Kick-Ass: Mais violência, menos censura, tudo ao molho.

Foi entre 2008 e 2010 que a Icon, chancela da Marvel Comics, publicou os oito números pertencentes à primeira série de Kick-Ass, por Mark Millar e John Romita Jr.

Conhecida por ser a primeira tentativa da Marvel de manter uma edição sem censura, a Icon foi a chancela com que publicaram várias séries dentro dos parâmetros, como os conhecidos, e também editados em Portugal, Némesis e Kingsman: Serviço Secreto, também de Mark Millar. Muitas destas séries foram posteriormente deslocadas para outras editoras, após esta chancela entrar em desuso.

Mark Millar, como outros argumentistas com títulos presentes em edições da chancela, aproveitou bem as possibilidades da banda desenhada sem censura da Marvel e dar vida a Kick-Ass foi um dos seus feitos mais bem “orquestrados”.

Só em março de 2019, a G. Floy viria a publicar a edição portuguesa deste, que se tornara num dos maiores sucessos de Mark Millar.

Passados, sensivelmente, dez anos da sua publicação original e de ter visualizado as suas bem-sucedidas adaptações ao grande ecrã, decidi que tinha de conhecer a obra.

Kick-Ass tem tudo o que um leitor “viciado” em cultura popular e, principalmente, comics, gostaria de encontrar numa banda desenhada: os super-heróis, a violência e ação exageradas e a identificação pessoal com o próprio mundo da história.

Nestes oito números temos um enredo passado a correr, sem grandes preocupações pelas leis morais ou pelos finais felizes. Em vez disso, Millar decidiu agarrar num adolescente “falhado” e dar-lhe um mundo de fantasia, que anseia tornar real. O resultado é uma enchente de violência e uma coragem idiótica, que, por sua vez, leva a mais violência. Esta parece ser a receita.

Não encontramos uma história de trama complicada ou com planos vilanescos mirabolantes e, portanto, esta não é uma típica BD de super-heróis nem um “épico” da banda desenhada.

Millar trouxe-nos aqui novidade, mas principalmente, originalidade. Kick-Ass tem uma clara influência de anteriores obras inconvencionais de super-heróis, que tentaram romper com os estigmas e os padrões típicos dos comics do género. Devo mencionar Watchmen como uma das primeiras obras inconvencionais deste tipo.

Desde já me confesso muito pouco fã dos trabalhos que conheço de Millar, mas Kick-Ass é uma obra que vale a pena conhecer. O enredo fixa-se muito na adolescência de um jovem pouco popular e com poucos interesses além da cultura pop, nomeadamente os comics americanos (algo com que muitos dos leitores mais jovens teriam uma certa facilidade em se identificar). Aqui, Millar faz uso de referências engraçadas, que serão automaticamente reconhecidas pelos conhecedores desta mesma cultura, nomeadamente a personagens e autores da Marvel e da DC Comics.

Quanto à arte de Kick-Ass, admito que não me satisfez por completo. Tentei abordar o traço de John Romita Jr. com o merecido respeito que ganhou ao longo dos anos, mas nesta obra, não sei se por parte também, devido ao arte-finalista Tom Palmer, algumas das ilustrações ficaram aquém das expectativas.

Não me entendam mal (e esta é uma questão subjetiva), não digo que o trabalho de Romita Jr. tenha ficado mau ou impercetível, pelo contrário. A arte representa bem o ambiente que quer passar e estruturalmente funciona muito bem. O que me deixou pouco satisfeito foi o embelezamento. Nesta obra, o seu traço parece-me um pouco caótico por vezes, mal delineado, inclusivamente, algumas ilustrações um tanto desproporcionais e algumas vinhetas que podiam ter ficado bastante mais bonitas.

Em reflexão sobre a obra, passados dez anos, Kick-Ass não parece estar ultrapassado. Claro que vimos outras obras do género surgirem ao longo dos anos que se seguiram e, claro que tivemos outras tantas antes. Esta foi uma fase que Mark Millar aproveitou para explorar este aspeto inconvencional dos super-heróis, tendo feito o mesmo com Némesis logo após e, mais tarde, com O Legado de Júpiter, entre outros. Apesar de vermos este tipo de exploração e desenvolvimento do meio acontecer já desde os anos 80, ao longo dos anos têm surgido sempre novas interpretações, novas obras, algumas delas muito interessantes, sempre diferentes. É aqui que Kick-Ass ganha pela originalidade e, embora me pareça uma série que deve muita da sua reputação à adaptação cinematográfica, não me parece que tenha menos mérito ou menos interesse. É, de facto, um trabalho de Millar e Romita Jr. que vale a pena conhecer e diria mesmo ser um “must” para os maiores fãs de banda desenhada.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…