Relendo Março de Miguel Rocha e Alex Gozblau.

Este calor, deixa-me sem grande vontade de vasculhar o armário; contudo, dou por mim com algumas banda desenhadas na bagagem. Hoje, recordo o Março de Miguel Rocha e Alex Gozblau.

Estávamos no ano 2000 e nessa altura lia bastante Miguel Rocha e Alex Gozblau. Conheci este último no café “Piolho”, no Porto. Era o designer da extinta revista 365 do Fernando Alvim. Duas pessoas que gostava de ver pelo desenho e grafismo. A elegância. Parece ser um lugar comum mas não é fácil. Ganhar um estilo nunca foi fácil. Nunca será.

Não sei porque me foi parar o Março às mãos. O tema, neste momento, não me atrai. Engraçado, até sinto algum incómodo. Levo um pouco para o flirt. Não sei. Provavelmente, sou eu. Apenas. Mas um homem que leva uma mulher a viajar pelo que aparentemente ela deseja, mostrar o que lhe é desconhecido… E todo o leitor já imagina onde vá parar. Sim, não é um cliché. É apenas um flirt. Uma espécie de romance aparentemente sem futuro, a acontecer. Precisamos sempre de histórias que nos aqueçam o corpo e a alma. Sem dúvida. Umas vividas, outras lidas. Outras ainda seduzidas. Um bocado de açúcar. Mascavado, talvez não faça tão mal quando a personagem nos avisa que se deve parar, antes. Ou treta, apenas treta. Faz parte, tudo a fazer parte.

Todavia, o desenho é tão bonito que se torna sublime. E isso também não é treta. E, por sua vez, um bom disco de vinil a girar, alguma honestidade, despojamento e coragem, regados a um bom vinho, fazem milagres.

“Nunca te disseram que falavas demais?” Er, quem nunca ouviu isso e quem nunca quis ser seduzido? Bem lá no fundo dos fundos…

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Eis a sinopse:

O álbum Março conta uma viagem muito especial feita a cinco locais diferentes da cidade de Lisboa, correspondentes a cinco sentidos, cinco fases da Lua e cinco cores dominantes. Foi distinguido com o Prémio para o Melhor Desenhador no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA).

Miguel Rocha (n. 7 de março de 1968, Lisboa), publicitário, ilustrador e autor de banda desenhada, tem o curso de Artes e Técnicas do Fogo da Escola António Arroio e o curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes (1994-1996). Estreou-se em banda desenhada em 1997. Os seus álbuns galardoados no FIBDA foram As Pombinhas do Sr. Leitão (BaleiAzul, 1999), Eduarda com Francisco Oliveira (Polvo / Bedeteca de Lisboa, 2000), Março com Alex Goblau (BaleiAzul, 2000) e Salazar – Agora na Hora da sua Morte com João Paulo Cotrim (Parceria A. M. Pereira, 2006).

Alex Gozblau (n. 1971, Perugia, Itália) tem desenvolvido um trabalho diversificado no âmbito da ilustração. Assim, para além do seu trabalho em ilustração de livros infantojuvenis e para os principais títulos da imprensa periódica do nosso país, tem assinado diversos projetos no domínio da pintura, do design gráfico para diferentes editoras, do cinema de animação (incluindo argumento), da banda desenhada (quer como argumentista, quer como desenhador) ou da publicidade, entre outras áreas. Realizou já várias exposições individuais e o seu trabalho foi distinguido pelo Clube de Criativos de Portugal, pela Society for News Design (EUA) e pela Society for News Design (Ibéria). Em 2009, foi-lhe atribuído o Prémio Stuart de Carvalhais de Desenho de Imprensa, patrocinado pela Casa da Imprensa e pelo El Corte Inglês.

Março
Miguel Rocha, Alex Gozblau
Editora: Baleiazul (coedição com Salão Lisboa)
Páginas: 64, a cores
Encadernação: capa mole
Dimensões: 230 mm x 325 mm
Ano: 2000
ISBN: 972-8515-22-7

SOBRE O AUTOR |

Ana Ribeiro
Ana RibeiroColaboradora
Costumava desenhar de joelhos, com os braços em cima da cama quando era pequenita e mais tarde numa mesa de escola. Os joelhos agradeceram. Cresci com banda desenhada e criei o fanzine "durtykat" em 2001. Viajei quase à pala e fui colaborando e comunicando através de desenhos, nascendo assim as Nits, em 2014. Voltei a desenhar de joelhos mas eles não se têm queixado. A última exposição foi na Galeria Mundo Fantasma, no Porto, no ano de 2019.