As versões e reformulações de Tequila Shots.

A história das diferentes versões da banda desenhada Tequila Shots de Claudio Yuge e Juan Burgos está intimamente ligada ao percurso de vida dos seus autores. Publicada em Portugal em 2019, esta banda desenhada já tinha tido direito a duas outras versões distintas no Brasil. Façamos então uma viagem pelos dois países atlânticos ao longo de 28 anos.

Clang!

O Clang! foi um fanzine criado por Claudio Yuge em 1992. Para além de publicar tiras ou BD curtas da sua autoria, “eu costumava escrever sobre quadrinhos, autores nacionais e coisas que eu gostava“, explica o autor. Para documentar o género de material que era publicado no fanzine, Yuge disponibilizou as seguintes fotografias.

Atente-se na colagem de textos e imagens, típico da produção de fanzines da altura, sendo frequentemente a reprodução realizada através de simples fotocópias a preto e branco. Para além do círculo mais próximo de interessados, a difusão era feita a nível nacional através do correio, ao realizarem-se trocas com outros fanzineiros espalhados pelo Brasil, contrariando, deste modo, qualquer tipo de isolamento que um fanzineiro pudesse sentir em Londrina, uma cidade a cerca de 400 km de distância da capital paranaense, Curitiba. Uma história comum a muitos fanzineiros espalhados por este mundo não só na década de 90 mas desde a década de 30 do século passado, na qual, porém, já é evidente o recurso ao computador no tipo de letra e justificação dos textos, que gradualmente substituiu os textos manuscritos e datilografados em máquinas de escrever nestas publicações.

Com o advento e generalização do mundo digital, a produção e difusão de de zines modificou-se completamente, apesar de ainda existirem no Brasil alguns fanzines que se enquadram dentro da linha/espírito do Clang!, como o multipremiado Q.I. – Quadrinhos Independentes de Edgard Guimarães, criado em 1993.

Quanto à inclusão de bandas desenhadas da sua autoria em Clang!, Yuge revela-nos: “Eu sempre fiz minhas HQs, desde pequeno, e na adolescência eu começava a escrever um pouco melhor, embora os desenhos sempre tenham sido muito simples. Os desenhos eram meus e eu já tinha em mente que não buscava exatamente a beleza da ilustração — até porque nunca tive talento como desenhista. Eu buscava simplesmente traços que pudessem conduzir a narrativa.

Em 1996, tendo Yuge 16 anos de idade, é publicada a primeira versão de Tequila Shots no fanzine Clang!A primeira versão, se não me falha a memória, começou a ser feita em 1994, sendo publicada em janeiro de 1996“, conta Claudio Yuge. “De tanto fazer pequenas histórias nesse zine – ele teve umas seis ou sete edições, se não me engano -, fiz um só com Ed e Toni — que, portanto, seria a edição número sete ou oito.

Em março de 1998, surge a revista homónima ao fanzine, sob a chancela Script. Não só o logotipo da chancela é da autoria de Papito e Rafman (autor de Crença, publicado também pela Script), como Papito também é o editor da revista. “Acho que em 1995 ou 96, conheci o Juan – que assinava como Papito -, que se apaixonou pela história e quis transformá-la em um formato de revista. Depois disso, fizemos mais três edições de Clang! em formato revista, apenas com histórias sobre Ed e Toni.” No primeiro número da revista é então republicado Tequila Shots and Make it More Fun…

A história narrada é a de dois amigos universitários que partilham um apartamento, o impulsivo Ed e o depressivo Toni, cujo crescimento enquanto jovens adultos os vai separando. Pelo meio, há várias referências à cultura popular, desde o filme Regresso ao Futuro ao álbum Acústico dos Titãs, sem esquecer a série de banda desenhada Sandman. A música está também presente através das letras das canções “Paranoid Android” e “Karma Police” dos Radiohead e “Beer Goggles” dos Lagwagon. E, sim, há tequilas também!

Tipos

A segunda versão é editada em Tipos #5, em março de 2008. É a primeira versão desenhada por Juan Burgos, assinando ainda como Papito. Se a capa mantém o título original com uma disposição ligeiramente diferente das reticências, Tequila Shots… and make it more fun, não só destaca as duas palavras “Tequila Shots” como o título no miolo resume-se a tal. Curiosamente, com direito a 6 números, os autores foram criando na série Tipos um universo londrinense da década de 90, onde protagonistas de umas bandas desenhadas eram personagens secundários de outras.

Quando publicamos a revista“, revela Yuge, “vimos que tinha bastante gente interessada no material e eu tinha muitas ideias para Ed, Toni e vários outros personagens interligados. Como a maioria das pessoas que curtiam as histórias não tinham o hábito de ler quadrinhos, pensamos em um formato que fosse de encontro com esse público, que normalmente era formado por universitários, frequentadores de bares e shows de rock.

