O primeiro quadrimestre editorial de banda desenhada em Portugal no ano 2020.

Devido à pandemia de COVID-19, abril será provavelmente o mês do ano de 2020 que terá direito ao recorde de menor número de publicações de banda desenhada no nosso país. É possível, inclusive, que seja o mês com menor publicações de BD “desde sempre”, ou melhor, desde que a BD começou a ser publicada regularmente em publicações próprias.

Apesar do anunciado final do estado de emergência, muitas das questões a nível da saúde permanecem num mar de incertezas sobre o que o futuro trará, desde os casos que repositivarem poderem transmitir o vírus, desconhecer-se ainda que o quão eficaz é a imunidade individual dos cidadãos que já contactaram com o vírus, se será descoberto algum tratamento eficaz ou quando estará disponível uma vacina e com que grau de eficácia na imunidade individual e de grupo.

A estas interrogações, adicionar-se-á em maio outra – como será o equilíbrio entre a retoma gradual da economia, as suas consequências no número de casos e a capacidade de resposta do Sistema Nacional de Saúde.

No que toca à edição de BD no nosso país, há dois indicadores que parecem ser positivos, apesar de um deles estar limitado a uma amostra de tamanho diminuta e ter de ser lido com cuidado. Comparativamente com março, houve editoras que editaram em abril publicações agendadas para o mês anterior, que tinham sido suspensas devido à pandemia. Isto poderá ser um indicador de que, apesar das vendas em hipermercados e online serem diminutas quando comparadas com o canal livreiro – ou com uma redução do número de pontos de venda de periódicos que permanecem abertos (apesar de ter sido sempre permitido o seu funcionamento, desde que cumpridas as condições de segurança emanadas, nem todos se encontram em funcionamento; por outro lado, alguns apresentam um horário laboral reduzido) – algumas editoras de BD não consideraram viável a suspensão de lançamento de novidades por tempo indeterminado e apostaram nos canais de distribuição disponíveis para recomeçar a sua atividade.

Inclusivamente, estas editoras vêm-se juntar ao trio de editoras, cuja pandemia não as impediu de lançarem novidades quer em março, quer em abril – Arte de Autor, Levoir e Salvat.

Por outro lado, o anúncio de que em maio serão reabertas as livrarias, certamente contribuirá para que as editoras dêem por finalizada a suspensão de lançamento de novidades. E é provável que mesmo que a epidemia se agrave no nosso país ao ponto de, por exemplo, se encerrarem novamente as livrarias por um determinado período de tempo, as editoras tenham durante este tempo reforçado a sua presença online, em hipermercados e/ou nos pontos de venda de periódicos para garantir uma maior percentagem de vendas fora do canal livreiro, de modo a se permitirem a continuar a publicar nesse cenário.

Por tudo isto, acreditamos que, mesmo que se tenha de dar “passos atrás” na retoma económica, as editoras estarão melhor preparadas para fazer jus a tal, pelo que será um bom sinal se abril de 2020 se vier a confirmar como o pior mês de sempre na edição de banda desenhada no nosso país.

Por tudo o que foi exposto, não será de estranhar que o número de lançamentos de abril de 2020 seja inferior não só ao de março deste ano como ao de abril de 2019.

Em abril de 2020, identificou-se a edição de 10 publicações de banda desenhada (publicações com BD em mais de 50% das suas páginas). Sem dúvida que, para este número ser atingido, muito contribuíram as séries distribuídas em abril nos pontos de venda de periódicos. No entanto, somente 2 dessas edições têm ou terão como exclusividade este canal de distribuição. Todos as demais, têm concomitantemente ou terão posteriormente distribuição em livrarias.

Por outro lado, em abril foi identificada uma publicação de BD com distribuição alternativa no nosso país, isto é, uma publicação de BD que não é distribuída no canal livreiro nem em pontos de venda de periódicos. Conclui-se então que 10% das publicações identificadas não teve distribuição para o grande público.

Em resumo, quanto ao canal de distribuição:

  • Canal livreiro: 7 (alguns dos quais, só foram ainda comercializados por contacto direto com a editora ou distribuídos em bancas ou em eventos)
  • Pontos de venda de periódicos, em exclusividade: 2
  • Distribuição alternativa a livrarias e bancas, em exclusividade: 1

Eis o número de publicações identificadas, segundo o formato:

  • Jornais: 0
  • Livros: 10
  • Revistas: 0
  • Outros (brochuras, etc): 0

Dos 10 livros, eis a distribuição por tipo de encadernação:

  • Capa dura: 9
  • Capa mole: 1

E a distribuição das 10 publicações por cor de impressão:

  • Cores: 10
  • Preto: 0

Das 10 publicações de abril, o país de origem tem a seguinte distribuição:

  • EUA: 6
  • França: 4

A nível das 10 publicações de material estrangeiro, eis as editoras originais:

  • DC Comics: 3
  • Les Éditions Albert René: 2
  • Futuropolis: 1
  • Gallery 13: 1
  • Glénat: 1
  • Icon: 1
  • McNaught Syndicate: 1

