A música de Krypto inspira a banda desenhada de Rui Moura.

O CD de música eye18 dos Krypto, coeditado em janeiro pela Chili Com Carne e a portuense Lovers & Lollypops, tem uma particularidade – não só é um livro, como é um livro de banda desenhada.

Se é verdade que ambas as editoras têm anunciado eye18 enquanto um álbum musical, acompanhado por uma BD de Rui Moura, na realidade não só se pode dizer o inverso como até se deve.

Atente-se, porém, que eye18 é o álbum de estreia da banda composta por Gon, Martelo e Chaka, tendo sido gravado no espaço 223 do portuense Centro Comercial Stop entre 2010 e 2019. No entanto, enquanto produto, foi transformado em algo diferente. Enquanto objeto, o ouvinte e/ou leitor terá em mãos uma publicação de banda desenhada, com uma bolsa plástica para o CD na face interna da contracapa. O poster – com direito a impressão em frente e verso – que acompanha eye18 foi inclusivamente transformado na sobrecapa da publicação.

Se estar perante uma publicação de banda desenhada pode ser a sensação que se passa ao leitor-ouvinte, a ficha técnica confirma que se está perante um livro. Eye18 tem direito a depósito legal e a ISBN (International Standard Book Number). Dado se tratar de uma publicação multimédia (livro + CD), a atribuição do ISBN significa que o livro é considerado o componente principal da publicação.

De qualquer modo, se Eye18 é, afinal, oficialmente um livro acompanhado de CD, tal não lhe retira o espírito com que foi criado. Moura baseia-se nas faixas do álbum dos Krypto para produzir uma BD de 2 páginas para cada uma das canções (com exceção do último tema, com direito a 4 páginas, e das faixas 5 e 6, somente com uma prancha), as quais têm o título idêntico às faixas a que dizem respeito. Apesar de cada uma das BD ser independente, existe uma unidade na obra, não só gráfica, mas temática.

Clique nas imagens para as visualizar detalhes de diversas pranchas:

Eis a sinopse da editora:

Sabe mais o diabo por ser velho do que por ser diabo e os Krypto, na estreia “Eye18”, mostram que sabem desta poda como ninguém. Oito malhas que nos recordam um tempo que já não volta, que piscam o olho ao passado sem nunca soarem saudosistas e que aproveitam para resgatar todo aquele balanço que a música de e com peso parece, por vezes, ter esquecido. Não sabemos quem teve esta ideia, mas por nós mereceria uma medalha. Juntar aquele que é, sem dúvida alguma, o melhor e mais alucinado vocalista que este país viu nascer (um título que, por mérito próprio, exibe desde meados da década de noventa com os Zen e recentemente renovado na insanidade dos Plus Ultra) aos Greengo, provavelmente a maior força propulsora que a Invicta viu nascer por entre baforadas carregadas de intenção e acidez.
Gon encontra no baixo de Martelo e na bateria de Chaka as carruagens de fogo ideais para se lançar numa infindável lista de diatribes sobre isolação, alienação, corrupção, o vazio consumista deslumbrado com a tecnologia ou a cultura empresarial. É brutalista o som que nos despejam em cima e, apesar de um ou outro laivo psicadélico, impossível de acorrentar, numa viagem que se refugia na atitude primitiva, natural e pura de quem tem o dom de nos deixar num estado cataléptico. Música que exige ressonância e espaço para ser sentida, que cresce em urgência no espírito carbonário com que nos obriga a uma reflexão sobre a vida sem regras e responsabilidades hipócritas. Rejeitemos a ideia de que temos de nos tornar num ideal, um camarada devoto do pensamento único, distante de sermos um indivíduo e não apenas parte de uma tribo.
“If we moved in next door to you, your lawn would die”, palavras de Lemmy que se aplicam na perfeição a este “Eye18”, disco em trepidação constante pelo vazio insaciável, com sede de sobreviver e uma vontade que nos deixa atordoados, encanecidos, amortalhados, mas também num alerta constante e eufórico provocado pela privação de sono e sonho que a música dos Krypto teima em nos inflingir ao longo dos seus 23 minutos.
O disco transforma-se numa banda desenhada da autoria de Rui Moura e inspirada no som bruto e psicadélico dos Krypto, bem como nas suas letras, a banda desenhada complementa e explora um universo ácido e atemporal. Guiado entre rituais e o oculto, transportando a psique por labirintos infinitos. 

Rui Moura (n.1994, Barcelos)

É licenciado em Design na Universidade de Aveiro. 
Tem trabalhado em ilustração, na produção de cartazes, criação e autoedição de zines (III, 2016; Kifwebe Masks, 2017) e participação internacional em várias antologias de BD, como Nimio #10 (Nuez ediciones, Espanha, 2016), Visita de Estudo ao Milhões 2017 (Lovers & Lollypops / Chili Com Carne, 2017), Cravo.zine #3 (2017), Revista Gerador #17 (2018), C’est Bon Anthology #43 (CBK – C’est Bon Kultur, Suécia; 2018), Komikaze #17 (Croácia, 2018), Punk Comix CD (Chili Com Carne / Zerowork, 2019).

Eye18
Krypto + Rui Moura
Editora: Chili Com Carne / Lovers & Lollypops
Páginas: 20, a cores
Encadernação: agrafes, com sobrecapa
Dimensões: 210 x 155 mm
ISBN: 9789890363435
PVP: 13,99€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.