A morte anunciada de uma editora.

A editora MMMNNNRRRG nasceu a 11 de maio de 2000. Quando fez 18 anos, anunciou o seu final para 11 de maio de 2020, evocando o número redondo. E hoje chegamos a esse marco. Adeus, MMMNNNRRRG!

Fundada por Marcos Farrajota em 2000 e dirigida com Joana Pires desde 2010, a MMMNNNRRRG publicou aquilo que o seu editor designou por “Art Brut Comix de artistas de BD outsider“. Entre os países de que os seus autores são oriundos encontram-se Portugal, EUA, Reino Unido, Croácia, Finlândia, Sérvia, Roménia, Holanda, África do Sul, Bélgica, Grécia, Rússia e Suécia. Esta pequena editora deu primazia ao livro em offset, tendo ainda inaugurado o boom dos graphzines em serigrafia no nosso país, bem como experimentado outros formatos menos convencionais.

Paralelamente, desde 2015, dedicou-se também à edição musical sob o formato de cassetes de projetos como Black Taiga, Melanie is Demented, Traumático Desmame e BLEID.

Ao longo dos 20 anos de atividade, poder-se-iam destacar os mais variados feitos da MMMNNNRRRG, desde os trabalhos conjuntos com o Ar.Co (num projecto que incluía Ana Hatherly e António Poppe, entre outros) e o Cinanima até à publicação de um livro de Mike Diana, o “primeiro autor de BD a ser proibido de desenhar”, em 2002; desde o seu livro “Já Não Há Maçãs no Paraíso” de Max Tilmann ter sido galardoado com o prémio TITAN em 2010 até a trabalhos de cinco dos autores publicados (Janus, André Lemos, Pepedelrey, João Maio Pinto e Tiago Manuel) constarem da exposição “Tinta nos Nervos” no Museu-Colecção Bernardo; desde a BD Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi ter sido selecionada para o livro 1001 Comics You Must Read Before You Die de Paul Gravett até ao livro W.C. de Marriette Tosel ter sido selecionado para um concurso da Society of Illustrators de Nova Iorque; desde Papá em África ter ganho o Prémio de Melhor Álbum de Autor Estrangeiro no festival Amadora BD 2015 até ao seu autor, Anton Kannemeyer, ter participado numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian envolta em alguma polémica. No entanto, mais importante, será o seu próprio catálogo.

Entre 2000 e 2020, a MMMNNNRRRG editou autores nacionais e estrangeiros como Tiago Manuel, Samplerman, Nunsky, Janus, Mike Diana, Christopher Webster, Igor Hofbauer, Tommi Musturi, Aleksandar Zograf, Aaron $hunga, Alexander Brener & Barbara Schurz, Grupo Empíreo, Marcel Ruijters, Ilan Manouach, Olivier Schrauwen, Simon Hanselmann, Anton Kannemeyer, Benjamin Bergman, Marcel Ruijters, Neuro, André Ruivo e o próprio Marcos Farrajota, entre outros.

A propósito do encerramento da MMMNNNRRRG, realizámos uma curta entrevista ao editor:

Nuno Pereira de Sousa: Quais as razões para o fim da MMMNNNRRRG?
Marcos Farrajota: Nos últimos anos, eram as mesmas pessoas a suportar o grosso das atividades da Chili Com Carne – que tem mais participações porque é um projecto colectivo – e da MMMNNNRRRG – um projecto individual. Não conseguíamos sustentar duas estruturas “em concorrência”. A Chili teve mais sucesso, morre a MNRG.

NPS: Em maio de 2018, anunciaste o encerramento da editora em 2020. O que levou a fazer tal anúncio com 2 anos de antecedência?
MF: Porque foi a essa conclusão que se chegou na altura, que devíamos parar. Mas queríamos fazer um número redondo: há 20 anos estávamos a abrir uma exposição fantástica na Galeria Zé dos Bois (ZDB); 20 anos depois, estamos isolados em casa a matar o bicho – havia a ideia de uma festa num clube noturno, mas as emergências e calamidades restringiram o funeral. 

NPS: Desde o final anunciado, foi editada BD, música e objetos ilustrados até ao final de 2018. Havia planos para editar material em 2019 e 2020 que não se concretizaram?
MF: Sim, havia mais dois livros e duas cassetes mas não aconteceram por inércia quer dos autores quer dos editores… Coma induzido.

NPS: O anunciado segundo número de “Subsídios” virá a ser publicado?
MF: Não, nunca! Foi dos projetos mais frustrantes que tivemos. Quando saiu o primeiro número, montes de gente prometeu que conhecia um “doido” algures que fazia excentricidades artísticas, algures perdido no deserto português, mas, no fim, nunca foi enviado nenhum artigo. Pensamos fazer um especial Dr. Urânio mas não aconteceu pela tal inércia. Mas há-de ser feito um livro dele um dia destes, pela Chili.

NPS: Na tua opinião, “Art Brut Comix” e BD “outsider” são sinónimos? Que receção crítica e de público teve a linha editorial da MMMNNNRRRG?
MF: “Art Brut” é a cunhagem do francês Jean Dubuffet, a “outsider” é cunhada pela língua inglesa. Segundo Jean-Christophe Menu, não se pode usar esses termos na BD, já não me lembro bem porquê… Mas devo discordar porque, muito na origem da editora, os artistas Janus, Mike Diana e Christopher Webster faziam sentido estarem nesta “categoria”, pois eram autodidatas, com grafismos sujos ou visionários, com uma produção que não dependia da aceitação institucional ou comercial. Quanto à receção dos livros da MNRG, há várias reações ao longo de 20 anos. Não te esqueças que há 20 anos havia resenhas críticas a BD em quase todos os jornais nacionais e regionais. Durante 10 anos, entre 2004 e 2014, não tivemos distribuição profissional; tivemos livros que, devido à sua fragilidade como objeto. só estiveram em venda direta – e não em lojas, fossem grandes ou pequenas… Por isso, houve de tudo – livros completamente ignorados e outros celebrados, livros que esgotaram, outros que ainda temos em armazém à espera do leitor certo.