Quanto ao quinquénio da edição original, as 10 publicações distribuem-se do seguinte modo:

  • 1950 – 1954: 1
  • 1970 – 1974: 1
  • 1985 – 1989: 1
  • 2010 – 2014: 2
  • 2015 – 2019: 4
  • 2020: 1

No que toca à originalidade das obras sob o formato de papel no nosso país, das 10 publicações verifica-se a existência de:

  • Inéditos mundiais: 0
  • Inéditos em Portugal: 8
  • Reedições: 2

Eis as editoras das publicações identificadas:

  • Ala dos Livros: 1
  • Arte de Autor: 1
  • G. Floy: 2
  • Levoir: 3
  • Libri Impressi: 1
  • Salvat: 2

Eis as respetivas capas (ordenadas alfabeticamente por editora):

Para esta análise não são contempladas reimpressões. Também não fazem parte desta análise as revistas e livros importados em língua francesa e na norma brasileira da língua portuguesa, distribuídos nos pontos de venda de periódicos.

Quanto à forma como o nosso Observatório contabiliza as edições mensais, tem em conta a primeira forma de comercialização da obra, independentemente do canal utilizado. Deste modo, edições comercializadas através do site ou das redes sociais de uma editora, bem como num dado evento, num determinado mês, são contabilizadas como publicadas nesse mês, independentemente do mês em que venha a ocorrer a eventual distribuição generalizada nos pontos de venda de periódicos ou livrarias.

Por fim, uma breve nota quanto às edições sobre BD. Em abril de 2020, não foi identificada nenhuma publicação deste género.

BD PORTUGUESA AUSENTE

O mês de abril de 2020 é também um marco pela ausência da publicação de banda desenhada portuguesa. Na verdade, a atual conjuntura, com a distribuição alternativa comprometida graças à pandemia de COVID-19 (em 2019, 64% da BD nacional publicada em formato físico que identificamos não foi distribuída nem em pontos de venda de periódicos nem em livrarias), em conjunto com as livrarias encerradas e a habitual ausência de distribuição de BD de autores portugueses nas bancas, ditou esta anomalia.

Registe-se, contudo, que foram vários os autores portugueses que se dedicaram a lançar webcomics de acesso gratuito neste período de pandemia.

BD ESTRANGEIRA EDITADA EM PORTUGAL

Em abril, nenhuma editora iniciou séries estrangeiras inéditas em Portugal. No entanto, a Ala dos Livros publicou o terceiro tomo de Mattéo de Jean-Pierre Gibrat, dando continuidade à série cancelada pela Vitamina BD.

Para além deste lançamento, quatro editoras prosseguiram as suas séries: a Arte de Autor com o quarto (e último) volume de Os Cavaleiros de Heliópolis; a G. Floy com o 3.º volume de Criminal; a Levoir com os últimos três volumes da Colecção Watchmen; e a Salvat com dois volumes de Astérix: Coleção Integral.

Paralelamente, a G. Floy editou a obra Roughneck de Jeff Lemire. E, por fim, a Libri Impressi publicou Johnny Comet de Earl Baldwin e Frank Frazetta.

O ANO DE 2020, ATÉ AO MOMENTO

Adições a fevereiro

Apesar do nosso trabalho desenvolvido todos os meses, identificámos com atraso 1 edição de banda desenhada, publicada em fevereiro de 2020.

Trata-se do livro de banda desenhada Zé do Telhado: De Lanceiro a Salteador, da autoria de Eugénio Silva, editado pela chancela Calçada das Letras.

A adição desta obra à base de dados altera ligeiramente os dados previamente apresentados sobre o mês de fevereiro e do primeiro bimestre editorial de 2020, pelo que os números totais relativos ao primeiro quadrimestre do ano já refletem esta adição.

O primeiro quadrimestre de 2020

Adicionámos os números identificados em janeiro, fevereiro e março aos números obtidos em abril, para caracterizar o ano editorial no primeiro quadrimestre do ano de 2020.

Total:

  • 83 publicações de BD
    • janeiro: 24
    • fevereiro: 31
    • março: 18
    • abril: 10

Subtotais:

  • Livros de BD com distribuição no canal livreiro e/ou bancas: 76
    • janeiro: 22
    • fevereiro: 27
    • março: 18
    • abril: 9
  • Revistas de BD com distribuição no canal livreiro e/ou bancas: 1
    • janeiro: 1
    • fevereiro: 0
    • março: 0
  • Publicações de BD com distribuição alternativa: 6
    • janeiro: 1
    • fevereiro: 4
    • março: 0
    • abril: 1

Distribuição:

  • Canal livreiro: 67 (alguns dos quais, só foram ainda comercializados por contacto direto com a editora ou distribuídos em bancas ou em eventos)
  • Pontos de venda de periódicos, em exclusividade: 10
  • Distribuição alternativa a livrarias e bancas, em exclusividade: 6

Cerca de 7% das publicações identificadas não teve distribuição para o grande público.

