Ou de como a banda desenhada nos pode ajudar a ver pelos olhos alheios…

O que têm em comum Edgar Rice Burroughs, Ethan Hawke, Stephen Melvil Barrett e Jim Kjelgaard? E Greg Ruth, Jean Giraud e Charles Banks Wilson?

A escrever, uns, outros desenhando?

Geronimo, o resistente apache (entre, provavelmente, outras coisas).

Vou introduzir aqui um fotógrafo, ou antes, uma fotografia de 1887 (do famoso apache, claro) por um quase desconhecido, A. Frank Randall, onde o guerreiro ameríndio – ladrão, renegado, assassino e mentiroso, para uns; justiceiro, temerário, visionário e espoliado, para outros – trajava a indumentária tradicional apache, empunhando, de mãos crispadas, uma velha espingarda de um cano amarrado ao fuste, com uma coronha pescoço de cisne, o que indicia a origem europeia (espanhola, provavelmente) e o seu mais que provável furto a um fazendeiro ou a um caçador de peles.

Mas é o olhar, intenso, que inquieta.

Iremos regressar a esse olhar e ao impacto que terá na composição do personagem e na respectiva análise das tramas.

Dissertando sobre Geronimo e duas obras maiores de banda desenhada: Indeh (G. Floy, 2019) e Gerónimo, o Apache (ASA, 2020), esta última o terceiro dos cinco álbuns da saga Mister Blueberry (ou “OK Corral”), o primeiro ciclo de Giraud como único autor na série, reatada após a morte do argumentista e coautor Charlier, presente até ao vigésimo terceiro tomo do projecto.

Quanto a Indeh, é sabido que Ethan Hawke desde cedo idealizara a produção cinematográfica da história das Guerras Apaches, do ponto de vista do povo invadido, da cultura e das tradições esfrangalhadas.

Derivou, por obstáculos diversos, para a arte sequencial. Ainda bem que o fez.  

O resultado é uma banda desenhada pujante que, não obstante o avisado carácter ficcional, percorre alguns dos episódios históricos mais marcantes deste folhetim da tão propalada trafulhice ocidental, na ânsia de mais terras, mais ouro… e de mais poder.

Foi a partir da visão naturalista das gentes autóctones, da singularidade da sua relação com o destino e da permanente simbiose com a tragédia anunciada, que Ethan gizou a história, com coerência e engenho; terá faltado, talvez, um pouco do tempero do carácter apache, nomeadamente da tribo chiricahua.

Que não era, de facto, um povo que se dedicasse nem, afincadamente, à agricultura, nem à pastorícia: eram hábeis caçadores e implacáveis guerreiros – ferozes, quase sempre. A prática, banal, da pilhagem não lhes granjeou a melhor das famas, enquanto vizinhos. Mais do que respeitada, era uma população temida e até, nalguns casos, odiada. Talvez por isso, fosse um povo altivo que desprezava, muito, algumas das tribos e raças circundantes, escarnecendo das suas crenças e práticas, nomeadamente – e sobretudo! – os mexicanos.

Às hábeis pinceladas (uma observação atenta indicia a utilização de marcadores e, nas camadas mais esbatidas, talvez de carvão) de Greg Ruth ficaram a faltar, na minha opinião, alguns rasgos da lendária crueldade de Goyaalé, o líder militar, religioso e curandeiro que seria rebaptizado Geronimo, pelas suas vítimas.

Interessante, a semelhança entre a personagem criada pelo ilustrador e Chuck Connors, o actor que incorpora o líder apache em “Geronimo”, filme de 1962… Haverá ali a “cunha” do cinéfilo escriba deste magnífico romance gráfico?

As incursões do cinema, da literatura e da banda desenhada no universo apache e, em particular, do belicoso Geronimo (insisto neste formato em vez de Jerónimo, ou Gerónimo, apenas por ser assim que ao próprio foi ensinado a garatujar o nome) são inúmeras, ao ponto de, até no mundo Disney, ele personificar um dos personagens numa aventura de Angus McDuck (Patico MacPatinhas), da série Tio Patinhas … Não é por acaso que nomes como Cochise, Mangas Coloradas, Victorio e Geronimo povoam inúmeras revistas de banda desenhada, novelas e romances ao longo de décadas, a par com a imaginação dos seus leitores.

