Retrospetiva a Harrow County antes do grande final.

Este é o quarto artigo que redijo à série Harrow County e destina-se à análise dos volumes 5 e 6, sendo este o último artigo por mim elaborado antes da publicação, pela G. Floy, do último volume.

Já lá vão uns bons tempos a ler esta série e tem sido uma caminhada e peras. Oito volumes totalizam a obra original de Cullen Bunn e Tyler Crook e só nos falta o oitavo (na edição da G. Floy) para conhecer o grande desfecho. Todavia, optei por começar a analisar os volumes de dois em dois, até porque resulta muito bem e porque são volumes pequenos de apenas 4 números cada. Portanto, os últimos que aqui foco são o quinto, Abandonado e o sexto, Magia de Raízes. Note-se que o sétimo volume está já disponível desde o início do ano, mais especificamente, fevereiro, mas a crítica ao mesmo será por mim apenas feita aquando publicação do oitavo e último volume.

Recordo ter referido no artigo anterior que a série parecia estar a repetir a fórmula no final do volume quatro, que terá ficado um pouco aquém das minhas expectativas. O que esperava era que essa questão fosse melhorada nos volumes futuros ou que tivesse, até, uma justificação, como obviamente tinha.

Os volumes 5 e 6 foram a refrescante continuação que precisava. Começando por Abandonado, além do nome do quinto volume, este é também o nome pelo qual é conhecido um misterioso personagem que habita os bosques de Harrow. Este arco cruza a relação entre o abandonado e a “família”, recém-descoberta por Emmy no volume anterior. Os anteriores volumes da série construíram o mistério à volta do personagem, na minha opinião, de uma forma bastante metodizada. Bunn aproveitou o trunfo que aqui construíra para, finalmente no volume 5, apresentar a verdade por trás do mistério do abandonado.

Para além do destaque dado ao volume, Bunn aproveitou também para nos revelar, pela primeira vez, a verdadeira natureza de Emmy, que pensava até então, ser a encarnação do espírito de Hester.

A violência e o sangue nos dois últimos capítulos marcam forte presença neste volume, que reafirma o horror da série e nos relembra o género que estamos a ler. Abandonado termina com uma nova ameaça e a incerteza da sua origem.

Em Magia de Raízes, esta nova ameaça é explorada desde início. Desde cedo que Emmy se apercebe do medo que está no ar entre as várias assombrações com que se relaciona e reafirma então a sua posição enquanto protetora de Harrow. Emmy tem agora uma nova confiança, ganha após as revelações de Malachi (o verdadeiro nome do abandonado); no entanto, a incerteza dos habitantes de Harrow County quanto à sua legitimidade é um dos principais entraves à sua posição durante o decorrer deste volume.

Bernice, a sua melhor amiga, toma também um lado oposto ao seu e, procurando seguir os ensinamentos de Lovey, e proteger Harrow County, enfrenta Emmy e obriga-a a abandonar o condado.

Cullen Bunn criou um confronto interessante neste volume. Emmy nunca foi totalmente bem-vinda em Harrow e acaba por senti-lo mais que nunca neste arco. As pessoas olham-na com receio, falta de confiança. Sempre a viram como uma bruxa e uma bruxa será, para eles, sempre alguém tenebroso e com más intenções.

Obviamente, sabemos que Emmy não é uma “bruxa má” e Bernice também não o é. É por isso que as questões morais aqui colocadas entre as duas amigas, ou seja, o dever acima da amizade, se opõem, cegando um pouco de cada parte.

No desfecho do volume descobrem que foram manipuladas e acabam por se voltar a aliar contra um mal maior que é deixado em suspenso para o volume seguinte. Kammi acaba de ser reerguida do subsolo pela família que procura pôr fim à nossa protagonista. 

Não me procurava alongar muito quanto ao resumo do que acontece nestes dois volumes, embora acabe por haver sempre uma certa necessidade de o fazer nestes artigos.

Já vai sendo um hábito deixar a minha opinião quanto à arte das capas desta série e não recordo os adjetivos que já utilizei anteriormente e, portanto, desta vez não vou usar nenhum. Apresento abaixo duas das capas a que me refiro e espero que falem por si.

Os primeiros dois números de Abandonado voltaram a ter participação de Carla Speed McNeil na arte e Jenn Manley Lee nas cores e estes são sempre números que me deixam, não diria insatisfeito, mas menos satisfeito, certamente. O estilo não é mau e nos capítulos em específico pode fazer, inclusivamente, um certo sentido deslocar um pouco a arte, mas, por vários motivos, a arte de Tyler Crook trouxe-me já um certo favoritismo. As páginas por si desenhadas continuam completamente deslumbrantes e o seu trabalho nesta série é de louvar.

Vendo cada vez mais arte na banda desenhada dos dias de hoje ser feita digitalmente, é de enaltecer a qualidade do trabalho deste artista, que se mantém fiel à boa e velha arte tradicional. 

Cullen Bunn e Tyler Crook apresentaram-nos até aqui um trabalho bem desenvolvido e original. As cores e os ambientes apresentados no livro são sempre um motivo para querer voltar e continuar a ler. Se não criaram aqui uma obra genial, têm, no mínimo uma obra muito agradável.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…