Formato:

  • Jornais: 0
  • Livros: 78
  • Revistas: 1
  • Outros (brochuras, etc): 4

Os livros correspondem a cerca de 94% das publicações de BD. Dos 78 livros, eis a distribuição por tipo de encadernação:

  • Capa dura: 57
  • Capa mole: 21

A encadernação em capa dura está presente em cerca de 73% dos livros de banda desenhada.

Cor de impressão:

  • Cores: 69
  • Preto: 14

A impressão do miolo a cores está presente em 83% das publicações de BD.

País de origem:

  • Alemanha: 1
  • Bélgica: 5
  • Brasil: 1
  • Canadá: 1
  • EUA: 29
  • França: 23
  • Itália: 3
  • Japão: 5
  • Portugal: 15

No primeiro quadrimestre, o país de origem mais representado são os EUA com 29 edições. Segue-se França com 23 edições. Caso se agregue França e Bélgica (28 edições), não superam as 29 edições de material norte-americano. Portugal fica em 3.º lugar, com 15 edições. Destas, 4 publicações (29%) não tiveram nem terão distribuição para o grande público.

Editoras originais das 68 publicações de material estrangeiro:

  • Andrews McMeel: 1
  • Barba Negra: 1
  • Blue Ocean: 1
  • Casterman: 1
  • Dargaud: 6
  • Dark Horse: 1
  • DC Comics: 13
  • Les Éditions Albert René: 10
  • Futuropolis: 1
  • Gallery 13: 1
  • Glénat: 3
  • Hachette: 2
  • Icon: 1
  • IDW: 2
  • Image: 3
  • Le Lombard: 3
  • Lucky Comics: 2
  • Marvel: 4
  • McClelland & Stewart: 1
  • McNaught Syndicate: 1
  • Lo Scarabeo: 1
  • Sergio Bonelli Editore: 2
  • Shueisha: 5
  • Tundra Books: 2

Do material estrangeiro, destaca-se a DC Comics com direito a 13 edições, Les Éditions Albert René com 10 publicações e a Dargaud com 6 edições.

Quinquénio da edição original:

  • 1945 – 1949: 1
  • 1950 – 1954: 1
  • 1960 – 1964: 1
  • 1965 – 1969: 2
  • 1970 – 1974: 1
  • 1980 – 1984: 1
  • 1985 – 1989: 3
  • 1985 – 1989: 2
  • 1990 – 1994: 2
  • 1995 – 1999: 4
  • 2000 – 2004: 4
  • 2005 – 2009: 3
  • 2010 – 2014: 4
  • 2015 – 2019: 36
  • 2020: 18

As edições originalmente publicadas no quinquénio 2015-2019 correspondem a cerca de 43% das publicações de banda desenhada. Cerca de 22% foram originalmente publicadas este ano.

Originalidade:

  • Inéditos mundiais: 13
  • Inéditos em Portugal: 47
  • Reedições: 23

As reedições correspondem a cerca de 28% das edições de banda desenhada no primeiro quadrimestre (no ano de 2019, as reedições corresponderam a 16% das obras editadas).

Publicações por editora: 

  • Ala dos Livros: 3
  • Arte de Autor: 4
  • ASA: 6
  • Bertrand: 1
  • Blue Ocean: 1
  • Calçada das Letras: 1
  • Chili Com Carne: 2 ½ (3 publicações)
  • Devir: 5
  • Escorpião Azul: 2
  • FA: 1
  • G. Floy: 9
  • Gailivro: 1
  • Gradiva: 3
  • Kingpin: 2
  • Levoir: 13
  • Libri Impressi: 1
  • Liliana Maia (via Lulu): 1
  • Lovers & Lollypops: ½ (1 publicação)
  • Massacre: 1
  • Nuvem de Letras: 5
  • Oficina do Livro: 2
  • Planeta: 1
  • Polvo: 1
  • Os Positivos: 1
  • Renato Abreu: 1
  • Salvat: 9
  • A Seita: 4
  • Serafim & Malacuéco Inc.: 1

Verifica-se então que, tal como no mês anterior, a Levoir é o líder no segmento do mercado, com um total de 13 lançamentos. Quanto ao segundo lugar, continua a ser ex aequo, com a G. Floy e a Salvat a registarem 9 lançamentos cada. Segue-se a ASA com 6 publicações. Por fim, destaca-se ainda a Devir e a Nuvem de Letras, com 5 publicações cada, bem como a Arte de Autor e A Seita, com 4 edições cada.

Edições sobre BD:

  • Câmaras Municipais: 0
  • Edições de autor: 1
  • Editoras especializadas em BD: 0
  • Organizações especializadas em BD: 1

Do total de 2 publicações sobre BD, nenhuma teve distribuição para o grande público.

No próximo mês, verificaremos se, conforme esperado, existirá um acréscimo do número de edições de banda desenhada.


nota: considerem-se os números apresentados neste artigo como pré-definitivos até à publicação do artigo referente ao ano de 2020.
imagem: Painel de personagens de BD em azulejaria no Parque das Nações, Lisboa (© Bandas Desenhadas, abril de 2020)

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.