Os volumes 13 a 16 de Alix.

No período compreendido entre 1977 e 1981, Jacques Martin publica na Casterman mais quatro álbuns da sua série Alix.

Talvez as principais características destes novos álbuns sejam o retomar ou continuar certas temáticas por um lado (como é o caso do Espectro de Cartago em relação ao Deus Selvagem ou do Deus Vulcão em relação à Ilha Maldita) e, por outro, revisitar determinados temas tratados em vários álbuns, como é o caso das revoltas e complots de países ocupados contra Roma (Herkios, o Jovem Grego) e ainda o regresso de personagens que já tinham provado funcionar com os leitores, como é o caso de Oribal que volta em A Torre de Babel.

Se para muitos, o retomar de temáticas ou revisitar personagens antigos é sinal de menor imaginação ou ligeireza nos argumentos, para mim ajudou a criar a ideia de continuidade na série. Há álbuns que passam a estar ligados, que formam dípticos e que acabam com a ideia de “histórias soltas” num mundo (o Império Romano) onde, inevitavelmente, quem se move nos mesmos círculos acaba por se reencontrar. O que leva também à ideia confortável de histórias verosímeis – ou não fosse esta uma série histórica.

Paralelamente, e como sempre, Jacques Martin continua com uma alta capacidade produtiva pois, neste período lança mais três álbuns de Lefranc em 1978, 1979 e 1981 (agora com desenho do seu discípulo Gilles Chaillet).

Ao mesmo tempo cria Jhen, uma nova série histórica, passada na Idade Média, durante a Guerra dos Cem Anos, e desenhada por Jean Pleyers. Martin assegura não só os argumentos como os diálogos e a planificação de cada prancha.

E nem por isso o seu traço e as suas reconstituições históricas perdem qualidade, como se verá.

13 – O ESPECTRO DE CARTAGO

Originalmente, é publicado em álbum em 1977 pela Casterman. Em Portugal, aparece pela primeira vez em álbum em 1986 nas Edições 70 e é reeditado numa parceria Público/ASA em 2010.

Cartago, a capital de um império que rivalizou com Roma, destruída até às suas fundações no final da Terceira Guerra Púnica e reconstruída cem anos depois por Júlio César, é agora o centro da trama.

Convidados da cidade em agradecimento da ajuda que lhe deram (ver A Ilha Maldita), logo na primeira noite Alix e Enak apercebem-se de um estranho clarão que faz cair um soldado do alto de um palácio em ruínas.

Na noite seguinte, ao inspecionar o local, Alix sente-se subitamente adoentado. No dia seguinte, decide voltar ao local com Enak, mas este acaba por desaparecer e Alix cai numa cisterna, sendo salvo pelo tribuno Corus Maler, o encarregado da ordem pública na cidade.

Mais uma noite e todos são conduzidos por uma silhueta luminosa até uma armadilha.

Presos a uma memória de tempos longínquos, na verdade, um grupo de extremistas volta a desafiar Roma, noite após noite. Mas, na verdade, Alix parece ser o alvo principal dos vários atentados.

As tropas de Corus Maler dão caça ao espectro luminoso e ao grupo de homens armados que o acompanham. O certo é que, como agora também o pode provar Enak, quem entra em contacto com aquela estranha matéria luminosa adoece misteriosamente.

Este é um álbum de continuidade e de revisitação.

De continuidade porque Alix e Enak voltam a Cartago e porque Brutus (quem transporta a matéria luminosa) tinha já aparecido em O Túmulo Etrusco.

De revisitação porque Jacques Martin, talvez influenciado pela continuação da Guerra Fria, volta a abordar o tema da matéria radioactiva e dos seus malefícios – a matéria luminosa é oricalco, o metal precioso atlante citado em “Crítias” de Platão e a que, com o tempo, se resolveu atribuir estranhos poderes – que já tinha abordado no álbum O Deus Selvagem.

Em 1978, Jacques Martin vê o seu trabalho recompensado quando O Espectro de Cartago ganha o prémio de melhor obra realista francesa no Festival Internacional de Angoulême.

14 – O DEUS VULCÃO

Publicado originalmente em álbum em 1978 pela Casterman. Em Portugal tem uma primeira edição em 1987 nas Edições 70 e reedição pelo Público/ASA em 2010.

Alix e Enak são vítimas de um motim a bordo do navio em que viajam numa missão que os levaria à Índia.

Abandonados numa ilha vulcânica, e embora desalentados, decidem construir um abrigo e uma jangada.

Mas afinal não estão sozinhos na ilha pois uma noite veem luzes ao longe e ouvem gritos de aflição. Surge-lhes Malua, uma jovem indígena aterrorizada que lhes pede refúgio. Explica-lhes que os jovens da sua aldeia são sacrificados ao deus vulcão de modo a aplacar a sua ira e assim evitarem erupções.

