A primeira publicação de BD da chancela Massacre é da autoria de Mao.

No dia 28 de fevereiro, pelas 17h00, aquando da finissage da exposição Loot Box do colectivo Massacre – constituído por André Pereira, Hetamoé e Mao – com curadoria de Pedro Moura, na Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, sita no Campus de Caparica, ocorrerão 3 lançamentos. Para além do catálogo da exposição e de serigrafias de André Pereira, o coletivo Massacre publica a banda desenhada UltraSaiyanJedi is streaming Tactical Arena: Apocalypse, March 11th (Twitch is like the fun side of the military-industrial-surveillance complex).

Patente desde 28 de janeiro, relembre-se que Loot Box transpõe a ideia de narrativa gráfica para meios como o desenho, o vídeo e a instalação, em trabalhos concebidos especialmente para aquela Biblioteca. Na indústria dos videojogos, o termo loot box (“caixa de saque”) denomina sistemas de sorteio – aleatório, como uma saqueta de cromos – para obtenção de itens ou bónus de desempenho virtuais. São o “tesouro” que se descobre ou com o qual se é recompensado após a conclusão de um objetivo, numa lógica que remonta aos roleplaying games como Dungeons & Dragons, promovendo o saque dos inimigos e profanação de cadáveres. Apesar da sua recontextualização nos jogos online atuais, a causalidade “ao vencedor, os despojos” mantém-se na etimologia do termo. Recentemente, as loot boxes têm sido alvo de escrutínio pela forma como monetizam certos aspectos do jogo, criando sistemas de pay to win em que os jogadores dependem de um investimento financeiro real para progredir virtualmente. Esta exposição trata o conceito de loot box enquanto modelo alargado que, além do seu conteúdo explícito e funcional, encerra formas de pensar inerentes às ideologias extrativistas responsáveis pela ruptura ambiental no Antropocénico. “Gamificada”, a economia descobre um novo mercado que parece realizar uma fantasia de crescimento interminável. 

Estes assuntos poderão ser discutidos na finissage, durante a mesa redonda moderada por Pedro Moura e com a presença dos três autores, intitulada “Game Over: Arte, ‘gamificação’ e o Antropocénico”.

Quanto à banda desenhada de Mao, clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

“UltraSaiyanJedi is streaming…” toma lugar numa plataforma online de streaming de jogos. O streamer esconde a sua identidade por detrás de um pseudónimo e de um avatar animado, ao mesmo tempo que aparentemente divulga pormenores da sua vida pessoal. A precarização da indústria de entretenimento e as relações de classe são colocadas como pano de fundo das experiências de socialização em plataformas de streaming. Desta forma, a narrativa posiciona a presença digital e a uberização do tempo lúdico como elementos constituintes de uma experiência do pós-humano, aqui entendido como o resultado já palpável de um quotidiano sobredeterminado pela tecnologia. As figuras do jogo de vídeo, entre o ciborgue, o humanóide e o não-humano, imaginam possibilidades para uma subjectividade corporal modular e personalizável, radicalmente diferente daquela entendida como convencional, remetendo a experiência do jogo de vídeo também ela para o pós-humano. 

Mao (aka Hugo Almeida; Lisboa, 1984) foi um dos elementos fundadores do coletivo de criação e pensamento sobre BD Clube do Inferno, sendo autor de fanzines como Ghostspeaker (2012), Radiation #1 (2013), Radiation #2 (2014) e 3 Stories (2014), Colony Collapse Disorder (2016) ou Picaresque (2016) e tendo participado em obras coletivas como a QCDI 3000 (Chili Com Carne, 2015). Tendo ganho o 2.º prémio da competição do FIBDA 2005 com “Eléctrica Cadente” (onde o autor tenta conjugar um twist com a dicotomia real/irreal), publicaria com esse trabalho a sua primeira banda desenhada, na revista Blazt #1, editada pelo Blast – Núcleo de Banda Desenhada e Cinema de Animação da Associação de Estudantes de Artes Plásticas e Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em outubro de 2005. Tem vindo a colaborar em vários projetos independentes. A sua formação académica é científica (doutoramento em biologia molecular), mas tem-se dedicado ao estudo formal e estrutural da banda desenhada, num programa de pós-doutoramento, bem como a questões relacionadas com a representação do conhecimento científico na cultura popular em geral, em particular no que diz respeito a questões como a evolução e a degradação ambiental. É um dos elementos fundadores do coletivo Massacre.

Os leitores interessados devem entrar em contacto com o coletivo através do e-mail msscr2099@gmail.com.

UltraSaiyanJedi is streaming Tactical Arena: Apocalypse, March 11th (Twitch is like the fun side of the military-industrial-surveillance complex)
Mao
Editora: Massacre
Páginas: 24, preto e branco
Encadernação: agrafes
Dimensões: A4
PVP: 5,00€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.