Os volumes 9 a 12 de Alix.

Como se disse no artigo anterior, a capacidade de trabalho de Jacques Martin sempre foi invejável.

Durante o período que abarca a publicação dos quatro álbuns que se seguem, ele mantém a colaboração com o Estúdio Hergé n’ As Aventuras de Tintin até 1972, publica mais um álbum de Lefranc em 1974 (com desenhos de Bob de Moor) e, obviamente, não deixa de produzir a solo as aventuras de Alix.

No entanto, é mais ou menos consensual que a “Idade de Ouro” de Alix termina aqui, mais precisamente com a publicação de Iorix o Grande.

Não quer isto dizer que o desenho diminua de qualidade ou que a reconstituição histórica muito detalhada e meticulosa se aligeire. E também não quer dizer que, no futuro, não haja álbuns que tenham marcado indelevelmente várias gerações de leitores.

Mas os argumentos do corpus inicial de 10 álbuns não serão suplantados e as histórias passarão a ser mais ligeiras (com honrosas excepções, como poderemos ver nos próximos artigos).

9 – O DEUS SELVAGEM

Originalmente, é publicado em álbum em 1970 pela Casterman. Em Portugal, aparece pela primeira vez em álbum em 1983 nas Edições 70 e é reeditado numa parceria Público/ASA em 2010.

Jacques Martin faz-nos mergulhar na Líbia e na esplendorosa cidade de Apolónia, dedicada a Apolo, o deus da beleza e o mais importante no panteão dos deuses greco-romanos a seguir a Zeus.

Alix e Enak recebem uma carta de Horatius na qual são convidados a irem a Apolónia e onde este insiste que sejam acompanhados por Heráklion.

Ao desembarcarem na costa africana, os três rapidamente percebem que foram vítimas de um logro e que a mensagem é falsa e talvez mesmo uma armadilha.

Não podendo regressar de imediato a Roma, acabam por ser apanhados na enorme euforia que percorre as ruas da cidade. Descobriu-se uma estranha estátua luminosa de Apolo e parece que faz curas milagrosas.

Mas, ao mesmo tempo que a estátua é instalada no templo, Heráklion desaparece.

Neste álbum, Jacques Martin aborda um tema caro aos anos 70 do século XX, as radiações atómicas e os seus terríveis efeitos.

Uma nota especial para os desenhos notáveis do deserto líbio.

10 – IORIX O GRANDE

Publicado originalmente em álbum em 1972 pela Casterman. Em Portugal tem uma primeira edição em 1984 nas Edições 70 e reedição pelo Público/ASA em 2010.

O Cônsul da Trácia pede a Alix para conduzir uma legião constituída por gauleses de volta à Gália. Por terem combatido corajosamente por Roma, os inimigos partos são magnânimos: se abandonarem Pártia, cada mercenário terá direito a uma pequena fortuna.

No todo, o tesouro é transportado numa biga que passa a ser o alvo de todas as atenções, especialmente de Iorix, o Grande. Cabe a Alix refrear as ambições de Iorix pelo dinheiro e pela ideia de reconquistar a Gália e evitar assim o drama no seio da legião.

O argumento é genial e a cobiça de vários protagonistas por uma biga carregada de ouro está bem expressa nos seus rostos. Martin aborda assim o problema do dinheiro e de como este tudo pode corromper.

A reconstituição arquitectónica das cidades gaulesas é muito cuidada.

A evolução dos trajes da legião ao longo da viagem de regresso à Gália, assim como a degradação progressiva do moral, dão ao álbum uma atmosfera sufocante e opressiva.

Como já se disse, este décimo álbum de Alix vai marcar o fim da “idade de ouro” da série. Até aqui, as histórias pareciam servir de fábulas ou como base de reflexão de assuntos mais profundos. Daqui em diante, Jacques Martin vai simplificando progressivamente os enredos.

11 – O PRÍNCIPE DO NILO

Publicado originalmente em álbum em 1974 pela Casterman. Em Portugal tem a primeira edição em 1984 nas Edições 70 e é reeditado pelo Público/ASA em 2010.

Alix parte à descoberta das origens de Enak na Núbia, onde se descobre que o rapaz é descendente dos Menkhara, uma poderosa família egípcia.

O principal ponto de interesse da história reside na primeira discussão entre Alix e Enak e no dilema de Alix que, apesar de estar sob tortura, recusa trair Roma.

De enredo ligeiro, este é o primeiro álbum que decepciona os exigentes leitores de Alix. O verdadeiro sopro da aventura desapareceu, como em vários dos álbuns que se seguiram.

Apesar disso, o álbum é escorreito, os desenhos do Egipto antigo são elegantes e precisos.

12 – O FILHO DE ESPÁRTACO

Publicado originalmente em álbum em 1975 pela Casterman. Em Portugal tem a primeira edição em 1985 nas Edições 70 e é reeditado pelo Público/ASA em 2010.

Espártaco foi o mais célebre gladiador da Roma antiga. Liderou uma revolta de 40 mil escravos e fez tremer as bases da república romana até ser morto em 71 a.C..

Mas Espártaco teve um filho, Spartaculus. Será ele o símbolo de uma nova revolta? E Alix, conseguirá concretizar o seu pedido e protegê-lo?

O argumento é, talvez, demasiado básico e de contornos muito previsíveis. São os desenhos de Jacques Martin que salvam um pouco o álbum.

Continua…

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.