Pela 4.ª vez distribuído em Portugal, Batman: Asilo Arkham.

A Levoir – Maketing e Conteúdos Multimédia, S.A. foi fundada em 2009 como uma empresa especializada na criação de conteúdos “à la carte” para os media, constando do seu portefólio projetos de literatura, música, cinema e conteúdos digitais. Sendo uma característica deste tipo de empresa a exploração de licenças mundialmente reconhecidas que permitam um retorno rápido de investimento, explorando os mais diversos segmentos, iniciou-se na publicação de banda desenhada em 2012 com uma série dedicada à Marvel.

Mundialmente, uma das principais características das séries distribuídas com os periódicos é que sejam populares. Com tal, referimo-nos não somente ao reconhecimento da marca e/ou produto entre os consumidores, mas principalmente a ser um produto económico, em que o preço seja um atrativo para aqueles. São, desta forma, um modo de serem reeditadas obras nos diferentes países a preços mais convidativos que os praticados por produtos idênticos ou similares nas livrarias, onde se praticam os menores preços expectáveis da comercialização em pontos de venda de periódicos, conseguidos através de negociações para a publicação de um conjunto de obras – ao invés de uma única – e onde se dispensam acabamentos de luxo e se aposta em soluções menos onerosas quanto à qualidade de papel, dimensões, encadernação, impressão, tradução e/ou revisão.

Perante um historial nacional de um mercado anémico na edição de banda desenhada em geral e provindo dos EUA em particular, as séries editadas pela Levoir distribuídas com os periódicos conheceram uma particularidade no nosso país. Por um lado, muito do material era inédito em Portugal – apesar da maioria ter sido distribuída nos pontos de venda de periódicos nacionais através da importação de revistas brasileiras, o que significava que tinha sido já adquirido por milhares de leitores. Por outro lado, a maioria do material tinha sido publicado ou seriado em revistas ou compilado em publicações em capa mole, pelo que as séries da Levoir apresentavam algumas características a nível de papel, encadernação e/ou impressão superiores aos produtos anteriores que tinham circulado em Portugal.

Nesse sentido, as séries dedicadas à Marvel ou à DC distribuídas com os periódicos, ao contrário do que é mundialmente expectável, apresentavam no nosso país, na sua maioria, um upgrade ao material previamente editado ou distribuído em Portugal, tendo também a particularidade de as apresentar pela primeira vez, na sua maioria, em português europeu.

A acrescentar a tal facto, se é verdade que muito material editado nessas coleções não constará sequer do rodapé da História da Banda Desenhada, um número considerável de obras foram edições de bandas desenhadas que já há muito tempo deveriam ter tido um lugar na edição nacional de BD, não só pela sua qualidade intrínseca mas também pela sua importância histórica.

Esta importante questão veio a ser alargada quando a editora iniciou a primeira de várias séries intituladas Novela Gráfica, com bandas desenhadas originalmente publicadas em diferentes pontos do globo. Infelizmente, tal contribuiu para a generalização do termo “novela gráfica”, desnecessário, etimologicamente errado, sem um verdadeiro significado e com o sentido arbitrário que cada campanha de marketing – que o adora – lhe deseja atribuir. No entanto, se é verdade que em conjunto com obras menores, várias obras fundamentais na História da BD foram finalmente editadas em Portugal e mais uma vez algo que seria a versão económica dos produtos encontrados nas livrarias se transformou, ao invés, no único produto disponível – e pela primeira vez – no nosso país.

Com o encerramento da Goody, a Levoir passou a ser a empresa que mais edita banda desenhada no nosso país, apenas competindo em número com a G. Floy. Este facto, bem como, desde 2017, ter em exclusivo a licença de edição de BD da DC Comics – apesar dos protestos dos leitores de se focar demasiado no universo de Batman, a que a editora contra-argumenta que é praticamente o único que vende no nosso país – geraram um contexto em que a jovem empresa de produtos “à la carte” para jornais se tornasse uma das principais editoras de BD nacionais (senão, a principal), no que toca ao número de obras editadas. Não só isso, como quase todo o material editado é inédito no nosso país.

Apesar da empresa procurar continuar a disponibilizar séries de produtos populares (que vai conseguindo com um ligeiro aumento de preço dos volumes e diminuição do número de páginas e da qualidade do papel dos mesmos), a verdade é que a qualidade física dos seus produtos não difere muito das restantes editoras que operam no canal livreiro mas seguem linhas semelhantes. Este facto, em conjunto com os anteriormente explanados, faz olvidar um pouco o quão diferente é o perfil desta empresa das restantes editoras.

É um facto que existem outros sinais para além dos preços praticados e a qualidade do papel ou impressão, sendo o mais característico a atrocidade que comete quando edita séries compostas por 3 revistas de BD norte-americanas em 2 livros (criando pontos de corte entre os livros previamente inexistentes e desrespeitando assim os autores e leitores) – algo que, após o anúncio da Levoir quanto à próxima série Novela Gráfica, se espera que não continue a fazer, desta vez ao publicar em 2 livros os primeiros 3 tomos (de um total de 6, até ao momento) da série franco-belga O Expresso do Amanhã / Le Transperceneige, da autoria de Lob, Rochette, e Legrand, pois atendendo ao menor número de páginas dos volumes 2 e 3 em relação ao volume 1 é perfeitamente possível reunir aqueles dois álbuns num único volume, evitando-se a criação de cortes artificias à narrativa. Ou que artigos originalmente publicados nos EUA em edições especiais sejam divididos pela Levoir em diferentes livros, sem sentido de corte e somente consoante o espaço disponível, como fez com Watchmen. Todos estes sinais de desrespeito são mais próprios de revistas de pequeno valor distribuídas em bancas, às quais os leitores estavam habituados a perdoar estes erros no passado, do que os livros provenientes de uma editora com um perfil de trabalho sério quanto à banda desenhada.

