Entrevistámos Sean Gordon Murphy em 2006. Na altura, o autor estava a trabalhar apenas há 4 anos na indústria dos comics e tinha capturado a nossa atenção com um trabalho a solo, denominado Off Road, na Oni Press. Na entrevista, revimos a sua (ainda curta) carreira, sem alguma vez imaginar que 4 anos mais tarde o autor viria a Portugal para o lançamento da obra Off Road, publicada em língua portuguesa pela Kingpin, tendo-lhe sido inclusivamente dedicada uma exposição no festival Amadora BD. Se recentemente foram publicados no nosso país as suas obras Jesus Punk Rock e Batman: Cavaleiro Branco, convidamos os leitores a fazer uma viagem 14 anos atrás.

Nuno Pereira de Sousa: Com que idade começou a ler banda desenhada? Quais eram as suas séries favoritas?
Sean Murphy: Comecei a ler comics com 11 ou 12 anos de idade. Comprei por capricho um número do Homem-Aranha numa feira de usados. Inicialmente, não me interessava muito pelas revistas de banda desenhada, mas gostava da ideia de desenhá-las. Obviamente, no início dos anos 90 viciei-me na Image, mas posteriormente aborreci-me e deixei de coleccionar por uns tempos. Os meus favoritos era Homem-Aranha 2099, Spawn, Youngblood e Batman. Hoje, é embaraçoso.

NPS: Que banda desenhada lê actualmente?
SM: Na verdade, já não leio banda desenhada. Vasculho as prateleiras e procuro uma boa arte ou uma história excelente, mas julgo que não vale a pena ler aquilo que está a ser publicado (pelo menos, o material mais comercial). À excepção de 100 Bullets, material da Top Shelf e qualquer coisa de Tim Sale, não há quase mais nada.

NPS: E no que toca à literatura?
SM: Há já algum tempo que a ficção científica é o meu género favorito. Arthur C. Clarke é fantástico. As restantes leituras são livros de História ou como escrever. Terminei de ler um livro sobre a Guerra da Revolução Americana que era bonzinho.

NPS: Houve algum momento na sua vida em que tomou a decisão de realizar uma carreira na banda desenhada?
SM: Nunca tive esse momento. Desenhar era algo muito importante na minha vida e eu sempre quis ir para uma escola de Arte. No final do curso, comecei a ter contratos casuais com a Dark Horse, pelo que decidi ir com a maré até não conseguir ser novamente contratado. De alguma forma, ainda estou seguir a maré. Passaram-se 4 anos, entretanto.

NPS: Em que medida a escola de arte o ajudou na sua carreira?
SM: A escola de arte tornava-me infeliz. Nesse período, sentia-me revoltado porque não sentia que estava a aproveitar o dinheiro gasto com os professores. Eu achava que era melhor que os outros estudantes e ficava furioso com o facto das pessoas não fazerem os seus trabalhos de casa e que tivéssemos de perder tempo a criticar os terríveis projectos de arte dos estudantes feitos em cima do joelho. O valor da escola foi ter conhecido pessoas que queriam o mesmo que eu. Juntos, fomos a alguns festivais de banda desenhada, aprendemos como funcionava a indústria dos comics e alguns de nós conseguiram atingir os seus objectivos. Um desses amigos era o Kristian Donaldson, que está a trabalhar para a IDW. O valor da escola de arte é que se consegue apoio ao conhecer pessoas que são como nós.

NPS: Enquanto escreve ou desenha, ouve música ou vê televisão?
SM: Ouço diferentes estações de rádio na internet, dependendo do meu humor. Ultimamente, tenho ouvido bastante The Dandy Warhols. Gosto de muitos tipos diferentes de heavy rock, punk rock e indie rock. É igualmente frequente, ter a televisão ligada com som, mas não pode ser algo que eu ainda não tenha visto. Vejo o History Channel, Discovery, Star Trek – The Next Generation, Futurama, Sopranos, Batman (a série de desenhos animados), Cowboy Bebop, etc.

NPS: Colaborou em 2 números de Star Wars Tales. Qual é a sua trilogia cinematográfica favorita?
SM: Gostei dos episódios 4, 5 e 6. Encaro os 1, 2 e 3 como fazedores de dinheiro. Corromperam, por completo, o universo Star Wars. No entanto, é muito divertido desenhar aquele material.

