Desigualdade de género como base n’A História de Uma Serva.

Finais felizes… Quem não adora uma história com final feliz? (Agora que penso bem, se calhar nem toda a gente). Finais trágicos… Quem não se sente frustrado, chateado ou revoltado com eles? (Certamente, há quem os aprecie).

O que toda a gente realmente gosta em concordância é de um grande final, conclusivo e original, ou interessante e curioso. Todos gostam de finais memoráveis.

Mas, então e quando os finais ficam em aberto, são inconclusivos ou nem sequer soam a final?

É esse o tipo de final que Margaret Atwood nos dá em A História de Uma Serva. E que estranhamente bem que sabe…

Após o enorme sucesso do romance distópico de 1985 e, mais tarde, em 2017, da sua adaptação para o pequeno ecrã, numa série televisiva, foi a vez de Renée Nault fazer a sua adaptação da obra à nona arte. É em fevereiro de 2020 que a Bertrand Editora publica a edição portuguesa, cerca de um ano após o lançamento da versão original no Canadá.

Note-se que escrevo este artigo sem conhecimento do romance original, nem das adaptações, que não à banda desenhada.

A História de Uma Serva superou todas as expectativas que tinha do livro. Iniciei a leitura, com a ideia errada de que seria um romance histórico, possivelmente aborrecido; mal sabia que, na verdade, se tratava de um romance com uma forte presença de elementos fictícios, embora. obviamente, inspirado em vários aspetos reais.

Ao dar-lhe cor e imagem, Nault fez um trabalho de envolvência excelente. O livro está bastante bonito e sereno. Depois de terminar a leitura, achei que, possivelmente, eu teria optado por uma paleta mais morta e menos contrastante, mas Nault deu uso a tanta cor viva, que me fez sentir uma certa colisão entre o enredo e as ilustrações. O ambiente e a trama do livro não podiam ter colidido de forma mais impressionante.

A luta pelos direitos de igualdade de género tem sido exaustiva e contínua, ao longo dos anos. Num mundo em que sabemos que, infelizmente, esta luta não pode parar ou ceder, a mulher tem visto os seus direitos serem, finalmente, reivindicados aos poucos. E se houve um século mais impactante nesta mesma luta, esse terá sido, sem dúvida, o século XX.

Embora, 1985 tenha sido numa altura em que a sociedade nos parece tentar convencer de que a desigualdade de género já não era uma realidade nos países ocidentais, muitos sabiam do contrário. Afinal, ainda hoje, 35 anos depois, podemos identificar nas sociedades ocidentais uma enorme quantidade de estigmas sociais que se mantêm.

Margaret Atwood aproveitou-se daquilo que melhor fazia para apresentar aos leitores a visão de uma América regressiva no sentido desta mesma desigualdade.

A invocação de aspetos históricos, como as servas, e a sua aplicação ao mundo contemporâneo, foi feita de uma forma extraordinária, talvez ainda mais grotesca do que originalmente.

A História de Uma Serva desenvolve um tema delicado e polémico. É um tema muitas vezes difícil de abordar e nem todos os autores o conseguem desenvolver da melhor forma. Atwood, no entanto, teve uma técnica eficaz para o fazer, ao dar à obra uma vertente fictícia, que a salvaguardou de possíveis associações mais diretas a factos reais.

Como disse acima, Renée Nault refresca a obra de belíssima forma, apresentando uma BD com um traço simples, pintada a aguarelas, num estilo mais tradicionalista. A própria capa tem um design simples e sublime, a pequena serva de vermelho sobre o fundo negro. As próprias texturas da capa e das páginas demonstram um especial cuidado no embelezamento da edição. A sensação de requinte e finesse nunca pareceu tão bem numa banda desenhada.

Claro que, alguns dos aspetos, como as narrativas pessoais da personagem principal ou as ilustrações de momentos em que se perde nas memórias ou emoções, dão a clara pista de que se trata de uma obra baseada num romance.

Ao contrário da impressão com que fiquei de algumas outras adaptações, também elas destes mesmos dois meios, Nault conseguiu dar à obra um ritmo bastante agradável, onde o leitor não se perde exaustivamente nas narrativas, antes pelo contrário.

Não posso confirmar até que ponto é esta adaptação é fiel à obra original, se deixa pormenores em falta ou se os acrescenta, por fins relativos ao meio em que se enquadra, mas enquanto obra de banda desenhada, independente da sua original antecessora, A História de Uma Serva é uma obra encantadora. Apesar da adaptação gráfica dar ao leitor todas as ferramentas para que entenda completamente a premissa, Nault faz questão de manter estes claros aspetos romancistas, que estabelecem uma espécie de ponte entre o romance e a banda desenhada, demonstrando que, apesar de ser uma adaptação independente e criativa, esta caminha de mãos dadas com a versão original.

Este não é um livro de vermelho sobre fundo preto, é um colorido arco-íris de emoções sobre uma pesada história de opressão.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…