O primeiro trimestre editorial de banda desenhada em Portugal no ano 2020.

Graças, parcialmente, ao trabalho do Bandas Desenhadas, nunca foram tantas as editoras que partilharam publicamente no início do ano os seus planos para a publicação de BD ano longo do ano 2020. No entanto, a pandemia de COVID-19 veio relembrar o real significado de uma planificação editorial, passível de ser ajustada (e reajustada as vezes que forem necessárias) perante imprevistos e contrariedades.

A BD não tem, obviamente, sido diferente das restantes áreas com eventos e presenças de autores canceladas e/ou adiadas (para o final do terceiro e início do quarto trimestre, revelando uma atitude otimista da parte das organizações quanto à eficácia das medidas ou não se vir a verificar uma relação da epidemia com a sazonalidade, entre tantas outras incógnitas). Na verdade, na impossibilidade da futurologia, o futuro é incerto, não faltando, contudo, previsões de leigos a entendidos de quando os sobreviventes poderão prosseguir as suas vidas com aquilo que é entendido como uma maior normalidade.

As medidas de contenção e as suas ramificações poderão vir a ser mais duras ou mais leves nos próximos estadios, consoante a evolução da epidemia no país e no mundo, à medida que novas variáveis forem sendo identificadas ou obtidas – desde os curados que repositivam aos resultados dos tratamentos experimentais e à longínqua disponibilidade de uma vacina.

Neste mar de incertezas, as editoras nacionais, tal como as demais empresas, reagiram com base nos dados disponíveis até ao momento. Em março, assistimos a diferentes estratégias, consoante o seu canal primordial de vendas.

Independentemente de se tratarem de grandes grupos editoriais que também editam banda desenhada ou editoras que se dedicam exclusivamente à BD, a maioria das que operam principalmente no canal livreiro cancelaram temporariamente e por tempo indeterminado o lançamento de novidades. Em diferentes declarações prestadas pelos editores, tornou-se óbvio que, incluindo aqueles grupos e editoras que têm as próprias lojas online, não acreditam que esta alternativa substitua as vendas nas livrarias (ou sequer seja suficiente para justificar novos lançamentos).

Na verdade, o comércio online de produtos físicos é algo que não depende exclusivamente das editoras e lojas online. Obriga a que, tal como atualmente, os serviços postais e de correio expresso continuem a funcionar, bem como outras empresas de logística (quando os envios são contratados a terceiros). Por outro lado, não existem muitos dados sobre a recetividade atual dos portugueses em receber encomendas, sejam entregues na caixa de correio ou pessoalmente e que obriguem ou não a assinatura para confirmar a receção.

De qualquer modo, esta tem sido uma das poucas vias que as editoras que publicam BD têm vindo a explorar, secundadas de campanhas promocionais.

Por outro lado, a cota de vendas de livros em hipermercados com secção dedicada a estes também não é encarada pelos editores como uma alternativa suficiente que justifique novos lançamentos.

Quanto aos pontos de venda de periódicos, após alguns terem encerrado provisoriamente, têm existido algumas reaberturas, dado serem uma das empresas de prestação direta de serviços que atualmente pode continuar em laboração desde que respeitem as normas emanadas. Este facto, aliado às distribuidoras continuarem a operar, contribuiu para que, em março, as publicações exclusivas das bancas, bem como aquelas distribuídas com periódicos cumprissem quase na totalidade o plano original.

No que toca à distribuição alternativa (não realizada a nível nacional no canal livreiro nem nas bancas), também tivemos conhecimento de lançamentos que não ocorreram em março devido à pandemia.

Do ponto de vista económico, é também uma incógnita como a pandemia afectará não só as livrarias, pontos de venda de periódicos e editoras (e os seus prestadores de serviços, como gráficas e distribuidores, e os fornecedores destes), como também o poder de compra dos leitores. O próximo mês revelará se as editoras implementarão ou não novas estratégias de comercialização, além das iniciadas em março. A sua necessidade de reinvenção está fortemente restrita por condicionantes que se podem alterar a qualquer momento.

Por tudo o que foi exposto, não será de estranhar que o número de lançamentos de março de 2020 seja inferior não só ao de fevereiro deste ano como ao de março de 2019.

Em março de 2020, identificou-se a edição de 18 publicações de banda desenhada (publicações com BD em mais de 50% das suas páginas). Sem dúvida que, para este número ser atingido, muito contribuíram as séries distribuídas em março nos pontos de venda de periódicos. No entanto, somente 3 dessas edições têm ou terão como exclusividade este canal de distribuição. Todos as demais, têm concomitantemente ou terão posteriormente distribuição em livrarias.