NPS: Foi o seu primeiro trabalho publicado?
SM: Anteriormente, tinha feito um livro de BD para os Toronto Blue Jays, uma equipa de basebol. Era entregue em mão no estádio. Não prestava.

NPS: Quem o convidou para desenhar a história curta “Punch-line” em Noble Causes Extended Family?
SM: Num festival, um dos profissionais que conheci foi Phil Hester. Enviei-lhe muitos dos meus trabalhos online e, eventualmente, ele ofereceu-me um contrato casual com ele a realizar o argumento.

NPS: Estava familiarizado com a série Noble Causes de Jay Faerber?
SM: Não.

NPS: Uma palavra para descrever Phil Hester seria…?
SM: Trabalhador.

NPS: E Jay Faerber?
Introspectivo.

NPS: Na sua primeira mini-série para a Dark Horse, Crush, Elizabeth é uma jovem de 18 anos que sofre uma metamorfose e se transforma num monstro. O que mais gostou neste trabalho?
SM: Do pagamento. Não era o meu género.

NPS: Uma palavra para descrever o argumentista de Crush, Jason Hall, seria…?
SM: Apaixonado.

NPS: Batman/Scarecrow: Year One foi o seu primeiro trabalho publicado na DC. Como foi a experiência de trabalhar com Bruce Jones? E uma palavra para o descrever seria…?
SM: Na verdade, não falei com o Bruce durante todo o processo. Ele está sempre a escrever uma data de coisas ao mesmo tempo e deixou-me interpretar o argumento à minha maneira. Conheci-o em Chicago e ele foi incrivelmente bondoso. Descrevo-o como experiente.

NPS: Sabe se houve algum tipo de interferência no argumento, devido ao filme Batman Begins?
SM: Não houve. A DC apenas queria a história pronta, de modo a estar nas prateleiras a tempo. Penso que recebi o trabalho demasiado tarde, pelo que eles já ficaram contentes que tenha ficado pronto a tempo.

NPS: Sobre o que era o projecto cancelado na Vertigo, denominado Term Life. Quem era o argumentista?
SM: Esqueci-me de quem o estava a escrever. Eu estava apenas a fazer a arte-final. Zach Howard era o desenhador e ofereceu-me a arte-final. Na altura, ele estava a deixar-me viver com ele. A Vertigo cancelou o projecto porque não estavam a gostar do resultado. Não sei se da arte, se do argumento. Espero que tenha sido o argumento.

NPS: Que nos pode revelar dos 2 números para Teen Titans?
SM: Acabei de terminar o primeiro número. Tem de se desenhar TANTAS personagens que se torna difícil manter presente todos os fatos. Não sei como é que as pessoas conseguem desenhar uma série mensal como esta!

NPS: Fale-nos do seu trabalho na IDW.
SM: Comecei por realizar a arte-final de Zach em Shaun of the Dead. A IDW tem dificuldade em conseguir pessoas talentosas, pelo que vou tendo contratos casuais aqui e ali, entre outros trabalhos.

NPS: Como é que a Oni se interessou em publicar a sua graphic novel?
SM: Já há algum tempo que falava telefonicamente com James Jones. Ele sempre gostou do que produzia. Após o cancelamento de Term Life, não estava a conseguir nenhum trabalho pelo que decidi tentar escrever o meu próprio material. Desenhei mais de 10 páginas antes da enviar. A Oni queria-o.

NPS: Que idade tinha quando os eventos passados em Off Road aconteceram?
SM: Tinha 20 anos.

NPS: Que percentagem é real? Nomeie algumas coisas que ocorreram no livro mas não na realidade.
SM: A parte da história que envolve o jipe é praticamente toda verdade; embora tenha-lhe dado um pouco de vivacidade. O material com a rapariga no início do livro é uma mistura de muita coisa que ocorreu antes e depois. O vendedor, o fogo, o aparecimento dos polícias e a grande multidão é tudo verdade. Os parolos são também verdadeiros mas não tinham fogo de artifício e não estavam bêbados. Foi o fogo de artifício que iniciou o fogo, mas não sabemos quem o acendeu. Houve uma festa no final, mas acabámos por ir em vez de vir embora. O Joe é uma personagem real que não faz ideia de que está numa banda desenhada.

