Relembrando Anthony Bourdain com Get Jiro!

Em junho de 2019 tivemos em Portugal o lançamento das dois livros de banda desenhada: Get Jiro! Todos Querem Apanhar o Jiro e (a prequela) Get Jiro! Sangue e Sushi, que haviam sido originalmente editadas, pela DC Vertigo, em 2012 e 2015, respetivamente.

A edição portuguesa faz parte do catálogo da Levoir e contém um prefácio por Catarina Lamelas Moura, onde Anthony Bourdain é grandemente referido por vários dos seus prémios e trabalhos em vida.

Bourdain, falecido em 2018, terá sido um dos mais conceituados chefs de cozinha da atualidade e destacou-se fortemente noutros campos, que sempre tentou conciliar e associar à culinária. Com Get Jiro! Bourdain revelou uma paixão pela nona arte, até então, desconhecida pelo público. Juntou-se a Joel Rose para a escrita do argumento e Langdon Foss foi o responsável pela arte. Para completar a equipa juntaram-se nas cores José Villarrubia e Dave Stewart.

Mas que obra é afinal Get Jiro!? Um tanto inconvencional, esta obra é aquilo que podíamos esperar de uma banda desenhada saída da cabeça de um chef, ainda mais um como Bourdain.

À semelhança dos temas abordados na obra Cozinha Confidencial, por si realizada, referida no prefácio, Bourdain volta a criticar metaforicamente os comportamentos sociais vividos por entre cozinhas e cozinheiros.

A história remete-nos para uma hipotética realidade em que o mundo (neste caso a cidade de Los Angeles) é dominado por chefs de cozinha e a comida é a maior obsessão da humanidade. Jiro é um novo chef na cidade e montou o seu restaurante de sushi nos subúrbios. O boato espalha-se e a informação chega aos ouvidos dos dois maiores chefs da cidade, os que controlam todos os fornecimentos de ingredientes e outros.

Jiro vê-se então dividido entre os dois “gangs” de chefs que o querem recrutar para que, com a sua cooperação, se consigam livrar do “gang” rival. Jiro é, no entanto, um personagem humilde e a sua vontade é manter a qualidade, mas também o formato pacato do seu pequeno restaurante. Assim, acaba por tentar passar a perna a ambos os chefs e no final gera-se uma guerra entre os dois lados, juntando-se ainda a esta os pequenos restaurantes dos subúrbios com menor visibilidade e alcance. Entre armas da culinária, empratamentos e clientes completamente inapropriados, as páginas de Todos Querem Apanhar o Jiro dispõem de muito sangue e mutilações.

Esta não foi uma obra excelente ou surpreendente, mas não deixa de ser um tempo bem passado. Podemos identificar automaticamente, nas primeiras páginas, a sua procura do humor e consegue encontrá-lo suavemente num ou noutro trecho. Confesso que procurava uma obra mais satírica ou, digamos, com uma sátira mais crua, mas, apesar disso, e dos pequenos clichés presentes, não deixa de ser uma banda desenhada digna de ser lida.

É um livro que aconselho a qualquer… huh… apreciador de sushi?! São quase hilariantes os momentos de raiva interior de Jiro ao ver os clientes a consumirem o sushi de “forma errada”.

Destaco as subtis críticas ao sexismo vivido nas cozinhas e as críticas à falta de humildade dos grandes chefs… E certamente não terei reparado em muitos pormenores. Bourdain parece figurar aqui grande parte do que nos quer expor sobre a cozinha, o que realmente se passa com as cozinhas e os chefs, a concorrência e competição entre as mesmas.

Bourdain dá-nos, no fundo, a sua visão quanto à idolatria cega que o público tem pelos chefs de renome e o esquecimento ou o desprezo que é, por vezes, dado aos estabelecimentos mais humildes referidos como “espeluncas” no livro e que usam algumas das melhores e mais especiais receitas, bem como os mais frescos ingredientes locais. Uma divertida obra da mente de um dos mais conceituados chefs cozinheiros traça uma crítica a que devemos estar atentos. Os nomes e as estrelas Michelin não são tudo num restaurante.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…