma editora de BD franco-belga. É uma editora que começou por editar BD e cujo catálogo atual terá um predomínio da BD franco-belga. Mas temos projetos já em andamento noutras áreas. A BD será apenas uma questão de gosto pessoal, provavelmente como resultado daquelas obras e autores com que fomos crescendo. O catálogo da Ala dos Livros tem espaço para continuar a crescer e abranger várias “Alas”.

Stand da Ala dos Livros no Festival Internacional de BD da Amadora 2019

NPS: A maioria das obras publicadas pela Ala dos Livros é de autores com provas já dadas no nosso país. Planeiam publicar no futuro uma maior quota de livros cujos autores não tenham obra editada em Portugal?
AL: As nossas escolhas, tanto de autores como de obras, são feitas segundo critérios que temos bem definidos no nosso plano de negócios. Obviamente, são os nossos critérios, mas começam por gostarmos das obras. Esse é o primeiro ponto. Outro aspecto que consideramos importante é escolher obras e autores que nos permitam dar continuidade a um catálogo coerente a vários níveis. Algumas dessas escolhas são óbvias e muito fáceis de fazer. Existem séries e autores às quais temos uma ligação familiar propriamente dita. Por exemplo, o Miguelanxo Prado é nosso amigo pessoal há muito tempo – era “desconhecido” quando a minha mãe começou a trabalhar nas traduções da obra dele em Portugal -, o que desde logo torna a nossa ligação muito mais próxima. Outras foram séries publicadas pela primeira vez pelo nosso avô ou pela nossa mãe, na totalidade ou não, pelo que não deixamos de sentir alguma parte de obrigação “familiar” em continuar ou fechar esses ciclos. Depois existem algumas questões estratégicas de posicionamento e evolução futura do catálogo que estão relacionadas, por exemplo, com o equilíbrio entre títulos isolados e séries ou coleções.

NPS: Das obras editadas até ao momento, qual foi o vosso bestseller? Que balanço fazem de um ano e meio de edições? Já têm um perfil dos vossos leitores?
AL: Começando pelo fim, esperamos que os nossos leitores possam ser todos aqueles que gostam de edições de qualidade. Definir um bestseller é complicado e muito relativo quando temos apenas 6 a 7 títulos como base de análise. Alguns desses são títulos isolados, outros de séries em curso, outros ainda de séries comemorativas, com lançamentos espaçados entre si, em algumas situações, mais de 6 meses. Em alguns casos, foi possível contarmos com a presença dos autores, enquanto noutros ainda não o conseguimos fazer. Podíamos, portanto, fazer a análise de várias formas e ter diferentes resultados, todos eles devidamente justificáveis. O que podemos concluir, e que nos deixa bastante satisfeitos, é que tem havido um aumento das vendas iniciais de cada novo título que lançamos. Mais relevante ainda é estarmos a registar que esse aumento é acompanhado pelo aumento das vendas dos títulos anteriores, o que provavelmente significa que mais leitores começam a reparar nas nossas propostas e confiar nas edições da Ala dos Livros.

NPS: Qual a obra que ficou aquém das vossas expetativas relativamente à crítica e público, atendendo à qualidade da mesma?
AL: A nível de crítica, consideramos que no geral todas as obras foram muito bem recebidas. Podíamos não responder ou dar a volta à questão em termos de vendas mas, sendo diretos, a obra com menos vendas é o “Beowulf”. Mas foi um “risco” calculado – quando iniciámos a nossa atividade, podíamos ter começado com qualquer título conhecido, de autores já publicados, e que sabíamos ter um retorno seguro em vendas. Podíamos ter pegado em diversas edições dentro dos muitos universos televisivos ou cinematográficos à escolha, que garantem sempre uma nova moda (e vendas). Acima de tudo, queríamos que a nossa primeira obra publicada fosse precisamente uma afirmação de que a Ala dos Livros não seria apenas BD franco-belga clássica de autores clássicos nem mais uma editora mainstream. Ao escolhermos como primeiro título uma obra como o “Beowulf”, do David Rubín, sabíamos que era um excelente título para início de catálogo, com muitos leitores e admiradores em Portugal, mas que seria prejudicado pela incerteza de ser o primeiro título de uma nova editora. Por isso, não consideramos que tenha ficado aquém das nossas previsões e é um título que será sempre um marco no nosso catálogo. Efetivamente, as vendas deste título também têm vindo a aumentar sempre que lançamos um novo livro.

