Uma análise sobre a transposição do Super-Homem para o cinema em 2013.

Man of Steel (2013) estava na calha para ser a grande adaptação do homem de aço que iria destronar o icónico filme de 1978 de Richard Donner. O filme iria começar o universo partilhado da DC Comics e lançar um franchise para competir com a Marvel, que nesta fase já estava a colher os frutos do “The Avengers.”

Com Christopher Nolan como produtor executivo, Henry Cavill como uma escolha de casting inspiradora e um tema de Hans Zimmer que rivaliza com o tema épico de John Williams, tudo estava a postos para o novo Super-Homem. Zack Snyder, um realizador com uma destreza visual única, iria decerto trazer ao grande ecrã grandes momentos de pura adrenalina e espetáculo. E nisso foi bem-sucedido.

Mas o sucesso que ele teve na ação não o teve com a personagem de Kal-El.

Como escrever um personagem com a moral do Super-Homem? Um protagonista que simboliza a verdade, justiça e o melhor da humanidade, sendo ele mesmo um imigrante do espaço? Como dar-lhe as questões dramáticas necessárias para que a história tenha um significado profundo? Acima de tudo, como podemos nós o público, nos identificar com alguém tão superpoderoso, tão puro, tão alienígena?

O filme falha na sua adaptação. No principal motor da história que quer contar. No seu personagem mais precioso. Houve um descuido dramático gigante; a questão não é quem este personagem poderá ser, mas sim o que ele representa. É confuso, não é claro, não se distingue, e numa história como esta tudo o que acontece na intriga deve ser uma consequência das escolhas do protagonista.  

Adaptar um personagem como Kal-El para uma história de origem de duas horas é trabalho complexo. Temos que saber os mecanismos que compõem um bom drama. Não há fórmulas ou uma lógica definida para fazer este trabalho. Apenas temos de ser fiéis à verdade que estamos a contar, à verdade que o personagem representa. Temos de saber articular o tema da história, que argumentos são apresentados e qual a melhor forma de os dramatizar.

Como podemos então dramatizar um arco de personagem?

Temos de apresentar necessidades e desejos sólidos e colocar essas necessidades e desejos em conflito. E mostrar as consequências emocionais desse conflito.

Por exemplo; qual é a diferença entre Kal-El e Clark Kent? Que escolhas morais podem eles confrontar ao longo do filme que estão em direto conflito um com o outro. No clímax do filme, quando Zod está prestes a matar uma família com o seu raio de calor, quem é que decide assassinar Zod? É Clark Kent ou Kal-El? Quem puxa o gatilho?

A verdadeira resposta é que não interessa. Não interessa porque não há conflito moral. Nunca vimos a moral nem de Kal-El nem de Clark Kent. É suposto nós assumirmos que eles são o bom da fita apenas porque o Super-Homem é o herói do filme?

Temos de ver ações que dramatizam esse conflito. Tanto as personalidades de Clark Kent como a de Kal-El são indistintas nos seus desejos e vontades até ao fim da história. O filme nunca perde tempo a desenvolver esse conflito interno. E é esse o grande pecado do filme. Todo o conflito moral entre o alienígena Kal-El e o terráqueo Clark Kent é inexistente. Não há crescimento de personagem nem um arco transformativo à vista. Ele é sempre a mesma pessoa ao longo do filme todo. O conflito nunca é dramatizado.

O protagonista desta adaptação não tem um arco de personagem porque nunca o vemos a ultrapassar as questões que o atormentam no início do filme. Não há catarse emocional porque Kal-El mantém o mesmo desespero existencial do início ao fim da história.

Porque é que o Super-Homem quer salvar a humanidade? Porque é a humanidade importante para Clark Kent? É só porque tem pais adotivos terrestres? Nunca vemos as respostas a estas perguntas a serem dramatizadas de forma satisfatória. A humanidade é para o protagonista deste filme algo abstrato. Nunca percebemos as motivações que levam Kal-El a preocupar-se com a humanidade ou com a sua família. Vemos como ele reage a ameaças iminentes, mas isso é reacionário. Não é dramático. Nunca experimentamos de facto as motivações do personagem que nos levam a identificar com a sua viagem pessoal. Nunca vemos Kal-El ou Clark Kent realmente a decidir ser o Homem de Aço.