As pequenas dimensões das publicações da série Tipos foram uma tentativa dos autores irem de encontro ao seu público-alvo. “Nessa época, comecei a cursar Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, em 1997, e o Juan passou a fazer Desenho Industrial na Universidade Norte do Paraná“, relembra Yuge. “Ficamos sabendo de um edital de incentivo à cultura da Prefeitura e o Juan, que já começava a dominar design para publicação, pensou nesse formato de bolso – já havíamos visto algo assim de artistas do Rio Grande do Sul, no Sul do Brasil, senão me engano. Assim, as pessoas poderiam comprar durante festas e carregar facilmente, com uma capa resistente a eventuais pingos de cerveja (risos)“.

A qualidade do papel e impressão da revista Tipos era um grande salto qualitativo, relativamente à Clang!Conseguimos a verba para a produção e nasceu como uma revista de bolso, com capa dura envernizada e miolo com gramatura maior“, informa Yuge. “A Tipos eram histórias curtas, normalmente com apenas um protagonista. Eram sobre relacionamentos modernos e cultura urbana. Como sempre curti a ideia das pessoas ouvirem músicas com os olhos, sempre foi muito musical. E como tinha apoio da Prefeitura de Londrina, também colocávamos ainda mais referências à cidade — embora sempre tenhamos gostado de inserir essas referências, mesmo sem essa obrigação.

Para alguém que tinha crescido com os diferentes universos norte-americanos do subgénero dos super-heróis, o apelo para criar o seu próprio universo, num género distinto, era inegável. “O grande charme da Tipos é que ela era um universo compartilhado,” diz Yuge. “Os protagonistas de uma edição costumavam aparecer como coadjuvantes em outras. Assim, se você juntasse todas, teria um mosaico de eventos e linhas cronológica de acontecimentos interligados. Todos aqueles personagens se conheciam, e assim você ia juntando os pontos para saber qual era a relação entre eles. Há ainda umas duas histórias meio que prontas, nunca publicadas, sobre esses personagens. Em uma delas acontece o encontro entre todos eles, em uma dinâmica que seria muito divertido ver no papel. Mas essa história nunca saiu do roteiro, que também nunca foi finalizado.

Após os primeiros quatro número de Tipos, o quinto publicava então a segunda versão de Tequila Shots. “Assim, quando o “universo Tipos” estava estabelecido, com quatro edições, resolvemos recontar a trama que deu origem a isso tudo“, explica Yuge. “Tipos #5 trouxe, então, Tequila Shots com desenhos melhores, do Juan, e vários outros elementos que não existiam na história original.

Quanto às diferenças entre a primeira e segunda versão, Juan Burgos comenta: “na segunda versão, a intenção era apenas ter a história desenhada por mim, mantendo o máximo da versão original, com alguma adição de quadros para o desenrolar da narrativa visual e alguma atualização nos diálogos.

Quem comparar as duas narrativas nota exatamente tal, que a história é extremamente fiel à original, apesar da planificação e desenhos de Burgos conferirem pela primeira vez um grafismo mais profissional a Tequila Shots, embora seja um trabalho prévio à sua formação na Quanta Academia das Artes. E a primeira legenda, “há dez anos atrás”, situa cronologicamente o ambiente de Londrina na década de 90, tal como a narrativa original. Algumas das referências populares foram curiosamente alteradas para a série televisiva norte-americana Friends ou o filme Rambo II: A VIngança do Herói. Por outro lado, a referência visual à tira Calvin & Hobbes torna-se mais perceptível. E as importantes referências musicais e a Sandman, permanecem também.

Comic Heart

Se Yuge reside atualmente em Curitiba, Burgos reside há 4 anos em Portugal, onde se dedica à ilustração, paginação e pré-impressão. Este decisão de emigrar para o nosso país é uma das razões para a terceira versão de Tequila Shots (cf. previews e sinopse aqui) se dar em território luso, pela primeira vez não sendo editada pelos autores.

Publicada pela Comic Heart, Tequila Shots inaugura a série Coleção Geraldes Lino. Fundada em 2014, a Comic Heart iniciou as suas atividades enquanto uma loja online especializada na venda de arte original de banda desenhada de autores nacionais, estando presente também em eventos, onde paralelamente comercializava também publicações de banda desenhada. Em 2016, iniciou a sua atividade editorial com os 3 números de Altemente de Mosi. No mesmo ano, coeditou uma antologia intitulada Sobressaltos com a Europress e o zine Thrills & Spills de Jorge Coelho, em risografia, com a Mundo Fantasma. Desde 2017, desenvolveu uma parceria com a G. Floy, para a publicação de autores portugueses, em antologias e a solo. Com a reformulação da G. Floy em 2019, esses projetos passaram a ser editados pela cooperativa A Seita sob a chancela Comic Heart. Foi também em 2019 que a Comic Heart iniciou um projeto editorial a solo denominado Coleção Geraldes Lino.

