Alias, a primeira série da linha MAX.

Lançada em 2001, a linha MAX era uma iniciativa da Marvel que se especializava em produzir conteúdo para público adulto. Como os fãs certamente saberão, desde o início da Marvel que as suas bandas desenhadas sempre foram censuradas, evitando conteúdo explícito e sugerindo uma leitura dirigida a, praticamente, qualquer idade. Em 2001, depois de uma tentativa anterior nos anos 80 e 90, com a linha Epic Comics, a Marvel consegue finalmente estabelecer uma linha para um público mais maduro, ano em que abandona definitivamente o envio das suas publicações para a aprovação do Comics Code Authority (CCA) e inicia o seu próprio sistema de classificação etária para as suas revistas.

Hoje falo da primeira série originalmente produzida para a linha MAX, portanto em 2001, Alias (rebatizada em 2015 com o título Jessica Jones: Alias). Em 2015, chega-nos, produzida pela Netflix, a série televisiva influenciada pela obra de banda desenhada. E é somente em 2016 que chega a Portugal, editado pela G. Floy, o primeiro volume da BD, escrita por Brian Michael Bendis e ilustrada por Michael Gaydos.

Se chegou já tarde? Bem, deve haver quem pense dessa forma, mas a verdade é que Jessica Jones não foi sempre um personagem muito popular e a aposta na edição em 2001 podia bem ter sido um fiasco de vendas em Portugal. 2016 foi um ano bem mais propenso ao lançamento de Alias, com o enorme sucesso que a série televisiva ganhou e uma nova popularidade atribuída à personagem. Eu fiquei fã.

Neste artigo não viso comparar a série televisiva à BD, mas aproveito para deixar o meu breve comentário quanto à primeira. As séries da Netflix que adaptaram personagens Marvel (atualmente canceladas) tiveram produções fantásticas. É discutível quanto à questão de fidelidade que tiveram para com os livros em que se basearam, mas é inegável que foram muito bem produzidas e essa foi uma das razões que me suscitou interesse em conhecer o livro, como certamente terá acontecido a muitos outros leitores.

Desde que vi a obra à venda nas lojas que estava curioso por conhecer, mas, entretanto, foram sempre surgindo outros livros que coloquei à frente e sobrou-me agora a melhor oportunidade para ler Alias. O que achei?

A censura na Marvel sempre foi, na minha opinião, um entrave. Claro que é compreensível que a maior editora de BD no mundo tenha de ter medidas e restrições para alcançar um público mais vasto, mas para mim, qualquer tipo de censura em qualquer área é sempre um entrave à criatividade. Não digo com isto que a Marvel não tenha construído um universo brilhante ao longo dos anos e que as histórias não sejam interessantes, só sinto que podiam ter muito a ganhar se essa restrição não existisse.

Foi isso que senti durante a leitura de Alias. Jessica Jones é uma personagem que não pode ser censurada, ou pelo menos não deve. Como Jessica Jones podíamos nomear uma quantidade enorme de personagens Marvel que precisavam desta linha MAX. Como seria possível termos sempre um Deadpool censurado, ou um Punisher (Justiceiro)?

Neste livro, Bendis encontrou as portas abertas para criar e dar a Jessica Jones o carisma que a personagem sempre quis ter. Não estou a falar de uma personagem completamente desmedida e irracional, ou de uma personagem hostil e com má-língua. Não, falo de uma personagem “realista”, uma personagem que deixou de levar a sério as licras e as capas e se decidiu dedicar ao mundo “normal”.

Na minha opinião, o ambiente de Manhattan neste primeiro volume está muito convincente. Deixa-me até uma certa vontade de visitar a cidade de Nova Iorque e descobrir se é realmente assim que tudo se passa por lá.

Bendis tem sido um dos meus escritores favoritos na Marvel e o universo Ultimate de Homem-Aranha foi uma alternativa por si criada, completamente excecional, atrevo-me até a dizer que preferi a alternativa ao clássico em alguns aspetos, algumas vezes. O que fez com Jessica Jones fosse, em parte, semelhante. Bendis imaginou uma personagem que deixou de ser a típica heroína de capa e licras e passou a ser um comum civil, com os seus problemas, o seu emprego e, claro, com as ligações ao mundo dos heróis, que parece continuar a perseguir.

A arte de Gaydos marca também esta diferença na maturidade da linha MAX. O traço procura transmitir o lado mais realista da série, algo a que a Marvel não nos tinha habituado até então.

Uma das únicas coisas que denoto é a falta de expressividade nos rostos dos personagens em certas vinhetas onde esperava ver mais impacto. Embora seja uma clara técnica usada com esse propósito na maior parte das vezes, fiquei a sentir que algumas das vinhetas ficavam aquém.

Excetuando esse detalhe, não há nada que deva acrescentar. O primeiro volume de Alias deixou-me com vontade de ler mais e, apesar do desfecho não ter sido deixado em suspenso, Jessica Jones ganhou aqui um carisma especial e diferente que me faz querer continuar a ler.

Este primeiro volume é bastante generoso quanto ao número de páginas, compilando os primeiros nove números da série.

Uma excelente entrada a abrir a linha MAX, se mo é permitido afirmar. Fica a minha sugestão para os leitores mais descrentes das regulares e típicas séries da Marvel – esta é uma boa alternativa a quem procura BD mais séria ou mais madura.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…