– Alberto Varanda e Olivier Vatine no XV Festival Internacional de BD de Beja

NPS: A exposição de “A Morte Viva” foi um vero sucesso na mais recente edição do Festival Internacional de BD de Beja, com público interessado em adquirir não só a edição portuguesa mas também a edição francófona em preto e branco. Foi difícil tomarem a decisão de editar a cores ou a preto e branco?
AL: Este é um exemplo interessante das escolhas que temos de fazer. Quando analisámos a obra pela primeira vez, fizemo-lo na edição a cores. Mas pedimos também a edição a preto e branco, que nos deixou maravilhados. Chegámos à conclusão de que uma tiragem “normal” com uma edição desse tipo poderia ser demasiado arriscada para o nosso mercado. Foi por esse motivo que propusemos a inclusão do caderno gráfico – que apenas tinha sido publicado com a edição a preto e branco. E conseguimos editar uma edição a cores que reuniu a capa e o caderno gráfico da edição original a preto e branco. Digamos que foi a solução que encontrámos para conseguir o melhor das duas opções numa edição com algo que fosse exclusivo – e esse será sempre um dos nossos objetivos. Já no caso de “Comanche”, apesar de alguns comentários quando anunciámos a série, nunca tivemos dúvidas de que a nossa edição seria a preto e branco.

NPS: Planeiam prosseguir com a edição de mais obras da série “Les univers de Stefan Wul”?
AL: Há outros títulos que gostaríamos de fazer e que temos em análise.

NPS: Após os 5 episódios da autoria de Hugo Pratt de “Escorpiões do Deserto”, está nos vossos planos a edição dos 2 episódios por outros autores, um por Pierre Wazem em 2005 e outro por Giuseppe Camuncoli e Matteo Casali em 2007?
AL: Um dos princípios que defendemos como coerência de catálogo é que as séries devem ser enquadradas com o seu autor e com a sua época. Isso confere às obras identidade gráfica e artística próprias. A continuação, reinterpretação ou spin-offs de séries por outros autores deverá ser estudada caso a caso. Isso significa que teremos sempre o cuidado de dividir e apresentar edições comemorativas ou completas por fases. “Os Escorpiões do Deserto”, de Hugo Pratt, nunca tinha sido publicado na totalidade em Portugal. Já confirmámos que iremos continuar em 2020 com o segundo volume, que reúne os episódios 3 e 4 da edição francesa. Concluída a fase do Hugo Pratt, tomaremos as opções seguintes. Mas estamos a falar em algo para 2022… E ainda é cedo.

NPS: Para além dos vossos compromissos profissionais na 47.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, têm algumas expetativas pessoais quanto a alguma exposição ou atividade?
RMP: O tempo vai ser curto para conseguir dividir a agenda entre os compromissos já confirmados e os outros contactos e assuntos que surgem nestas ocasiões. Gostaria muito de ver algumas das exposições, mas este ano penso que será sobretudo para rever alguns autores amigos – agora com outras responsabilidades – e responder aos compromissos profissionais.

NPS: O que podem ir revelando aos nossos leitores sobre as obras que vão editar em 2020?
AL: Como referido, não temos por norma anunciar com grande antecedência os planos editoriais, mas já foram sendo confirmadas algumas novidades. Para além de “O Pacto da Letargia”, o novo livro de Miguelanxo Prado, iremos dar continuação às séries “Comanche”, com o terceiro e último volume desta fase – que reserva algumas surpresas -; o segundo volume de “Undertaker”; e o segundo volume de “Os Escorpiões do Deserto”. Confirmamos também o lançamento da edição do terceiro tomo de “Mattéo” da autoria de Gibrat e o início da edição de uma grande série clássica da BD europeia nunca totalmente publicada entre nós. Podemos adiantar que será uma edição especial que, face às edições anteriores efetuadas no nosso país, apresenta material adicional. Vamos publicar esta série de forma alternada: o primeiro volume da série e o primeiro dos volumes inéditos em Portugal. Duas outras novidades que temos em agenda, lá mais para final do ano, serão duas edições especiais. Pensamos que vão ser uma boa e inesperada surpresa para os nossos leitores. Muito marcante e importante para nós é o lançamento do “Estórias da História”. Trata-se de um livro do nosso avô Jorge Magalhães com ilustrações de Augusto Trigo, que será o primeiro de uma coleção que queremos iniciar com o seu nome, dedicada sobretudo à sua extensa obra com autores portugueses. Fora do âmbito da BD, temos também previsto um lançamento na área da literatura fantástica. No total, temos já cerca de 10 lançamentos previstos para este ano. Mas o ano ainda agora começou e Angoulême servirá também para fecharmos contratos de títulos que já propusemos.

– Antonio Altarriba e Keko no Festival Internacional de BD da Amadora 2019

© fotografias: Ala dos Livros

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.