NPS: Foi difícil escolher um nome para a personagem baseada em si?
SM: Nem por isso. Não queria pensar que eu era o Trent pois queria ser capaz de modificá-lo de modo a melhorar a história. Queria um nome com pretensões a arte e lembrei-me daquela personagem da série de desenhos animados Daria da MTV.

NPS: Como é que os verdadeiros Greg e Brat reagiram à graphic novel?
SM:  Adoraram-na, em especial o Greg. Ele é realmente um atleta que vive em Boston e que não lê banda desenhada, mas tem um poster pendurado de Off Road, o que não combina com todas as suas outras coisas de desporto.

NPS: Quais as razões para o lenço na cabeça e o verniz nas unhas?
SM: O lenço foi criado por duas razões. Primeiro, queria que o Trent sobressaísse. O lenço é a sua identidade e fá-lo parecer mais artístico. Segundo, é também um símbolo do seu fardo. Quem ler a história, apercebe-se que ele apenas o coloca logo após ter o coração destroçado. E sai quando ele deixa o fardo e anda para a frente. O verniz das unhas era algo apenas para que o Greg pudesse gozar com ele. Eu não uso verniz.

NPS: Refira-nos o que há de melhor e pior em fazer uma graphic novel sozinho?
SM: As melhores partes são muito mais importantes que as más. É bom porque não tenho de trabalhar com outro argumentista, estou mais por dentro da história e posso trabalhar na improvisação de pequenos detalhes. Posso dedicar-lhe o meu tempo e, no final, tenho algo na prateleira que é 100% meu. Só é mau na medida em que se torna solitário trabalhar tanto sem ter ninguém com quem falar. E é também um grande stress ter de fazer um livro por completo como aquele.

NPS: Em relação às tiras cómicas extra no final do livro, a maioria delas é inventada?
SM: Sim, as tiras são apenas piadas.

NPS: Planeia realizar mais tiras no futuro?
SM: Não. Para mim, essas são personagens com as quais terminei. Quero avançar para outras coisas.

NPS: Em Dezembro, a Dark Horse irá publicar irá publicar uma mini-série de 4 números, intitulada Outer Orbit, criada por si, Zach Howard e Hans Rodionoff, uma fantasia espacial cómica. Fale-nos dela.
SM: Podem ler sobre ela em vários locais, pelo que não vos quero dar a mesma informação que dei a todos os demais. Deixem-me é dizer-lhes que é realmente muito engraçada e que contém alguma da melhor arte que alguma vez fiz. Só as cenas de acção já são suficientes para pegar nas revistas. Se comprarem o #1, estou confiante que comprarão os 3 seguintes.

NPS: Refira uma palavra para descrever o Howard. E para Rodionoff?
SM: Zach – extremamente dedicado. Hans – terror.

NPS: Em que ponto se encontra o seu próximo projecto de autor, Kael?
SM: Congelei-o durante algum tempo, devido a estar tão ocupado com outras coisas.

NPS: No que está a trabalhar, actualmente?
SM: Estou a trabalhar mais em material tipo Hollywood, como arte conceptual e storyboards. Também estamos a desenvolver um desenho animado que será transmitido na televisão ou via internet.

NPS: Quais são os seus planos?
SM: Quero fazer menos material de super-heróis e mais material meu. Também gostaria de trabalhar mais no mundo do cinema que no da banda desenhada.

NPS: Está nos seus planos ser argumentista de estórias para terceiros desenharem?
SM: Não é um dos meus objectivos neste momento, mas quem sabe?

NPS: Conhece autores e/ou trabalhos europeus de banda desenhada?
SM: SIM! A arte europeia é difícil de encontrar por cá mas gosto mais dela que da banda desenhada norte-americana. A coloração europeia é também uma das melhores do planeta. Ultimamente, ando a apreciar o trabalho de [Sergio] Toppi, um italiano.

NPS: Em Off Road, escreveu que o seu sonho era ter um cão, uma moto e um seguro de saúde. Quais desses sonhos se tornaram realidade?
SM: Tenho um cão chamado Red.

NPS: Resta-nos agradecer a disponibilidade demonstrada em conceder-nos esta entrevista.


Entrevista originalmente publicada no portal BDesenhada em 2 de outubro de 2006.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.