O regresso de P+ aos fanzines em papel.

A propósito da edição do fanzine …Previously #12 no início de 2018, escrevemos “o autor anónimo criador d’ Os Positivos tem vindo a apresentar um conjunto de reflexões sobre a arte e a banda desenhada, frequentemente incidindo na temática do artsy fartsy. Outro tema que tem sido uma constante nos últimos anos tem sido a valorização do digital enquanto formato de divulgação (de BD, de zines, de crítica…), em detrimento do papel. Nesse sentido, poder-se-ia estranhar a edição em papel do zine …Previosuly #12, dois anos após a edição do último número.”

Na verdade, em 2018 ainda foram ainda publicados em papel o #13 e #14, mas com a sua ausência em 2019 e a reincidência das temáticas abordadas pelo autor, quase poderíamos repetir ipsis verbis a nossa citação de há 2 anos, transpondo-a para a edição de Marcos 2020, subintitulado Marcos da História d’ Os Positivos.

Publicado em fevereiro de 2020, Marcos 2020 é uma coletânea de bandas desenhadas publicadas no site Os Positivos, das quais foi realizada uma seleção. Deste modo, há trabalhos desde 2016 até ao presente.

Existe também material original, dos quais se destaca a forma como em 1997 a então Direcção-Geral das Actividades Culturais registava os direitos de autor no que tocava à banda desenhada – “desenho e romance” (pelo menos, não utilizavam o errado termo de “novela”).

A quase totalidade das bandas desenhadas publicadas no site supramencionado acompanham artigos de reflexão sobre determinadas temáticas que interessam ao autor. Nesta antologia, as mesmas são estripadas dos artigos e é-lhes dada uma nova ordem de apresentação – que não segue a cronologia original – colocando um novo desafio, a validação das BD per se e não enquanto ilustradoras de artigos.

Para os que acompanham com regularidade o site Os Positivos, é possível que a leitura das BD lhes faça relembrar os artigos a que dizem respeito. No entanto, apesar deste viés, as mesmas – abordando temáticas frequentes e caras ao autor – demonstram que têm toda a autonomia para ser lidas sem os artigos. É vero que, por vezes, existem diferentes camadas de leitura, aos quais os leitores podem ser alheios – as private jokes ou private messages são um dos elementos quase transversais n’ Os Positivos – mas tal não interfere na independência das BD dos textos de onde foram retiradas.

Tratando-se aparentemente de um fanzine impresso a preto e branco (com exceção óbvia da capa), o leitor ir-se-á aperceber que o uso do vermelho é um elemento repetido ao longo da obra. Graficamente, é verdade que uma ou outra palavra menor e/ou menos carregada pode ser de mais difícil leitura para alguns leitores, mas o índice com a listagem de onde foram retirados todos os trabalhos facilita a sua consulta na net para os leitores interessados, onde a leitura não terá esse tipo de problemas.

Com mais de uma vintena de anos, a série Os Positivos é uma das mais antigas em Portugal. O futuro a longo prazo dirá se serão os acervos pessoais ou de instituições que alberguem fanzines (raramente acessíveis no primeiro caso e quase sempre “sem vida” no segundo) ou a efemeridade dos conteúdos da internet (frequentemente perdidos quando os sites se dissolvem) que serão o futuro auxiliar de memória. P+ parece realizar uma aposta dupla.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a apresentação da obra pelo autor:

Os zines são-nos segunda natureza. Publicamos neles desde ’97 e já devemos ter contribuído para a desflorestação dum pequeno país com os nossos assaltos ao bom gosto alheio, insulto geral às artes e hostilidades várias. Pelo número que têm em mãos não o suspeitarão, mas somos culpados de ofensas repetidas que descarrilaram rapidamente para cima das cem páginas, dobradas muito além da competência de agrafos e provavelmente descartadas tão depressa como foram lidas. Yet, passaram-se um par de anos desde o último zine impresso porque encontramos online um meio mais expedido para alcançar os mesmos objectivos que nos motivaram à edição independente tanto tempo atrás. Um meio não substitui o outro, mas a internet possui uma vantagem deliciosamente maquiavélica sobre o zine para os nossos propósitos, a capacidade de tecer todo um universo de interpretações maleáveis que dificilmente pode ser reproduzido no folha-cola-a-folha-cola-a-folha alinhadas de forma tão permanente. Long story short, o digital tornou-se primeira natureza, e a coletânea que aqui reúne comix one-offs, na sua maioria de 2019, quase todos à laia dum falso non sequitur, coloca-nos um sério problema de concepção: não foram pensados para o formato que agora lês, mas produzidos para a web, divulgados nessa, pressupondo uma leitura na relação aos textos com que dividem a página e, pela natureza não-linear destas, de uma sequência impossível de reproduzir através da paginação tradicional. Obrigados à ditadura do espaço-tempo da folha impressa prosseguimos estratégias habituais subvertendo linhas de tempo e crendo que os P+ serão acérrimos e repetitivos q/b nas suas temáticas para que a intencionalidade original que os dita possa sobreviver ao retalho, quiçá realçando-se leituras que se diluem na avalanche de informação despejada no sítio de sempre. É batota, acusem-nos, mas o zine permite não só um outro tempo de leitura como uma intimidade que o ecrã não favorece, um pessoal-quase-intransmissível que não substitui o online mas possui a vantagem maquiavelicamente deliciosa de encadernar todo um outro universo de interpretações. Seguem-se nas próximas páginas instantâneos de (quase todos) os temas que já se habituaram a esperar de nós, desprovidos de qualquer história per se, a eterna história dos nossos amiguinhos. Parte intrínseca da nossa experimentação com o quotidiano, reserva de sanidade que permitirá aconchegar doses maciças de escárnio e peçonha para com toda a cretinice que no decorrer de uma vida se acumula, velhos hábitos em processo de revolução permanente, um elusivo mas sistemático elo de instantes que traçam passado, presente e futuro. Chamamos-lhe… Humor & Depressão.

Marcos 2020
autor anónimo
Edição: Os Positivos
Páginas: 40, a cores
Dimensões: A5
Encadernação: agrafes

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.