Não é a capa que faz deste herói uma inspiração para todos.

Mas um personagem não tem de ter um arco narrativo em todas as histórias, certo? Certo. Isso por si só não é uma falha. A falha está na execução dessa técnica narrativa.

Arcos de personagem são as mudanças que um personagem atravessa ao longo de uma história. Essas mudanças transformam-no, são a resolução do seu conflito interno, o conflito entre o que o personagem quer e o que ele precisa. Kal-El quer pertencer ao mundo que o adotou, mas o que ele precisa é perceber o seu papel nesse mundo. Que sacrifícios ele está disposto a fazer para pertencer a esse mundo?

Contudo, no final de “Man of Steel” nenhuma destas questões dramáticas são respondidas. Ele aceita o uniforme de Super-Homem como homenagem à sua cultura de origem, ele defende Metrópolis como uma reação natural ao ataque de Zod, não como uma escolha pessoal. Ele reage, não escolhe o seu caminho. É um personagem passivo.

Que arco narrativo podia ter contado melhor esta história?

 Há três formas para criar um arco de personagem.

O arco positivo, onde o personagem começa com um “fantasma” na sua vida, uma mentira que acredita sobre ele mesmo e que os impede de viver o seu potencial. É o arco onde os personagens têm de mudar e alterar os aspetos mais negativos da sua vida e tornarem-se na melhor versão deles mesmo. The Mask (1994) é um bom exemplo.

O arco negativo é quando um personagem começa com um código moral inabalável e que ao longo da história vai sendo seduzido para o “lado negro da força.” Este tipo de arco mostra a futilidade de lutar contra um mundo que enaltece a injustiça, onde os fortes governarem os fracos. E o nosso herói desce cada vez mais neste abismo até se tornar naquilo que sempre criticou e demonizou. The Godfather (1972) é uma obra magistral que retrata este arco.

O terceiro tipo de arco de personagem é o tipo de arco que poderia ter resolvido todos os problemas do “Man of Steel” ao adaptar um personagem tão desafiante como Kal-El / Clark Kent.

O que é o arco de personagem neutro?

É quando um personagem não muda ao longo da história. O personagem tem uma visão do mundo única e imutável. O protagonista está preso a uma sociedade que não o compreende, que talvez o receie ou que o queira aniquilar. Então não é o protagonista que tem que mudar, mas sim os personagens que habitam esse mundo. Porque o mundo vai fazer de tudo para que o protagonista acredite no “fantasma,” que aceite a mentira e que aceite o que não é capaz de mudar. Aqui pode haver dúvida no nosso protagonista, mas é um momento, um instante, porque quando chega a altura de decidir entre o bem e o mal, o personagem mantêm-se fiel ao que acredita.

Então quem muda no final da história para que ela tenha o seu peso temático, o seu significado? Os personagens secundários. Um protagonista com uma integridade moral superior vai influenciar qualquer personagem que entre em contacto com ele. Não estamos a falar da força oposta ao nosso herói – o mau da fita – mas sim os personagens que orbitam à volta do protagonista. 

Os personagens secundários numa história de arco neutro são quem têm o tão desejado arco de personagem. São eles que mudam a sua visão do mundo, que crescem, que tomam decisões que os fazem transformar na melhor versão deles mesmos. Porque o protagonista já tem essa perceção desde o inicio da história.

Ele é a força narrativa que influencia os outros nas suas transformações. Uma das razões para adorarmos este tipo de histórias são os personagens. Eles lembram-nos que também podemos mudar. Que também podemos crescer e ser melhores do que somos.

Podemos ser mais fortes, sobreviver a qualquer tempestade.

São histórias de heróis que nos inspiram, que nos fazem acreditar no poder transformativo das nossas decisões. O poder de mudar o mundo à nossa volta sem sacrificar a nossa moral, a nossa essência.

Estas histórias dão-nos esperança, também podemos ser um herói, mesmo não usando capa.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Soler
Nuno Soler
Colecionador de BD e bandas sonoras, autor de vários manuscritos de gaveta, perpétuo estudante de Cinema. Guionista de vocação, Copywriter de profissão, Ginasta de comunicação.