Viajando dos EUA para a velha Europa, analisemos um dos maiores frescos do universo western através do traço e do guião de Jean Giraud, numa fase de grande fluidez criativa: a série do, agora, ex-tenente – e novo rico! – assenta, em parte, nas memórias do próprio, a propósito da redacção da sua biografia.

Para além da arte, poderosa, o argumento é sustentado por uma trama complexa, uma rede de relações e personagens coerentes, no carácter e na respectiva personificação; também os constantes regressos ao passado e a conjugação dos diferentes cenários é feita de maneira escorreita, essencial para a fluidez narrativa, tão espinhosa aquando dos vaivéns espaço-temporais.

Também para (este) Blueberry a sétima arte pisca o olho, por força da sua semelhança com Jean-Paul Belmond, representativa, também, do divórcio de Giraud com o estilo gráfico inicial do ciclo, onde é clara a influência de Jijé.

Aqui, arriscaria que estamos perante um trabalho de equipa: Gir e Moebius, no desenho, numa aproximação dos estilos do mestre, e destes com Florence Breton, na cor (nos dois últimos álbuns da série o cromatismo é assegurado pelas artistas Claire Champeval, em OK Corral – em parceria com Giraud – e, em Dust, por Scarlett Smulkowsky).

Como nota, existe, editada pela Dargaud, a versão a preto e branco das aventuras do ex-militar e desertor, bebedolas e arruaceiro, amante de mulheres fáceis e de charutos, onde se pode observar o experiente e possante traço que lhe dá vida, sem filtros.

Ao longo do relato, Geronimo e os seus bravos são vitimizados por um bando de pérfidos caras pálidas que – mascarados de apaches – pilham e assassinam, a soldo de um personagem, aparentemente, inatacável, fazendo os índios parecerem responsáveis – situação que, realmente acontecia, a partir da acção de bandos de renegados índigenas.

Nesta epopeia, o líder apache é retratado com menos romantismo, física e psicologicamente, existindo, até, uma clara similaridade física entre a personagem e as memórias que nos chegaram, nos inúmeros registos fotográficos do emblemático nativo, que acabou os seus dias – como tantos outros indígenas famosos – numa clara antecipação do último quartil do século vinte, como uma espécie de vedeta pop, só que empobrecida, escarnecida e humilhada.

Semelhança aquela que é retratada, com mestria, na sequência da detenção de Blueberry que, após mais uma briga, é atirado para o calabouço, para junto dos prisioneiros apaches; o rosto cruel de Geronimo, como desenho central de uma tira é, a par do da ilustração da capa do terceiro livro da saga, impiedoso e inquietante.

E é ali, tal como em algumas das sequências de Indeh, que impera o silêncio tenso que caracteriza a, apenas, aparente resignação dos apaches: como qualquer predador, espera pelo momento certo para agir.

Ainda quanto às parecenças entre as duas obras, também em “Mister Blueberry” a realidade funde-se com a ficção, ou a acção não ocorra em Tombstone, na altura do sangrento episódio de OK Corral…

São duas obras imperdíveis para quem gosta da cultura ameríndia, no geral, e de Geronimo, no particular, e essenciais na biblioteca do amante de banda desenhada.

Para além de que, no caso de Blueberry, estamos perante uma coboiada a valer, com todos os ingredientes: índios, cowboys, cavalaria, saloons, batoteiros, xerifes, lendas do Oeste, paixonetas, pancadaria, traição, altruísmo… Enfim, aventuras e desventuras várias, com, claro, a habitual piscadela de olho a eventuais sequelas. 

Regressemos à foto, inicialmente referida, e aos olhos que nos fitam.

Imaginemos, também, que vivemos, isolados, na zona onde o grupo comandado por aquele homem se refugia e onde, para sobreviver, assalta e assassina, tortura e rapina. E que, numa seca manhã de verão, quando regressamos do poço, carregando um balde com água, apercebemo-nos dum ténue restolhar antes de depararmos com aquele mesmo olhar e nos vermos cercados por uma dúzia de guerreiros apaches.

Imaginemos…

Os apaches são os tigres da espécie humana.

– George Crook, general do exército dos EUA

SOBRE O AUTOR |

Carlos Lopes
Carlos Lopes
Não obstante a ligação profissional com o virtual, é no cheiro da tinta e no desfolhar das folhas de um livro que se preenchem dos melhores momentos. Entre rabiscar e escrevinhar, os projetos passam pela crítica – mordaz, muitas vezes – e pela representação da tragicomédia da vida e os seus acasos, coincidências até.