Uma retrospetiva ao clássico de Moore.

Ao começar a redigir uma recensão crítica de Watchmen, não me consigo conter do enorme sentimento de que, além de um grande desafio, esta é uma enorme responsabilidade. A mesma responsabilidade que senti quando tinha o livro nas mãos e o abri para ler pela primeira vez. Pode parecer um tanto exagerado, mas não tenho dúvidas de que os fãs e leitores da obra concordarão, ou pelo menos entenderão, a que me refiro.

Considerada por muitos a maior obra de banda desenhada de todos os tempos ou o pináculo da carreira literária de Alan Moore, a série Watchmen, que contou com 12 números (ou capítulos), foi originalmente publicada pela DC Comics, entre 1986 e 1987. Precisámos de esperar 30 anos, até 2016, para ter a obra editada em versão portuguesa. Foi a Levoir que tratou da edição em julho desse ano.

Bem sei que venho tardiamente falar sobre esta obra, mas, ainda que 34 anos depois da publicação original, nunca é tarde para ler Watchmen ou qualquer livro de banda desenhada. Apesar do universo aqui criado por Moore se inserir, principalmente, no ano de 1985 (embora faça várias vezes retornos ao passado, desde os anos 40, para justificar acontecimentos e histórias presentes), a premissa pode bem ser interpretada ainda nos dias de hoje. Claro que a situação política e social atual não se revê naquela que tínhamos em 1985 nos EUA, mas é garantido que, embora a visão e interpretação sejam certamente diferentes para os leitores mais jovens, a leitura não é menos interessante.

Como disse acima, Alan Moore e, principalmente a obra em questão, são sempre de uma difícil abordagem. Ora, haverá sempre leitores que não concordarão com a minha visão sobre a mesma e por isso sublinho que esta se trata da resenha pessoal de um jovem de 24 anos quanto a Watchmen, lido pela primeiríssima vez, 34 anos após a sua original publicação.

Dou então início à crítica à obra com uma noção que considero, desde já, essencial para qualquer leitor deste artigo ou da mesma: declarar esta ou qualquer outra obra literária como perfeita é uma falácia perigosa. Sim, Alan Moore é sem dúvida um dos melhores argumentistas que encontraremos no meio, mas tenha-se em questão o significado e conotação da palavra perfeição e que não se deixe turvar pelo “fanatismo” a visão de um leitor.

Watchmen foi e continua a ser uma das mais premiadas obras, possivelmente a que mais influenciou o meio nos anos após o seu surgimento e que continua a ser tida como “o indispensável livro de banda desenhada para o argumentista moderno”.

Qual a premissa da obra? Pergunta de difícil resposta. Moore (e perdoem-me por referir o argumentista quase exclusivamente à frente do desenhador) terá criado A banda desenhada que moldou a visão literária do género, não só nos EUA, mas no mundo. A obra começa por apresentar-nos um misterioso assassinato no estilo pulp, mas o seu desenvolvimento dirige o leitor por tantos outros caminhos, que não seria muito distante da realidade afirmar que nunca ninguém entenderá todos os tópicos e segredos camuflados no enredo.

Embora seja reconhecido como um dos argumentos mais complexos e elaborados da banda desenhada, a história não parece difícil de acompanhar. Mais difícil poderá ser ver além do que está explícito em primeira instância.

Por essa, e outras razões que serão referidas mais abaixo, Watchmen é um livro de banda desenhada que não será para qualquer possível leitor, mas isso nem a própria banda desenhada o é, certo?

Cada um dos doze capítulos desta série é extenso e por vezes pesado, no sentido em que a leitura deve ser bem refletiva. Trinta e duas páginas, das quais quatro são redigidas em prosa (recortes de artigos, páginas de livros ou entrevistas aos personagens, todos criados pelo próprio autor). Não diria que estas quatro páginas extra sejam essenciais à leitura, pelo menos para quem aprecia pouco a leitura de prosa, mas são trechos que complementam as vinte e oito páginas anteriores, com uma ou outra revelação completamente satisfatória.