Alix vai tentar convencer o feiticeiro da aldeia a acabar com tão bárbaro costume. Mas o que ele não sabe é que outros interesses estão por detrás dos sacrifícios humanos.

Neste álbum, Jacques Martin aproxima-se um pouco do argumento de A Ilha Maldita, onde humanos são sacrificados a um deus do fogo e por isso parece-nos algo já visto.

Embora a história seja algo básica, na continuidade da série tem alguns pontos de interesse.

Primeiro, Enak aparece como um rapaz mais seguro de si e um arqueiro dotado.

Percebe-se uma certa liberdade sexual por parte de Malua e um desejo contido por parte de Alix, que é mais susceptível às tentações das mulheres do que Enak.

Chamada de atenção para a beleza dos desenhos da erupção vulcânica.

Antes de ser publicado em forma de álbum, O Deus Vulcão saiu semanalmente na revista Tintin. Ora, a redacção da época não apreciou a quase nudez dos protagonistas e, muito menos, seios femininos a descoberto. Por isso, exigiu a Jacques Martin que os censurasse, coisa que ele fez muito contrariado.

Mas para se vingar, atrasou a entrega das últimas pranchas, obrigando assim que fossem impressas com os seios que ele tinha censurado ao longo de quarenta páginas.

Abaixo, o motivo da polémica para vossa apreciação.

15 – A CRIANÇA GREGA / HERKIOS, O JOVEM GREGO

Publicado originalmente em álbum em 1980 pela Casterman. Em Portugal tem a primeira edição em 1989 nas Edições 70 e é reeditado pelo Público/ASA em 2010.

Depois de serem capturados por fenícios, Alix e Enak são vendidos como escravos no mercado de Atenas, sendo comprados por Numa Sadulus, um cidadão romano.

Na verdade, Sadulus não os quer como escravos, mas sim encarregá-los de uma missão a pedido do senado romano. Eles deverão infiltrar-se na Protoneion, uma importante fábrica de vasos, e fingir serem aprendizes do ofício de oleiro de modo a descobrirem qual o segredo que nela se esconde. Nesse sentido, fazem amizade com Herkios, o jovem grego que é herdeiro da fábrica, sob o olhar desconfiado do seu ambicioso tutor.

O argumento lança-nos no seio de uma grande empresa que poderia ser uma das muitas que existem na actualidade, que sofrem de manipulações, intrigas, corrupção, enganos e, no caso da Protoneion, de assassinatos. No fundo, Martin mostra-nos que os problemas do mundo antigo subsistem nos dias que correm.

Outra questão em evidência neste álbum, como em vários anteriores, é a difícil coexistência entre povos vencedores e vencidos (entre romanos e atenienses) e o complot contra os romanos.

Tanto num caso como no outro, a questão central é a cegueira provocada pelo poder e os atalhos que muitos tomam em proveito próprio, abandonando o possível lado mais humanista da humanidade.

Ao contrário das grandes cavalgadas heróicas e dos combates existentes em vários álbuns anteriores, este é muito contido, mas nem por isso menos magistral e com um final surpreendente.

Os soberbos desenhos da acrópole, assim como do resto de Atenas, são de uma enorme precisão.

Considerado como peça fundamental na série Alix, foi também publicado numa versão em grego antigo.

16 – A TORRE DE BABEL

Publicado originalmente em álbum em 1981 pela Casterman. Em Portugal tem a primeira edição em 1987 nas Edições 70 e é reeditado pelo Público/ASA em 2010.

Alix e Enak vão até Jerusalém para se encontrarem com Hiram Khal, o homem de confiança de Oribal (ver A Tiara de Oribal). Este revela-lhes que o jovem soberano inexperiente, após cometer vários erros, encontra-se numa grave posição pois o povo começa a revoltar-se. Mas Oribal, admirador da cultura grega, fez pior e impôs o culto dos seus deuses a um clero ofendido de morte. As sucessivas revoltas são reprimidas com banhos de sangue, mas só Alix (cujo prestígio se mantém intacto perante a população) poderá salvar Oribal.

Para isso, Alix, Enak e Hiram Khal devem partir de imediato numa perigosa viagem para Zur-Bakal, a capital.

Este álbum é uma espécie de continuação de A Tiara de Oribal e o regresso de Alix à Mesopotâmia, nomeadamente, à Babilónia.

É também o retomar do tema da fidelidade – Alix, mesmo sabendo das atrocidades cometidas pelo amigo, vai em socorro de Oribal.

Os personagens não são lineares e são tratados com inúmeras nuances que nos levam a não podermos afirmar haver um “bom” e um “mau”.

A viagem de Jerusalém à Babilónia é um pretexto para termos à nossa frente pranchas sublimes, muito detalhadas (como é o caso da Torre de Babel ou do porto de Óstia) e belas.

Continua…

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.