O inquietante segundo volume de Outcast.

Chegado às livrarias em junho de 2017, editado pela G. Floy, o segundo volume da série Outcast de Robert Kirkman e Paul Azaceta foi intitulado de Uma Ruína Sem Fim. O volume reúne os números 7 a 12.

Embora pouco se distancie daquilo que nos é apresentado no primeiro volume, o desenvolvimento da premissa neste segundo, continua a ser excecional. Não me contive nos elogios ao primeiro volume e, mais uma vez, não o poderei fazer.

A escrita de Kirkman é, possivelmente, uma das melhores que podemos encontrar na banda desenhada da sua geração. O ritmo da obra é um dos melhores que já li. A história nunca parece estagnar ou tornar-se aborrecida e repetitiva, embora a narrativa seja, por vezes, bastante pausada. É difícil entender qual o ingrediente especial de Kirkman, mas resulta e tão bem.

A arte, quer de Paul Azaceta, quer de Elizabeth Breitweiser nas cores, é absolutamente excecional tal como referi no artigo ao primeiro volume. Faltam palavras suficientes para descrever a genialidade desta obra. É certo, todavia, que é o tipo de banda desenhada que não agradará a todo e qualquer leitor. A ideia de demónios e exorcismos, juntamente com a narrativa compassada e os momentos refletivos, bem como a própria arte, tornam a obra um tanto exclusiva. Muitos, certamente, não apreciaram ou virão a apreciar, mas haverá sempre um leque de fãs que, tal como eu, verão a obra com a singularidade que esta nutre.

Desfolhar qualquer um dos volumes é uma experiência completamente deslumbrante. Cada página é repleta das mais belas vinhetas, facto que dificultou um pouco a minha escolha de páginas para a ilustração deste artigo. Garanto que podia escolher aleatoriamente, praticamente, qualquer página deste volume e o resultado seria sempre igualmente bom.

Uma Ruína Sem Fim persiste na utilização dos mesmos ambientes escuros apresentados no primeiro volume e a arte, em geral, desenvolve-se da mesma forma. O enredo difunde-se e os “demónios” (se é que assim se podem chamar) aproximam-se cada vez mais de Kyle e da sua família. O final deste volume deixa, mais uma vez, água na boca. O suspense faz-nos querer saltar imediatamente para a continuação e conhecer o desfecho da ação que terá ficado por terminar.

Kyle continua com as suas dúvidas em relação às possessões e em relação ao poder que tem sobre os demónios e, embora as venha a esclarecer aos poucos, a sua determinação é o que mais é salientado neste volume. Se no volume anterior e, ainda em parte deste, Kyle se mantém reticente e duvidoso quanto ao que acontece, com o aproximar da conclusão do final do segundo volume, este vai-se revelando cada vez mais determinado a agir e terminamos com o mesmo convencido de que tem de impedir que mais pessoas continuem, ou venham a ser, possuídas.

Há um turbilhão de emoções que se desenvolvem ao longo deste segundo volume. Kyle volta a procurar por Allison (a sua ex-namorada, supomos) e a sua filha; o reverendo Anderson debate-se com o “diabo” e as suas ameaças enquanto questiona Deus, pelo qual pensa ter sido abandonado; e os dois, Kyle e Anderson, continuam juntos a procurar pessoas que possam estar ainda possuídas, na esperança de as exorcizar através dos dons sobrenaturais do nosso personagem principal.

A relação entre os dois personagens tem uma evolução interessante, no ponto em que, apesar de ambos procurarem o bem, diferentes opiniões e métodos de ação os separam em parte, acabando por os afastar antes do final. Kyle acaba por voltar a juntar-se ao padre bem perto do término, buscando por ajuda para salvar a sua irmã.

Estes debates pessoais que o personagem principal tem consigo mesmo, e que acabam por traçar discordâncias na sua relação com os que estão à sua volta, apresentam um enredo que nos deixa aquela sensação de “humano” ou relacionável, até. Um personagem cujos seus problemas pessoais se transformam em problemas sociais e prejudicam as relações que mantém.

Não me canso de elogiar esta obra, que me mantém ocupado a ler horas a fio. Poucas são as palavras capazes de descrever fielmente o quão boa está na sua simplicidade e, principalmente, no ritmo do desenvolvimento da ação. É um ótimo progresso da equipa Kirkman/Azaceta.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…