NPS: Constando do catálogo da MMMNNNRRRG autores internacionalmente reconhecidos como Tommi Musturi, Olivier Schrauwen, Simon Hanselmann ou Anton Kannemeyer, entre outros, tens comparação da receção que houve das suas obras editadas em Portugal com a que tiveram noutros países?
MF: É difícil de responder, pois são situações muito diferentes. Musturi vai saindo bem, se calhar, como noutros países – exceto na Finlândia, de onde ele é original, e onde tem lá muito mais reconhecimento. Schrauwen foi ignorado pela crítica mas teve vendas excelentes junto do público, especialmente se se considerar que só vendemos os seus livros em feiras independentes, de BD ou do livro! Hanselmann, uma mega-estrela lá fora, é completamente ignorado por todos, por cá. Não se percebe… Claro que quando é descoberto pelo público é uma grande festa mas, na essência, ninguém falou do livro! Kannemeyer teve sucesso de vendas e de crítica, claro!

NPS: Quais são as principais diferenças entre a linha editorial da MMMNNNRRRG e a Associação Chili Com Carne? Antevês que esta possa vir a publicar alguns dos autores previamente editados pela MMMNNNRRRG?
MF: Lá está, se perguntas isto, porque é que será que acabamos com a MNRG? (risos). Acho que as diferenças são óbvias. A MNRG editava sobretudo estrangeiros, livros a solo, e, claro, obras muito mais audazes, sem querer achar que os “portugueses da Chili” não o sejam também… Mas, sem dúvida, que os da MNRG são obras mais radicais em conteúdo e forma. De certa forma, algumas transferências já foram feitas da MNRG para a CCC, como o “Música para Antropomorfos” do Fábio Zimbres e da banda Mechanics.

NPS: Quanto aos projetos da MMMNNNRRRG com outras instituições, como o Ar.Co. e o Cinanima, em que consistiram? Cumpriram-se os objetivos? As instituições em geral estão abertas a este tipo de projetos?
MF: Foram pequenos workshops com jovens. Correram tão bem que editamos os resultados ou em livro ou em PDF em linha. Os projetos surgiram por convite das instituições, não foi a MNRG que foi propor os projetos…

NPS: Algumas das obras editadas pela MMMNNNRRRG foram galardoadas, tiveram direito a exposições e foram editadas noutros países. Que outro reconhecimento houve do trabalho da MMMMNNNRRRG que te incentivou a continuar o este trabalho até esta altura?
MF: Essas nem foram as razões para continuar – os prémios não são importantes para nós. O que sempre mexeu foi ver trabalhos novos que “mexiam” connosco… Ver um livro novo do Tommi Musturi ou do Tiago Manuel e saber que tínhamos tido a honra de sermos nós os editores escolhidos para os lançar… Por isso sim, valia a pena ser editor! O resto são “peanuts”… Claro que ficamos também orgulhosos em receber um prémio como o da TITAN ou ter uma exposição dos “nossos” autores em espaços portugueses – festivais, galerias, centros culturais, etc…-, não querendo cuspir nos pratos que comemos, mas isso acabam muitas vezes por serem só mais estratégias comerciais do que motivações reais para fazer novos livros.

NPS: Cinco anos volvidos sobre a participação de Anton Kannemeyer na conferência da Fundação Gulbenkian, envolta em polémica, o que é pertinente ainda dizer?
MF: O mais provável seria que tudo voltaria a acontecer. Tal como a Gulbenkian não sabia que a “BD não é só para crianças”, recordo que a FNAC também não colocou o livro “Papá em África” à venda na altura – só o quis depois do escândalo e da obra ter ganho o prémio do Amadora BD… Como se continua em apostar em livros de BD com obras “light”, “pop”, infantojuvenis e/ou apenas parolas. o estigma da BD seja onde for – imprensa, mercado livreiro, etc… – vai continuar a ser o que sempre foi, um género popular para jovens e crianças, e, pior ainda, para adultos “nerds” – mesmo “mindset” de uma criança mas com muito mais guita no bolso. Haverá sempre exceções, claro, seja o “Maus” de Spiegelman ou “Goražde” de Joe Sacco ou o “Selva!!” do Filipe Abranches, mas são muito poucos os exemplos com abertura para o mundo.

NPS: Referes que os meios de comunicação social portugueses nunca deram muita atenção à MMMNNNRRRG. Acreditas ser algo resultante do pouco espaço que a BD tem atualmente nos mass media nacionais ou algo mais dirigido à linha editorial da MMMNNNRRRG? Há diferenças, por exemplo, com a atenção dada à CCC?
MF: Bom, como dizia por piada em 2018, ninguém consegue pronunciar a editora e nem críticos respeitáveis como a Sara Costa Figueiredo e o Pedro Moura conseguiam distinguir a MNRG da CCC nas suas resenhas públicas, logo… A resposta é tudo o que dizes na pergunta. 

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.