Por outro lado, em março não foi identificada nenhuma publicação de BD com distribuição alternativa, isto é, publicações de BD que não são distribuídas no canal livreiro nem em pontos de venda de periódicos Conclui-se então que 100% das publicações identificadas teve distribuição para o grande público.

Em resumo, quanto ao canal de distribuição:

  • Canal livreiro: 15 (alguns dos quais, só foram ainda comercializados por contacto direto com a editora ou distribuídos em bancas ou em eventos)
  • Pontos de venda de periódicos, em exclusividade: 3
  • Distribuição alternativa a livrarias e bancas, em exclusividade: 0

Eis o número de publicações identificadas, segundo o formato:

  • Jornais: 0
  • Livros: 18
  • Revistas: 0
  • Outros (brochuras, etc): 0

Dos 18 livros, eis a distribuição por tipo de encadernação:

  • Capa dura: 14
  • Capa mole: 4

E a distribuição das 18 publicações por cor de impressão:

  • Cores: 14
  • Preto: 4

Das 18 publicações de março, o país de origem tem a seguinte distribuição:

  • Bélgica: 2
  • EUA: 6
  • França: 4
  • Itália: 3
  • Japão: 2
  • Portugal: 1

A nível das 17 publicações de material estrangeiro, eis as editoras originais:

  • Dargaud: 1
  • DC Comics: 5
  • Les Éditions Albert René: 3
  • Lucky Comics: 2
  • Lo Scarabeo: 1
  • Sergio Bonelli Editore: 2
  • Shueisha: 2
  • Tundra Books: 1

Quanto ao quinquénio da edição original, as 18 publicações distribuem-se do seguinte modo:

  • 1965 – 1969: 1
  • 1985 – 1989: 1
  • 1990 – 1994: 2
  • 1995 – 1999: 1
  • 2000 – 2004: 1
  • 2005 – 2009: 1
  • 2015 – 2019: 10
  • 2020: 1

No que toca à originalidade das obras sob o formato de papel no nosso país, das 18 publicações verifica-se a existência de:

  • Inéditos mundiais: 1
  • Inéditos em Portugal: 13
  • Reedições: 4

Eis as editoras das publicações identificadas:

  • Arte de Autor: 1
  • Chili Com Carne: 1
  • Devir: 2
  • Gradiva: 1
  • Levoir: 5
  • Nuvem de Letras: 1
  • Salvat: 3
  • A Seita: 4

Ressalve-se que duas edições de A Seita correspondem à mesma obra com duas capas diferentes.

Eis as respetivas capas (ordenadas alfabeticamente por editora):

Para esta análise não são contempladas reimpressões. Também não fazem parte desta análise as revistas e livros importados em língua francesa e na norma brasileira da língua portuguesa, distribuídos nos pontos de venda de periódicos.

Quanto à forma como o nosso Observatório contabiliza as edições mensais, tem em conta a primeira forma de comercialização da obra, independentemente do canal utilizado. Deste modo, edições comercializadas através do site ou das redes sociais de uma editora, bem como num dado evento, num determinado mês, são contabilizadas como publicadas nesse mês, independentemente do mês em que venha a ocorrer a eventual distribuição generalizada nos pontos de venda de periódicos ou livrarias.

Por fim, uma breve nota quanto às edições sobre BD. Em março de 2020, identificaram-se duas publicações deste género, ambas com distribuição alternativa. Uma delas é uma edição de autor (o autor anónimo d’ Os Positivos) e a outra é a publicação da Juvemedia.

Em suma, no que toca às edições sobre BD:

  • Edições de autor: 1
  • Editoras especializadas em BD: 1

Eis as respetivas capas:

BD PORTUGUESA EM DESTAQUE

Na nossa habitual rubrica de destaque à banda desenhada portuguesa, este mês revela-se pobre em quantidade. Na verdade, com a distribuição alternativa comprometida graças à pandemia de COVID-19 (em 2019, 64% da BD nacional publicada em formato físico que identificamos não foi distribuída nem em pontos de venda de periódicos nem em livrarias), em conjunto com as livrarias encerradas e a habitual ausência de distribuição de BD de autores portugueses nas bancas, dificilmente o material nacional corresponderá ao 1.º lugar de publicações mensais distribuídas por país, como frequentemente acontece, sem que estes factores se modifiquem.

