O isolado primeiro volume de 100 Balas.

Fui dar mais uma volta à coleção Vertigo 25 Anos e, desta vez, foi o primeiro volume do 100 Balas que decidi ler. De uma série de banda desenhada que, certamente, já marca lugar nos livros de história da nona arte, 100 Balas chega a Portugal um pouco tarde, em setembro de 2018. Tal como dos restantes títulos desta coleção, a Levoir foi a editora portuguesa responsável pela versão nacional de 100 Balas, sendo este o terceiro volume pertencente à mesma.

A série 100 Balas foi publicada originalmente entre 1999 e 2009, pela Vertigo, e terá tido um total exato de 100 números. Ao nosso país chegou apenas o primeiro volume, intitulado Primeiro Disparo, Última Rodada, como integrante da coleção, mas sem indícios de futuras edições dos restantes volumes.

Brian Azzarello, um colosso da DC Comics e Vertigo, e Eduardo Risso são os criadores da série, respetivamente responsáveis pela escrita e pela arte. Trata-se de uma dupla já bastante querida entre leitores, que se juntou novamente, e mais recentemente, em Moonshine, série original da Image Comics, atualmente editada em Portugal pela G. Floy.

100 Balas é uma série violenta e crua. Um mundo visto de uma forma obscura, onde reina a corrupção e o crime. Em cada arco da história conhecemos um novo caso, um novo personagem, cuja sua vida foi destruída de alguma forma e sente a necessidade de vingança para poder seguir em frente… Ou então não.

Agente Graves é, de certa forma, o personagem principal e o fio condutor da série, ligando os diferentes arcos. Trata-se de um indivíduo que apresenta a cidadãos comuns uma pasta com provas irrefutáveis da culpabilidade dos seus alvos de vingança, uma arma e cem balas impossíveis de rastrear. Todavia, nem sempre nos deparamos com uma procura de vingança incessante e, em vez disso, é Graves que apresenta aos ditos cidadãos essa oportunidade e que, de certa forma, os manipula a aproveitá-la.

Apesar deste protagonismo recatado, Graves é um personagem misterioso e terminamos o volume sem saber quase nada acerca dele.

Os arcos deixam sempre o mistério em aberto. Afinal quem é o agente Graves e o que procura atingir com as suas macabras propostas de vingança? Pois é uma questão que fica por responder e, para os leitores portugueses, assim permanecerá, a menos que optem por continuar a conhecer a história através das publicações originais.

Este primeiro volume está repleto de ação e mistério e os casos em questão são intrigantes, com personagens bastante diferentes. O cliffhanger enorme com que este volume termina, deixará qualquer leitor sequioso por mais, podendo este ser um ponto menos positivo para a edição da Levoir, uma vez que restringe ao leitor o acesso à continuação da história no mesmo idioma.

Se antes referi ter comprado vários livros, em grande parte, pelas suas aparências, ou seja, a partir das capas, 100 Balas teve, em mim, o efeito oposto. Este foi um dos que fui adiando por falta dessa mesma aparência. As capas, elaboradas por Dave Johnson não são excecionais, mas normalmente resultam nos números individuais. No entanto, o design da capa escolhida para o primeiro volume da série e, portanto, para a edição da coleção Vertigo 25 Anos, ficou muito aquém do livro, na minha opinião. Por isso, se mais alguém pensar que a capa é desmotivadora quanto à aquisição da obra, desengane-se e faça o favor de dar uma oportunidade ao seu conteúdo.

Quanto à arte de Eduardo Risso, um artista da velha guarda bastante reconhecido entre fãs e colegas do meio, esta parece funcionar muito bem numa série como esta. Embora não me pareça um traço excecional, notamos logo que traz uma enorme influência típica da BD dos anos noventa no traço e no ambiente das páginas. Tal como nas cores, por Grant Goleash, que nos apresenta uma paleta simples de cores lisas, sem profundidade, sem pormenor, também muito típico da época.

Para os fãs do género policial, 100 Balas deverá ser uma leitura muito interessante e sendo um fenómeno de culto dentro do meio, esta deve ser tida e lida com uma leitura um tanto analítica. Isto não quer dizer que vá desagradar e, provavelmente, não vai, mas deve ser também tida em conta a altura em que a obra foi escrita. 20 anos após a escrita original da mesma, havemos de notar muita mudança social do período para a atualidade.

Posta a questão de ser um volume isolado na edição da Levoir, acredito que muitos dos leitores portugueses que já leram Primeiro Disparo, Última Rodada, ficaram por aqui na história. Para estes, aconselho vivamente a procura das edições originais e a continuação da leitura de uma obra aclamada que, além de entreter, tem muito para enriquecer.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…