Dado não ser uma empresa propriamente vocacionada para a banda desenhada, poder-se-ia equacionar que tal poderia também causar problemas na seleção das obras que edita, mas não nos parece que tal seja uma questão quando se compara com as restantes editoras nacionais.

Recentemente, a editora tem tentado capitalizar o seu trabalho com reedições de obras previamente publicadas por si. Poder-se-ia pensar que após uma edição de Wachmen de Alan Moore e Dave Gibbons dirigida às livrarias, a edição sob a forma de 4 livros distribuídos em bancas, seria a tal versão económica, habitual deste tipo de projetos. No entanto, se seria expectável que houvesse uma redução de preço (devido à maior tiragem, distribuição conjunta com o Público e/ou a tradução, legendagem, revisão e algumas das tarefas de pré-impressão já terem sido pagas aquando da primeira edição), o valor que a edição conheceu em livro único no canal livreiro 3 anos e meio antes (39,90€) foi sobreponível ao preço da obra dirigida às bancas, dividida por 4 volumes (39,60€).

O surgimento da DC Black Label nos EUA, originalmente concebida enquanto uma chancela editorial da DC com material original e reedição de material previamente editado pela própria DC Comics ou outra das suas chancelas, destinado a um público mais maduro, foi o mote perfeito para que a Levoir passasse a reeditar material que tinha sido publicado no nosso país há 5 anos.

A republicação de Joker (publicado inicialmente na série Super-Heróis DC Comics em 2014, com o Público), de Batman: O Regresso do Cavaleiro das Trevas (publicado pela primeira vez na série Batman: 75 Anos em 2015, com o semanário SOL) e Batman: Ano Um (idem) permitiram, de acordo com a editora, que estas obras tornassem a estar disponíveis ao público, visto que, ao fim de 5 anos, entre o período de vendas exclusivo dos pontos de venda de periódicos e plataformas online da editoras e periódicos e a consequente distribuição no canal livreiro e posteriores promoções ao longo dos anos, as mesmas se encontravam esgotadas.

Com este procedimento, a editora encerra o ciclo, fazendo o percurso inverso do habitual neste tipo de projeto. Ao invés de disponibilizar versões económicas nas bancas de produtos pré-existentes nas livrarias, assume os dois papeis, disponibilizando primeiro os produtos económicos nos pontos de venda de periódicos e alguns anos depois produtos mais dispendiosos nas livrarias (com distribuição concomitante nas bancas também).

Deste modo, num espaço de 5 anos, a 2.ª edição de Joker apresenta um preço de 19,90€ (ao invés da edição anterior, a 8,90€), O Regresso do Cavaleiro das Trevas um preço de 25,90€ (ao invés de 17,80€ pelo conjunto dos 2 volumes anteriores) e Batman: Ano Um um preço de 19,90€ (ao invés de 8,90€ na edição anterior).

Com a reedição de Batman: Asilo Arkham (mais um volume publicado pela primeira vez na série Batman: 75 Anos em 2015, com o semanário SOL, ao preço de 8,90€), o novo preço é de 22,90€. Registe-se que, desta vez, esta nova edição tem 33 páginas de extras (a Levoir refere a existência de um prefácio da editora Karen Berger, desenhos e esboços).

Quanto à BD em si, foi em 1989 que Asilo Arkham foi editado nos EUA, uma banda desenhada da autoria de Grant Morrison e Dave McKean, prontamente aclamada pelo público e crítica especializada. Esta obra pôde ser lida pela primeira vez em língua portuguesa em dezembro de 1990, mês em que a brasileira editora Abril lançou a obra naquele país. A obra viria a ser lançada no nosso país em português europeu pela Devir em 2005. Foi reeditada pela Levoir no 4.º volume da coleção dedicada aos 75 Anos de Batman, distribuída com o jornal SOL, em 2015. Esta é a sua 3.ª edição nacional, a segunda realizada pela Levoir.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Os reclusos do Asilo Arkham tomaram controlo do centro de detenção dos loucos criminosos, e exigem a presença do Batman em troca da libertação dos seus reféns. O Cavaleiro das Trevas terá de aceitar o seu desafio demente, e enfrentar os infernos pessoais do Joker, Espantalho, Duas-Caras, Hera Venenosa, e muitos outros dos seus piores inimigos, para conseguir salvar os inocentes e reconquistar a prisão. Um mergulho para as trevas que obrigará o Batman a confrontar os seus próprios demónios interiores e nos permitirá responder à pergunta… será que o Batman pertence ao Asilo Arkham?

Batman: Asilo Arkham
Grant Morrison, Dave McKean
Editora: Levoir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 17 x 27,5 cm
ISBN: 9789896828400
PVP: 22,90€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.