A única publicação nacional de março é o terceiro número de Pentângulo, a antologia produzida pelo Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual e a Chili Com Carne. Este volume conta com a colaboração de Ana Dias, Anna Bouza, Beatriz Alves, Catarina Ramos, Cecília Silveira, Cláudia Pinhão, David Pulido, Diogo Candeias, Francisco Monteiro,  Francisco Sousa Lobo, Inês Cóias, João Ernesto, Luis Sequeira, Marcos Farrajota (com texto sobre a edição independente portuguesa 2019), Mariana Vale, Rebeca Reis, Rodolfo Mariano, Rosa Francisco, Sara Baptista, Sara Boiça, Sara Tanganho, Tiago Albuquerque, Tiago Baptista e Vasco Ruivo.

BD ESTRANGEIRA EDITADA EM PORTUGAL

Em março, duas editoras iniciaram 2 séries. A Gradiva publicou o primeiro tomo de O Guardião, Agente Secreto do Vaticano (Le Janitor, no original), com argumento de Yves Sente e desenhos de François Boucq. Por seu turno, A Seita iniciou uma série dedicada a Lucky Luke, a qual tem por base a série francófona Lucky Luke (vu par…) e a série alemã Lucky Luke Hommage. O primeiro volume desta série teve direito a 2 edições, com capas diferentes, sendo uma exclusiva da Fnac.

Para além destes 3 lançamentos, seis editoras prosseguiram as suas séries: a Arte de Autor com o quarto volume de Druuna; a Devir com o 14.º volume de Kenshin, o Samurai Errante e o 4.º volume de The Promised Neverland; a Levoir com mais quatro volumes da Colecção Watchmen; a Nuvem de Letras com Narval e Alforreca; a Salvat com três volumes de Astérix: Coleção Integral; e A Seita com a Colecção Aleph, mais precisamente com 2 BD de Dylan Dog.

Por fim, a Levoir editou ainda Harley Quinn: Através do Espelho de Mariko Tamaki e Steve Pugh, contrariando um pouco o paradigma atual, com livrarias encerradas e pontos de venda de periódicos abertos – distribui o volume nas livrarias mas cancelou a sua distribuição nas bancas.

O ANO DE 2020, ATÉ AO MOMENTO

Adições a fevereiro

Apesar do nosso trabalho desenvolvido todos os meses, identificámos com atraso 1 edição de banda desenhada, publicada em fevereiro de 2020.

Trata-se do fanzine Marcos 2020 do autor anónimo dos P+, que teve direito a distribuição alternativa.

A adição desta obra à base de dados altera ligeiramente os dados previamente apresentados sobre o mês de fevereiro e do primeiro bimestre editorial de 2020, pelo que os números totais relativos ao primeiro trimestre do ano já refletem esta adição.

O primeiro trimestre de 2020

Adicionámos os números identificados em janeiro e fevereiro aos números obtidos em março, para caracterizar o ano editorial nos primeiro trimestre do ano de 2020.

Total:

  • 72 publicações de BD
    • janeiro: 24
    • fevereiro: 30
    • março: 18

Subtotais:

  • Livros de BD com distribuição no canal livreiro e/ou bancas: 66
    • janeiro: 22
    • fevereiro: 26
    • março: 18
  • Revistas de BD com distribuição no canal livreiro e/ou bancas: 1
    • janeiro: 1
    • fevereiro: 0
    • março: 0
  • Publicações de BD com distribuição alternativa: 5
    • janeiro: 1
    • fevereiro: 4
    • março: 0

Distribuição:

  • Canal livreiro: 59 (alguns dos quais, só foram ainda comercializados por contacto direto com a editora ou distribuídos em bancas ou em eventos)
  • Pontos de venda de periódicos, em exclusividade: 8
  • Distribuição alternativa a livrarias e bancas, em exclusividade: 5

Cerca de 7% das publicações identificadas não teve distribuição para o grande público.

Formato:

  • Jornais: 0
  • Livros: 67
  • Revistas: 1
  • Outros (brochuras, etc): 4

Os livros correspondem a cerca de 93% das publicações de BD. Dos 67 livros, eis a distribuição por tipo de encadernação:

  • Capa dura: 48
  • Capa mole: 19

A encadernação em capa dura está presente em cerca de 72% dos livros de banda desenhada.

