A série TLS no panorama artístico nacional.

TLS Series é uma das antologias de banda desenhada portuguesa de maior sucesso dos últimos anos, sendo uma edição em colaboração entre G. Floy e Comic Heart, atualmente pertencente ao catálogo d’A Seita.

Com um total de 4 volumes publicados entre 2017 e 2020, esta foi uma série que juntou alguns dos melhores artistas/autores portugueses membros do estúdio lisboeta The Lisbon Studio.

Nesta resenha, a minha análise foca-se apenas nos primeiros três volumes, Cidades, Silêncio e Viagens, previamente à série ser editada pel’A Seita.

Para esta análise, pensei em começar exatamente por onde um livro começa, a capa, e se há capas dignas de ser apreciadas, estas são o caso. Nas antologias da TLS Series temos diferentes capas de cores muito diferentes, por diferentes artistas, todas magníficas e cheias de cor. Atrevo-me a dizer até, que serão algumas das mais bonitas capas que tenho visto em obras de banda desenhada nacionais. A edição da série é, também ela, muito bonita em termos do próprio material usado, o papel, a capa dura…

Cada livro vem ainda com um prefácio e um texto introdutório escrito por um membro ou ex-membro do The Lisbon Studio. As introduções são muito bem expressas e esclarecedoras. É interessante conhecer o testemunho destes autores, que integram ou já integraram o estúdio, revelando um olhar muito próprio sobre o espaço, o companheirismo criado e também a prática de fazer BD e outros trabalhos artísticos num estúdio em Lisboa. No fundo, apresenta-nos uma breve e sintetizada história do recente estúdio lisboeta.

Um vasto leque de artistas com estilos bastante diferentes, dentro de géneros também diferentes, dentre a ficção, o humor, o drama, entre outros. Alguns destes artistas repetem-se ao longo dos diversos volumes, outros não.

Como me revelo pouco fã de antologias, vejo este tipo de livro, principalmente, como uma espécie de catálogo dos autores que neles participam. E se for isso que temos nesta série, as editoras da série e o TLS provam-nos bem que se faz muito boa arte em Portugal. Se dúvidas restavam quanto à qualidade artística, e inclusivamente argumentativa, dos autores portugueses, a TLS Series esclareceu-as todas, colocando alguns dos melhores artistas nacionais em grande plano.

O tema é estabelecido no início da criação de cada volume e é atribuído aos artistas em questão, que de forma mais ou menos deslumbrante, os desenvolvem aos longo destas páginas. Em Silêncio, por exemplo, encontrei um dos temas mais ambiciosos, assumindo a dificuldade de construir uma história com base no mesmo.

Cada volume tem sempre destaque para uma história colorida, com especial atenção ao detalhe e ambiente da mesma. Porém, além desta, e não menos boas, encontramos nas restantes histórias, material para todos os gostos. Podemos não desenvolver interesse por todas as curtas histórias ou por todos os autores, mas dificilmente chegamos ao fim sem acharmos uma única história agradável.

Não querendo analisar as histórias individualmente, que, certamente, teriam muito sobre o que falar, sugiro que a apreciação desta série fique em aberto ao gosto próprio de cada leitor, pois, como disse, cada volume oferece uma razoável quantidade de estilos e géneros diferentes ao encontro de cada um, que serão sempre desfrutados de forma diferente de leitor para leitor.

Apesar do enorme sucesso do primeiro volume, Cidades, e o rápido desaparecimento do stock, na minha opinião, a série evoluiu bastante entre o primeiro e o terceiro volumes. Os temas tornam-se mais ambiciosos, deixando espaço para um desenvolvimento mais robusto e interessante também. A evolução é positiva e os leitores só podem sair a ganhar.

Em suma, a TLS Series não é uma épica antologia de banda desenhada e as curtas histórias não têm muito espaço para o desenvolvimento prolongado, mas há muitos aspetos positivos a retirar de si. Começando pelo empenho dos artistas, ao comprometer-se a colaborar numa antologia que, como disse, vai de encontro a uma panóplia de gostos e influências diferentes. Trabalhar numa história curta, permanecendo fiel a um tema em questão não é sempre tão fácil como possa parecer.

Por outro lado, por um valor bastante razoável, é de agradecer e congratular todos os colaboradores responsáveis pela edição de uma série antológica com tal grau de profissionalismo e qualidade em Portugal. Não serão muitas as antologias com tantos artistas e autores de tal qualidade. Um trabalho muito bem conseguido por todas as partes envolvidas, The Lisbon Studio e as editoras, não esquecendo a menção dos convidados a participar nas introduções.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…