Segundo Bruno Caetano, o editor da Comic Heart, esta “irá editar anualmente um zine de luxo. O intuito será promover o trabalho de jovens artistas que não são conhecidos pelo grande público de uma forma um pouco diferente do habitual. O que separa esta coleção dos restantes projetos editoriais em que a marca está envolvida, é o facto de a separação dos lucros ser completamente distinta, apresentado royalties para os artistas de 35% sobre o PVP da obra“.

Esta parceria da Comic Heart com os autores apresenta também outras vertentes, fornecendo o editor apoio no processo de desenvolvimento, produção e distribuição, procurando acompanhar o processo desde o seu início “até ser vendido o último exemplar“, refere Caetano.

Com direito a uma tiragem de 300 exemplares, Tequila Shots é fisicamente idêntico a qualquer livro de banda desenhada editado em capa mole com badanas, inclusivamente com direito a depósito legal – apesar de não apresentar ISBN. Nesse sentido, este “zine de luxo”, aproxima-se do que Geraldes Lino definia como prozine. No entanto, dado ser impresso em gráfica e profissionalmente editado, não pode ser considerado um zine nas definições do próprio. Um detalhe que, com efeito, é de pouca importância, dado que não é o formato físico nem a sua produção que importam nesta série, mas sim a divulgação de novos autores ao grande público. É certo que Yuge e Burgos já são nomes conhecidos no meio no Brasil, não sendo tal reconhecimento sequer restrito aos zines brasileiros, mas eram até esta edição desconhecidos do público português.

Há enormes diferenças para esta edição de Tequila Shots, principalmente em relação ao roteiro, que teve um tratamento realmente mais profissional“, aponta Yuge. “Como escrevi a primeira versão ainda adolescente e a segunda foi, de certa forma, uma ampliação, tivemos que reestruturar toda a narrativa, especialmente em relação ao protagonismo do Ed. Inicialmente, ele era o personagem a que mais nos dedicávamos. Mas, durante a produção desta terceira, percebemos que seria muito melhor observar os eventos com uma perspectiva mais próxima do Toni, com o Ed quase como um antagonista. Assim, a história ganhou uma curva e um estofo que não havia originalmente, com mensagens mais claras e uma conclusão mais adequada. Além disso, o Juan, que sempre teve habilidade para contar histórias com cenários e ambientes, caprichou ainda mais nesses detalhes.

Para esta terceira versão, Burgos assumiu também uma nova função enquanto coargumentista. “Além de executar a arte, também colaborei como coautor, onde repensamos como apresentar a dinâmica dos personagens presente no original, respeitando a essência mas em busca de uma nova abordagem, além de cortar plots que foram trabalhados na publicação Clang! e que não teriam mais continuidade.

Por outro lado, “o fato de na terceira versão contarmos com um editor atuante e convidados a apontar o que corria bem e mau no desenvolvimento do novo roteiro, ajudou muito no resultado alcançado“, refere Burgos.

Apesar da terceira versão ser muito semelhante às duas versões anteriores, esta é a mais díspar, expandindo um pouco mais a história. Uma das alterações mais visíveis é a divisão da narrativa em 4 momentos, os quais são devidamente assinalados por ilustrações de autores de banda desenhada portugueses, nomeadamente Marta Teives, Jorge Coelho, Ricardo Venâncio e André Caetano.

Por outro lado, todas as questões narrativas menos aprimoradas nas primeiras duas versões, foram eficazmente resolvidas, tornando mais claros certos momentos-chave e dando um ritmo mais eficiente à obra. E torna-se evidente Burgos estar numa fase mais tardia do seu percurso, em pleno domínio técnico e com uma preocupação com a linguagem que lhe é natural atualmente.

Outra diferença desta nova versão é que algumas referências a Londrina tornam-se ainda mais explícitas, como o Bar Vilão ou a T-shirt do Londrina Esporte Clube, o que certamente terá interesse acrescido para os londrinenses que viveram na cidade na década de 90. Também se multiplicam as referências musicais, aumentando o número de canções presentes na narrativa. Desta vez, o filme visado é o Assalto ao Arranha-Céus, imortalizando inclusivamente a cassete VHS. Curiosamente, a referência ao Calvin fica mais vaga, provavelmente devido a questões autorais.