Cor de impressão:

  • Cores: 58
  • Preto: 14

A impressão do miolo a cores está presente em 81% das publicações de BD.

País de origem:

  • Alemanha: 1
  • Bélgica: 5
  • Brasil: 1
  • Canadá: 1
  • EUA: 23
  • França: 19
  • Itália: 3
  • Japão: 5
  • Portugal: 14

No primeiro trimestre, o país de origem mais representado são os EUA com 23 edições. Segue-se França com 19 edições. Caso se agregue França e Bélgica (24 edições), superam as 23 edições de material norte-americano. Portugal fica em 3.º lugar, com 14 edições. Destas, 4 publicações (29%) não tiveram nem terão distribuição para o grande público.

Editoras originais das 58 publicações de material estrangeiro:

  • Andrews McMeel: 1
  • Barba Negra: 1
  • Blue Ocean: 1
  • Casterman: 1
  • Dargaud: 6
  • Dark Horse: 1
  • DC Comics: 10
  • Les Éditions Albert René: 8
  • Glénat: 2
  • Hachette: 2
  • IDW: 2
  • Image: 3
  • Le Lombard: 3
  • Lucky Comics: 2
  • Marvel: 4
  • McClelland & Stewart: 1
  • Lo Scarabeo: 1
  • Sergio Bonelli Editore: 2
  • Shueisha: 5
  • Tundra Books: 2

Do material estrangeiro, destaca-se a DC Comics com direito a 10 edições, Les Éditions Albert René com 8 publicações e a Dargaud com 6 edições.

Quinquénio da edição original:

  • 1945 – 1949: 1
  • 1960 – 1964: 1
  • 1965 – 1969: 2
  • 1980 – 1984: 1
  • 1985 – 1989: 3
  • 1985 – 1989: 1
  • 1990 – 1994: 2
  • 1995 – 1999: 4
  • 2000 – 2004: 4
  • 2005 – 2009: 3
  • 2010 – 2014: 2
  • 2015 – 2019: 32
  • 2020: 16

As edições originalmente publicadas no quinquénio 2015-2019 correspondem a cerca de 44% das publicações de banda desenhada. Cerca de 22% foram originalmente publicadas este ano.

Originalidade:

  • Inéditos mundiais: 12
  • Inéditos em Portugal: 39
  • Reedições: 21

As reedições correspondem a cerca de 29% das edições de banda desenhada no primeiro trimestre (no ano de 2019, as reedições corresponderam a 16% das obras editadas).

Publicações por editora: 

  • Ala dos Livros: 2
  • Arte de Autor: 3
  • ASA: 6
  • Bertrand: 1
  • Blue Ocean: 1
  • Chili Com Carne: 2 ½ (3 publicações)
  • Devir: 5
  • Escorpião Azul: 2
  • FA: 1
  • G. Floy: 7
  • Gailivro: 1
  • Gradiva: 3
  • Kingpin: 2
  • Levoir: 10
  • Liliana Maia (via Lulu): 1
  • Lovers & Lollypops: ½ (1 publicação)
  • Massacre: 1
  • Nuvem de Letras: 5
  • Oficina do Livro: 2
  • Planeta: 1
  • Polvo: 1
  • Os Positivos: 1
  • Renato Abreu: 1
  • Salvat: 7
  • A Seita: 4
  • Serafim & Malacuéco Inc.: 1

Verifica-se então que, no primeiro trimestre, a Levoir passou a ser o líder no segmento do mercado, com um total de 10 lançamentos, destronando a G. Floy, que mantém os seus 7 lançamentos do primeiro bimestre, numa posição idêntica à Salvat. Segue-se a ASA com 6 publicações. Por fim, destaca-se ainda a Devir e a Nuvem de Letras, com 5 publicações cada, bem como A Seita com 4 edições.

Edições sobre BD:

  • Câmaras Municipais: 0
  • Edições de autor: 1
  • Editoras especializadas em BD: 0
  • Organizações especializadas em BD: 1

Do total de 2 publicações sobre BD, nenhuma teve distribuição para o grande público.

Não sendo boas as previsões relativas aos artigos sobre a BD editada em Portugal nos próximos tempos, porque nunca é demais lembrar, fiquem em casa e leiam banda desenhada.


nota: considerem-se os números apresentados neste artigo como pré-definitivos até à publicação do artigo referente ao ano de 2020.
imagem: Painel de personagens de BD em azulejaria no Parque das Nações, Lisboa (© Bandas Desenhadas, março de 2020)

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.