Coleccionar BD na primeira pessoa.

O meu contacto com a prática do coleccionismo deu-se em tenra idade, com o incentivo dos meus pais. Durante a infância, iniciei os mais diversos tipos de colecções – entre os objectos mais usuais, encontravam-se calendários de bolso, selos e postais, para além das autolimitadas cadernetas de cromos.

Paralelamente – e ainda sem me aperceber que poderia vir a ser considerada uma colecção – a minha biblioteca pessoal crescia continuamente, repleta de obras de ficção e não-ficção dirigidas a crianças e jovens, fosse em prosa, poesia ou banda desenhada (BD).

Apesar de já contar na altura com centenas de revistas e álbuns de banda desenhada, a primeira memória que tenho da minha família associar os termos “colecção” e “banda desenhada” remonta aos meus 8 anos de idade. Tal deu-se com o início da publicação das revistas Mickey e Almanaque do Patinhas no nosso país pela Editora Morumbi, a sucursal portuguesa da brasileira Editora Abril. A oportunidade de iniciar a série de revistas de BD desde o primeiro número foram o mote para os meus pais me garantirem não falhar nenhum número a partir de então, o que não acontecia com os salteados números de revistas brasileiras que possuía.

Se analisar a constituição da minha bedeteca pessoal, essas não foram as primeiras revistas de BD adquiridas desde o primeiro número nos pontos de venda de periódicos. Por exemplo, aos 4 anos, eram comprados religiosamente os números das Revista Heidi da Liber e aos 5 anos os números da Crac! da Visão Editora. Mas ou eu era muito pequeno para associar a palavra colecção com tais revistas de BD ou deixei-me seduzir pela grande oportunidade que era iniciar uma colecção de séries de BD Disney desde o 1.º número, perante a ideia de que durariam muitas décadas.

Com a adolescência, quase todas as colecções que realizava na infância foram sendo suspensas. Julgo que a única nova colecção que iniciei nesse período foi a de latas de bebidas. A minha bibliofilia especializava-se cada vez mais em autores que me interessavam, convivendo saudavelmente com o crescimento paralelo da bedeteca. As revistas brasileiras e portuguesas infantis tinham dado lugar às revistas brasileiras juvenis com histórias de super-heróis da Marvel e DC, continuando os álbuns de banda desenhada editados em Portugal a ser omnipresentes. Tal como na infância, cada série encontrava-se cronologicamente organizada, estando também estruturada noutro nível organizacional por editora.

A organização

Foi em 1984 que elaborei os primeiros registos computorizados da minha biblioteca, tendo adaptado um software de agenda de contactos para uma base de dados de livros, ao modificar as variáveis de cada um dos campos propostos, com os conhecimentos que tinha em linguagem BASIC. O microcomputador era um TC-2048, uma versão aperfeiçoada do ZX Spectrum produzida pela Timex Computer de Portugal. Com 48 kB de ROM e 16 kB de RAM, o computador ficava bastante lento perante bases de dados extensas. Deste modo, acabei por ter de criar uma base de dados para cada letra inicial do título do livro/revista. Antevendo que para algumas letras mais concorridas tal não fosse suficiente, optei por espaçar numa cassete áudio de 90 minutos os diferentes ficheiros, de modo a poder gravar novos ficheiros desdobrados de letras próximos uns dos outros – sim, estes computadores gravavam e liam software em cassetes de áudio.

Apesar de ter terminado a introdução de dados dos poucos milhares de livros e revistas que constituíam na altura a minha biblioteca pessoal, o sistema ser pouco prático – bem como o declínio de utilização do TC-2048 – originou a descontinuação desse trabalho.

Os anos recentes

Na década de 90, privilegiei mais a aquisição de álbuns de banda desenhada, apesar de continuar a ler revistas de BD. No entanto, eram os anos da faculdade e de muitas outras descobertas. Apesar do estudo, das viagens, da melomania e do cinema – em especial, de autor – o tempo dedicado à leitura era generoso, mas era a prosa contemporânea o que mais crescia na minha biblioteca e não tanto a banda desenhada.

Foi também nesta altura que começou a crescer bastante a minha CDteca – que chegou a atingir os milhares de compact discs, antes de me converter ao digital – e a minha DVDteca – que superou em muito a anterior colecção de videocassetes e a posterior colecção de discos blu-ray. A colecção de filmes e séries de televisão é, entretanto, também um capítulo encerrado, tendo-me tornado um adepto dos serviços de streaming.

O bichinho da banda desenhada regressou no início da década de 2000 com várias consequências. O acesso à informação de tudo o que era publicado nos EUA passou a originar pesquisas mensais. Tal permitia que identificasse quais as obras que me interessavam, bem como saber atempadamente como encomendar directamente aos editores/autores ou a uma loja nacional especializada em BD as obras que não estariam à venda online.

Paralelamente, iniciei também a demanda de coleccionar a banda desenhada publicada em Portugal que não fizesse ainda parte da minha bedeteca pessoal.

Através destas diferentes acções, o espaço para a colecção começou a tornar-se problemático, como é habitual a todos os coleccionadores, e os critérios a serem cada vez mais rigorosos.

Os projectos

Pertencendo a listas de discussão cultural na internet desde a década de 90, a resolução de iniciar um blog sobre a banda desenhada que ia lendo na década de 2000 foi algo natural. Seguiram-se-lhe um site e um portal especializado em BD, formulado em equipa. Além da escrita do livro “Formas de Pensar a BD” (Pedranocharco), bem como artigos sobre BD em diversos jornais, revistas e sites, um programa radiofónico e um curso académico sobre banda desenhada, continuo a partilhar informação sobre BD no site Bandas Desenhadas, em conjunto com outros colaboradores.

Atualmente, mais do que uma colecção, encaro a minha bedeteca como um instrumento de investigação, que também me gera entretenimento. São milhões de publicações que lutam pelo espaço e o direito de continuar a fazer parte da minha vida!


Versão de artigo publicado na revista “Clube do Coleccionador”, Ano XXXIII, n.º 1, janeiro/junho 2018; CTT Correios de Portugal; ISSN: 0870-5887; pp. 2-5)

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.