Uma das questões que tem surpreendido um pouco os leitores portugueses é a BD ter sido publicada na norma europeia da língua portuguesa, sendo passada no Brasil e os seus autores brasileiros. Esta questão não se resume a esta obra mas a outras também, parecendo revelar uma nova tendência para adaptar as obras de banda desenhada brasileira à norma europeia da nossa língua comum.

abordámos as razões que nos levam a discordar dessas decisões editoriais. E concordamos em pleno com o crítico Pedro Moura, quando escreve, a propósito da BD Tequila Shots editada em Portugal, “a norma seguida é a do português europeu, mas que retira alguma da imaginada, em retrospectiva, brasileiridade, descontraída, musical e flutuante. Procura-se uma imediaticidade dos diálogos, mas é notória a estranheza dessa distância.” (cf. aqui). E quando na ficha técnica se verifica que se considerou ter realizado uma “tradução”, quando o habitual nestes casos é nomear a transposição de uma norma para outra com, por exemplo, a designação de “adaptação”, todos os que discordam de tal ficam ainda mais despertos para a possibilidade de se estar perante uma nova tendência que consideram problemática.

No entanto, não só houve realmente lugar a tradução, como as razões de Tequila Shots se encontrar na norma europeia ao invés da norma brasileira são díspares das que levaram à mesma situação em duas obras de Fábio Moon (autor do prefácio da edição portuguesa de Tequila Shots) e Gabriel Bá, Daytripper e Dois Irmãos.

O trabalho da reformulação da banda desenhada Tequila Shots, sob a edição da Comic Heart, durou 2 anos. Mas o projeto dos autores é mais ambicioso, tendo prevista a edição em diversos países. Nesse sentido, “o texto da versão atual foi feito em inglês e será traduzido para outras línguas e mercados, abrindo o leque para os termos locais de cada país em que conseguirmos publicar“, explica Burgos. “Os nossos personagens não funcionam apenas no Brasil. O desafio foi ultrapassar essa fronteira. Se funcionar em Portugal, também pode funcionar em italiano, alemão, espanhol, castelhano…

Sendo um teste para verificar se a história funcionaria com termos locais, outras razões também contribuíram para esta opção de Burgos. “Desejava ler e ouvir nossos personagens a usar os termos e gírias com as quais tenho contacto desde que vim viver para Portugal. Foi particularmente divertido ler o resultado e fiquei satisfeito com o trabalho de tradução realizado por Filipe Faria.

A proposta inicial da editora passou pelo texto apresentar-se na norma brasileira, recorrendo a notas de rodapé quando necessário, “a explicar gírias, locais ou questões de conflito no entendimento para a realidade em Portugal“, uma solução que não agrada a Burgos. “Não gosto de notas de rodapé no nosso material nem no que venho a ler. Tivemos tentativas nos decorrer dos anos com traduções dos trechos musicais e hoje vejo-os como um erro, uma falha na forma como escolhemos contar e desenhar a história.

Provavelmente, o teste foi mais difícil do que os autores esperariam. Fosse o teste realizado noutro país, certamente seria mais simples pois a expetativa do leitor seria ler uma obra traduzida e não estranharia os equivalentes noutra língua a expressões oriundas de Portugal como “atão”, “cuméquié” ou “puto”, entre muitas outras. Já o leitor português tem de fazer um esforço consciente para dissociar que a ação se passa no Brasil, perante o uso da norma europeia.

O futuro: a internacionalização da obra

Quanto a novidades sobre a internacionalização de Tequila Shots, “acabei de receber a versão portuguesa e agora vou reescrevê-la para o português brasileiro“, conta Yuge. “Há alguns tipos de diálogos rápidos e tiradas cômicas que não consigo reproduzir com tanto eficiência em outro idioma, portanto, nossa versão brasileira deve trazer um pouco mais de fluência, regionalismos e referências daqui. Além da versão em inglês, pronta para outros países, temos outra versão em italiano em andamento. Há muito material para ser explorado futuramente com esses personagens, talvez até mesmo a inserção de vários outros personagens do “universo Tipos”. Mas, por enquanto, estamos mesmo produzindo a versão brasileira.

Curiosamente, o feedback do público português sobre a questão da norma influenciou a conceção da futura edição brasileira. “Os textos originais tinham algumas gírias e coisas localizadas que não sabíamos se iriam funcionar em Portugal“, declara Yuge. Após a publicação em Portugal, descobriram que “muita gente estava interessada em saber justamente isso, como as pessoas se comunicam por aqui. Então, estou reescrevendo muito coisa para destacar esses regionalismos na publicação brasileira.”

Por trás de uma história há sempre uma outra história. No caso de Tequila Shots, é caso para dizer que, por trás, há três histórias… E que outras mais poderão surgir.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.