Entre conversas e relações no segundo volume de Alias.

Tendo perdido a censura, Jessica Jones aproveitou-se disso ao máximo. Irreverente, desbocada e sem filtros, o seu carisma direto e revoltado voltou para ficar e o segundo volume afirmou a sua posição quanto à linha MAX.

O segundo volume da série Alias (rebatizada Jessica Jones: Alias) foi editado e publicado na versão portuguesa pela G. Floy em novembro de 2016. O original da linha MAX da Marvel compilou os números 10 a 15, apresentando dois novos casos da detetive privada.

O número 10 foi uma história curta especial, em parte, independente dos números restantes, tendo sido publicado como o último capítulo do livro na versão da G. Floy.

Mais uma bela capa de livro, no mesmo estilo da anterior e, como viria a suceder nos seguintes volumes até ao término da série. Além da capa e da arte do número 10, David Mack deixou-nos ainda um caderno de colagens por si elaborado, presente no final, na área dos extras. Este caderno é referente a uma das partes do livro.

A arte de Michael Gaydos segue também a mesma linha que no volume anterior, como seria de esperar, embora não possa deixar de sentir o uso cada vez mais frequente de painéis “copy-paste”, em que o artista apenas copia e cola exatamente a mesma arte. Embora essa seja uma estratégia frequentemente usada por vários artistas, por vezes parece sugerir uma certa indolência e, ocasionalmente, as expressões copiadas não aparentam condizer com os diálogos seguintes; mas isto é apenas uma nota.

Quanto ao argumento, e é aí que Michael Bendis revoluciona mais uma vez a banda desenhada, a série continua na mó de cima. Não posso dizer que seja uma história surpreendente, no sentido em que invoca uma quantidade de mistérios e revelações chocantes, não. Em vez disso, Bendis foca-se em enaltecer os personagens e os diálogos, e que bem que sabe ler a sua escrita.

Se no volume anterior havia pouca ação, no segundo, Alias mostra que foi definitivamente concebido para contrariar os standards e clichés dos super-heróis. Jessica Jones é uma ex-heroína que renega os tempos da sua profissão passada e, nesta série, isso é tão claro como água. Se esperam uma detetive privada que corre e espanca para obter informações, desenganem-se, Jones não podia ter um emprego mais aborrecido e frustrante, como ela própria o coloca.

É com isso que o leitor sai a ganhar. Histórias de detetives com ação temos aos montes, mas quando Bendis se foca nos aspetos integrais dos personagens, tudo se torna mais aprofundado e ganha também um interesse renovado. Sim, Jessica Jones é a típica cidadã aborrecida com um emprego que parece excitante, mas nem tanto, mas é também a tipa atrevida que tem de lidar com situações opostas à sua ética enquanto tenta (sim, tenta) não ferver demasiado com elas para que não lhe salte a tampa.

Acredite-se que esta é uma das séries que mais me tem convencido de que a ação é cada vez menos obrigatória neste meio e, se me derem um enredo como este, para que precisaria eu da ação?

O que traz este volume de novo? O segundo volume traz novos casos, não se trata de uma continuação direta ao anterior. Ao invés disso, funciona quase como um novo capítulo parcialmente independente. Parcialmente porque não priva o leitor de saber pormenores revelados anteriormente, no primeiro volume, tais como a vida amorosa da protagonista, mas ao desenvolvimento, traz novos casos independentes.

Alias vai parecendo, cada vez mais, um livro da “vida real”, casos que podiam perfeitamente ser reais, ou perto disso, e uma protagonista, que também ela, quase podia ser real. Está explicito na forma como lida de forma humana com as ocorrências a que está exposta. Pode nem sempre ser a mais correta, a mais honrosa ou a mais justa, mas não é assim que são os humanos?

Acrescento ainda que, quanto à vida amorosa de Jessica Jones, o livro chega a passar uma imagem quase sedutora, diria mesmo, um pouco picante. Jones é uma mulher solteira que gosta de beber e que parece gostar de sexo casual, aparentando não ter problemas em demonstrar essa sua faceta quando bebe um copo a mais.

O universo mais mundano da Marvel nunca pareceu tão excitante…

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…