A inspiração cinematográfica de Bruxas/Wytches.

Desde os famosos slashers dos anos 80 aos filmes de terror psicológico, poderíamos contar pelos dedos da mão a quantidade de filmes dos géneros terror que foram reconhecidos e nomeados para Prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Qual a razão para que sempre tenha sido assim?

Desde que me tornei fã desta categoria do cinema que sinto que estes géneros foram sempre géneros um pouco discriminados. Salvo alguns casos de sucesso, como o realizador Alfred Hitchcock, parece que nunca houve muito espaço para o terror realmente crescer e ser explorado como “cinema artístico”.

Desde Edgar Allan Poe a Stephen King, vários são os escritores de sucesso que nos apresentam grande parte do seu trabalho à volta do terror, mas, ainda assim, o que torna tão difícil provar que a experiência artística do terror tem tanta qualidade como as maiores obras do cinema e da literatura?

Olhando para trás, quando era apenas uma criança, a experiência do terror para mim era vivida de uma forma completamente diferente. Filmes que agora revejo e me parecem pouco inspirados, seriam o suficiente para me tirar o sono durante dois ou três dias naquela altura. O que mudou? Bem, podia dizer que cresci e a minha visão do mundo também, mas provavelmente a grande razão para essa mudança terá sido o hábito. Com o passar dos anos, aquele medo ou receio que encontrava nos filmes, transformou-se em curiosidade, como se quisesse impelir-me a mim mesmo a ter todas as sensações de desconforto. Claro que, já adolescente, já tinha visto tantos filmes que não me recordaria de todos e, entretanto, a experiência do medo e do desconforto havia desaparecido. Entretanto, dei por mim a procurar novas emoções nos filmes de terror, a procurar “o filme” que me faria sentir desconfortável novamente.

Posso dizer que não o encontrei e, divagando agora no assunto, penso que só terei reencontrado tal sensação em videojogos também do género. Histórias em que experienciava individualmente os acontecimentos e em que era eu a tomar decisões e a fazer escolhas. Isto levou-me a entender que o terror dificilmente é realmente sentido porque o verdadeiro terror só pode estar na realidade da vida, ou seja, em situações reais.

É com este tipo de pensamento que abordo as obras, neste caso de banda desenhada, que se inserem nos géneros acima destacados. Percebi que uma das maiores falhas das produções artísticas em terror são a falta de desenvolvimento pessoal dos personagens. Muitas das obras cinematográficas, ou até literárias, destacam uma “desculpa” para o medo, muitas vezes esquecendo que os personagens envolvidos são pessoas com as suas preocupações, os seus próprios medos e os seus desejos. Quantas vezes vemos personagens que cruzam o ecrã durante duas horas e acabam por morrer sem sabermos qual era a sua pertença no mundo?

É claro que felizmente tal não acontece com todas as obras e o mesmo se passa com a nona arte. É aqui que se distingue uma boa obra de uma má, independente de assustar ou não.

Achei que toda a introdução seria apropriada para abrir caminho à recensão a Bruxas/Wytches, no sentido em que se trata de uma obra de terror. No fundo, para dizer que muito dificilmente uma banda desenhada de terror será realmente assustadora, como são tantas vezes descritas nas críticas de contracapa, mas há muito bons livros no género.

Scott Snyder, Jock e Matt Hollingsworth criaram aqui uma obra de banda desenhada num estilo bastante cinematográfico. O volume contou com seis números (ou seis capítulos) e foi originalmente editado pela Image Comics em 2014. Foi em agosto de 2017 que a G. Floy fez chegar às livrarias em Portugal a sua versão editada de Bruxas.

Scott Snyder é um dos mais importantes colaboradores da DC Comics, tendo sido o principal escritor de Batman. Desenvolve atualmente a série Undiscovered Country publicada pela Image Comics.

Bruxas/Wytches tem um intenso motor de arranque. O volume inicia com uma das mais desconcertantes introduções que me lembro de ter lido em banda desenhada. Lembro-me de ficar completamente perplexo aos elementos utilizados e pensar: “Ok, Snyder, dá-me mais…”.

Segue-se uma história cheia de elementos cinematográficos. O argumento escrito que mais se aproxima do da banda desenhada é o do cinema, ainda assim com as suas diferenças. Entre as passagens das páginas e das vinhetas sentimos sempre que já vimos isto em algum lado e foi, possivelmente, no grande ecrã.

A premissa da obra remeteu-me também para vários filmes do mesmo género, que recordo ter visto. O mais óbvio seria A Descida de Neil Marshall. Mas os vários elementos de terror não ficam por aí e os fãs de cinema e de banda desenhada de terror, vão imediatamente identificar Snyder como, também ele, um grande fã do género. A história mantém o mistério e é cativante até ao final, deixando sempre a curiosidade em aberto no fim de cada capítulo. Não é genial, mas Snyder deu aqui bom uso a referências de outras obras para criar algo original.

A arte é bem conseguida e Jock tem uma clara perceção das perspetivas desenhadas. Apesar disso, o aspeto que menos me agradou foi, em parte, nas cores. A utilização de filtros com aguarelas feitas à mão foi um tanto original e foi utilizado de forma soberba, dando mesmo o aspeto cinematográfico do medo. Mas depressa terá sido sobrecarregado e, um aspeto que parecia ser tão brilhante e diferente, rapidamente saturou. A utilização do filtro passa a ser recurso na maioria das páginas e as imagens começam a tornar-se cansativas, quase confusas, demasiadas vezes.

Um aspeto simplesmente delicioso foi o epílogo deixado depois do final da obra, mesmo nas últimas páginas. Como qualquer clássico filme de terror, a banda desenhada acaba com um momento de abertura para a possível continuidade do universo desta obra, coisa que não aconteceu até então, mas não deixa de ser um momento muito agradável, como uma pequena cena pós-créditos.

Snyder e Jock terão prometido novas histórias passadas no universo de Bruxas, mas até à data nada foi confirmado e recordemos que passaram já quase 6 anos da publicação do original. Cá aguardamos uma nova série…

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…