Ler este livro, para mim, tornou-se quase um ritual durante coisa de duas semanas. Sentar, abrir na página marcada e começar a ler com tanta calma e tranquilidade quanta possível.

Confesso que comecei o livro com a ideia simples de que tinha de o ler, tinha de saber a razão de tanta conversa e apreciação, o que era este Watchmen de Alan Moore de que toda a gente falava, como a obra obrigatória a qualquer leitor interessado em ler? E tinha de conhecer a obra que mais influenciara os atuais argumentistas a escreverem os seus livros. No final, havia aquele saudável sentimento de nostalgia, aquele afago no peito. Não a sensação de missão completa, mas sim, como se sempre tivesse tido um cantinho onde guardar a memória daquele livro, que na verdade tinha começado a ler há poucos dias.

Mas Watchmen não foi sempre uma leitura fácil. Não foi tudo perfeito e não foi tudo tão interessante quanto ouvia dizer. Julguem-me e digam que sou do contra, mas Watchmen foi um livro de debate interior e de debate com o próprio papel, o físico. Claro que abordei este como um livro dos anos 80 e, portanto, com tudo o que isso albergava.

Sim, o livro tirou-me um bocado o ar com a sua ausência de originalidade na estrutura (não me ataquem). Com isto quero dizer que Alan Moore é um autor que sabia obviamente o que fazia, mas era também um autor bastante técnico. As páginas estruturadas simetricamente são, praticamente, uma regra e os balões de fala não têm quase folga em qualquer nova vinheta. Não digo isto por ser um leitor preguiçoso e com falta de vontade de ler, digo isto como um leitor que espera de uma banda desenhada uma fusão entre imagem e texto que seja harmoniosa, sem que a sobrecarga do texto a torne desconfortável ou aborrecida. A sensação com que fico é que grande parte deste livro foi pensado em formato prosa e essa poderá ser uma explicação para o seu enorme sucesso literário, que conferiu à banda desenhada uma nova reputação nesse meio.

Estas não são críticas negativistas e, tentando calçar o sapato de todo o leitor de banda desenhada, vejo aqui como poderá este ser um ponto menos positivo à sua vontade de ler Watchmen do início ao fim.

Quanto a Dave Gibbons, o autor encarregue pela ilustração do livro, este executou, sem margem de dúvida, um trabalho à altura do mestre Moore e do argumento que lhe foi apresentado. O estilo da sua arte não foge muito ao que vemos na época em que se insere, mas demonstra precisão e está praticamente sem falhas. Até na cor, cujo trabalho é atribuído a John Higgins, com a simples cor de uma só tonalidade, típica também da época, não encontrei quaisquer falhas de que me recorde, o que ajuda bastante à conceção da “perfeição” falaciosa desta obra.

Sobre esta maravilhosa obra haveria muito mais sobre o que falar, desde a minuciosidade política ao próprio desenvolvimento muito bem-sucedido dos personagens; desde as referências a outros meios de cultura da época às questões morais e éticas levantadas no final, poderíamos perder-nos durante horas a debater e analisar este Watchmen. Porém, foram estes os pontos que quis focar, que achei mais pertinentes e, embora não menos importantes, talvez os mais instintivos para mim.

Por conclusão limito-me a acrescentar que Watchmen não morreu no ano seguinte ao seu lançamento. Watchmen continua a ser uma das bandas desenhadas que mais vende nos dias de hoje, com novas edições regulares em várias línguas, novas adaptações ao pequeno e ao grande ecrã, com fãs fiéis à obra, mantendo-a no lugar que merece ocupar. Por entre conversas, é uma obra que sempre será referida pelos fãs de banda desenhada e, mais impressionantemente, até por alguns leitores que não sejam fãs do género. O legado de Moore ficou ditado nesta obra e a banda desenhada nunca mais foi a mesma.

Watchmen foi, (34 anos depois) continua a ser e não duvido que será…

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…