Opinião ao primeiro livro da Trilogia do Eu.

Um dos aspetos mais difíceis na escrita de uma obra literária está em assumir o lado do leitor. Será algo extremamente difícil, uma vez que cada leitor é único e tem a sua forma individual de abordar a obra. Ora temos leitores que leem tudo de uma enfiada, sem pausas; outros dividem a leitura em capítulos e retomam diariamente; outros ainda levam mais tempo e voltam atrás para reler aquilo que não ficou bem entendido… Claro que o estilo da escrita, ou até o formato da edição, também influenciam a forma como o leitor lê e aborda a obra e é aí que entra o importante papel do escritor, o papel de manter o leitor entretido, de o cativar e fascinar, não permitindo que o seu interesse se perca, independentemente da forma como este aborda a obra.

Isto tudo para dizer que, normalmente sou o tipo de leitor que vai lendo por partes, absorvendo a história com mais calma, mas num ou outro caso excecional (em que a leitura é muito fluída ou pouco pesada ou, por outro lado, em casos em que as páginas não dão momentos de pausa na ação, em que parar e retomar noutro momento não parece fazer sentido), acabo por ler a obra inteira de uma só vez. Com o livro de que falo hoje aconteceu exatamente isso – ambas as opções acima mencionadas entre parênteses.

Eu, Assassino é um livro que tanto tem de fascinante como de aborrecido e, dito assim até parece mal, mas o livro tem as suas peculiaridades. Mais abaixo explico exatamente o que quero dizer.

Publicado em Portugal no ano de 2016, Eu, Assassino é o primeiro livro de uma trilogia e contou com uma edição da Arte de Autor. Os seus autores são Antonio Altarriba, como argumentista, e Keko, na arte.

Esta obra é mais um exemplo da expressão artística do vermelho sobre o negro, que já temos encontrado em várias bandas desenhadas. Trata-se da utilização de uma única cor contrastante sobre o fundo arte-finalizado. Para Eu, Assassino, a cor utilizada foi o vermelho e foi mais tarde passada a indicação de que cada um dos três volumes dará uso a uma cor diferente, tendo o segundo volume (já disponível), Eu, Louco, dado uso à cor amarela.

A obra de Altarriba e Keko foi já distinguida com vários prémios em França (onde foi originalmente editada pela Denoël Graphic) e Espanha, país de origem dos autores.

Como comecei por referir no início deste artigo, a obra é completamente corrida. Claro que tem pausas na ação ou mudanças de cena, mas não está dividida em capítulos, o que faz com que o leitor acabe por sentir uma certa “necessidade” de o ler de uma só vez. Verdade que também não demorará mais que um par de horas, mas para quem não gosta de dedicar tanto tempo seguido à leitura, poderá sentir isso como um entrave. Por outro lado, se ao cativar, a leitura jamais seja vista como um entrave, esse poderá ser então um ponto forte neste livro. Embora pareça “obrigar-nos” a ler de início ao fim sem parar, é também interessante o suficiente para prender a vontade de o continuar a fazer; todavia, esse interesse não se revelará de forma igual em todos os leitores e poderá até não existir em alguns casos.

Destaco, no entanto, que não é um livro para todo o leitor de banda desenhada e, apesar da premissa e a narrativa me terem agradado, compreenderei totalmente quem não sinta o mesmo. O argumento tem um teor maduro e isso nota-se muito bem na escrita de Altarriba, mas aspetos como os diálogos catedráticos “histórico-artísticos” apresentados nas vinhetas em forma de debates ou palestras, podem tornar-se aborrecidos ou pesados para quem não os entenda ou, simplesmente, para quem não aprecie a temática abordada.

A mim, que não sou especialista em nenhuma das áreas abordadas na obra, parece-me haver um esforço de pesquisa e conhecimento da parte de Altarriba e, certamente também de Keko, na área mencionada. A narrativa acaba por se tornar mais credível por essa mesma razão, embora não possa garantir a veracidade presente nos assuntos impostos.

Em Eu, Assassino vemos o mundo pelos olhos de um assassino que mata pela arte, que prepara minuciosamente os seus homicídios com esse mesmo paradigma. Mostra-nos uma perspetiva oposta àquela que os padrões sociais e morais nos impõem de que matar é crime e moralmente errado. Poderá parecer uma temática controversa, mas Altarriba não é o primeiro autor a dar uso a um protagonista com práticas hediondas e moralmente erradas, apresentando ao leitor a possibilidade de traçar uma relação de empatia com o mesmo. Aqui, o protagonista é um assassino metódico e instintivo que acredita que matar é inerente à natureza humana e não deve ser reprimido pelas emoções ou pela lei.

Nesta obra haverá vários pontos que cruzam com outras que conhecemos da literatura e do cinema. Várias são as semelhanças e talvez até influências de obras ficcionais como Hannibal, onde temos também um protagonista assassino e onde podemos encontrar também uma certa proximidade a este padrão de homicídio metódico, visto como performance artística.

O livro foca, sobretudo, as duas vidas opostas do protagonista: por um lado o seu sucesso profissional enquanto professor catedrático e especialista na área; por outro, a sua “arte” e os seus assassinatos metodológicos. Também em Hannibal temos o caso de um profissional com alta qualificação académica, neste caso um psiquiatra com diversos outros interesses em diversos ramos da cultura e da culinária.

A arte de Keko não é demasiado elaborada, mas também não é demasiado simples e insere-se muito bem no ambiente que a obra quer passar. A técnica do vermelho sobre o negro não é nova, como referi anteriormente, mas dá sempre um toque especial à banda desenhada onde o destaque que se quer está no sangue (embora não seja o único elemento colorido a encarnado). Por outro lado, há também um uso relativamente frequente de pinturas famosas na sua versão original e integral, aparecendo em algumas vinhetas como referências às mesmas e aos artistas responsáveis pelas suas criações.

O resultado do livro é bastante satisfatório, mas como disse, será necessário um certo gosto pela temática, bem como uma busca pelo objetivo procurado por Altarriba. O livro é bastante maduro e tem como foco um leitor também maduro. Não será por isso, no entanto, que um leitor sem campo de conhecimento na área da história de arte (neste caso, relativa ao sofrimento, desmembramento, homicídio) não entenderá a premissa geral da obra.

É o tipo de livro que deve ser bem ponderado, mas que merece uma leitura cuidadosa e focada.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…