O envelhecer do clássico Sin City: mais de duas décadas depois.

Nove foram os anos que passaram entre a publicação do primeiro e do sétimo, e último, volumes da série Sin City. Outros nove anos foram precisos para que a edição portuguesa da série visse a sua completação.

Foi entre 1991 e 2000 que Frank Miller viu, aquela que será, provavelmente, a sua mais aclamada obra em nome próprio, ser publicada por completo pela Dark Horse Comics. Os diferentes volumes foram originalmente publicados em diversos formatos, desde bandas desenhadas publicadas em revistas antológicas, minisséries de comic books, alguns one-shots – que viriam ser todos compilados em TPB – e ainda um livro.

Foi em 2003 que a Devir publicou a sua primeira edição nacional da série, com o primeiro de sete volumes intitulado A Cidade do Pecado (originalmente The Hard Goodbye). A publicação da série pela Devir em Portugal ficaria completa então em 2012, com o sétimo volume, intitulado Inferno, Ida e Volta.

Sin City é provavelmente uma das séries que melhor representa a cena da banda desenhada americana nos anos 90. A violência, o sangue, a ação e a corrupção. Estes são alguns dos temas que mais popularizaram a banda desenhada nesta época.

No fundo, esta é uma série cheia de testosterona e com muito poucos valores morais – embora possa haver quem discorde.

Frank Miller apresenta-nos uma série de inovadoras pranchas a preto e branco, criando assim a sua própria atmosfera, um ambiente que sempre será a si associado e, mais especificamente, à própria obra. O traço espesso na arte finalização e, muitas das vezes, o preto a sobrepor-se ao branco são dois dos aspetos que mais diferenciam esta obra de tantas outras. A arte de Miller segue um padrão e embora não seja sempre a melhor, tendo deixado algumas pranchas um tanto duvidosas, é uma arte que resulta. Um aspeto bastante claro ao longo da série é a mudança – não lhe posso chamar progresso – da coloração na arte de Miller, sendo que começamos os primeiros títulos apenas a preto e branco e temos no quarto volume Aquele Sacana Amarelo, pela primeira vez, a utilização de cor, mais especificamente do amarelo, como forma de destaque de apenas um dos personagens. A utilização desta mesma técnica volta a dar-se no sexto volume – agora com mais personagens e maior diversidade de cores utilizadas – e é no sétimo volume que o autor decide deixar-se levar e utiliza a colorização numa passagem inteira – referindo-me à passagem alucinatória do protagonista -, o que acaba por gerar uma quantidade de pranchas muito pouco interessantes. É impossível não sentir que a obra parece perder um pouco do seu espírito central quando Miller passa a ter uma recorrente utilização da cor em vez de a utilizar como exceção à regra.

A obra não possui um argumento genial e está, até, muito longe disso, mas não deixa de ter pontos interessantes e de proporcionar uma leitura divertida.

Embora os volumes sejam, em parte, independentes uns dos outros, aconselho a que a leitura seja praticada pela ordem em que os mesmos foram publicados, uma vez que acabamos por ter personagens e lugares que coincidem e, em certos pontos da narrativa, vamos reconhecer diálogos presentes em volumes anteriores, ou até traços pessoais dos personagens.

Quanto à premissa em si, essa é a grande razão que me levou à escolha do título. Devo dizer que Miller estagnou muito a série logo desde o primeiro volume. Diria até que os volumes seguintes, e seja qualquer um dos mesmos, trazem muito pouca inovação, sendo sempre basicamente uma variação da premissa do anterior.

A garantia de qualquer um dos sete volumes está em qualquer uma das três palavras utilizadas no título desta resenha.

Explicando de forma simples e sintetizada. Os volumes de Sin City contam sempre com um protagonista do sexo masculino – geralmente bem capacitado para lutar e com um bom padrão moral – que se envolve numa situação violenta com mafiosos ou polícias corruptos – ou ambos -, motivado por um cenário romântico, em que se terá apaixonado pela mulher errada, que acaba por ser assassinada ou raptada por um dos vilões – talvez seja a própria mulher a atraiçoar o nosso herói em alguns casos. Esta será, mais ou menos, a premissa de qualquer um dos sete volumes, com uma ou outra exceção, que acaba por se rever nos mesmos parâmetros, ainda assim.

As personagens de Miller são desinteressantes e sempre semelhantes, não apenas em termos de personalidade, mas também nos seus traços físicos. Acabei por perder conta à quantidade de mulheres sedutoras – que, estranha e convenientemente, acabam sempre por se desnudar em alguma cena -, com corpos iguais, rostos pouco distintos e até pretensões muito parecidas. Embora Miller dê a algumas das personagens femininas uma capacidade de luta formidável, demonstrando a sua força e habilidade, até estas mantêm o mesmo traço físico e a típica personalidade sedutora, por vezes misteriosa ou de um certo glamour.

Vejo as personagens femininas de Sin City a serem, além de objetificadas, muito mal exploradas e estandardizadas. Os homens, que brutos e fortes, parecem ter sempre um enorme problema de contenção, incapazes de resistir às personagens femininas, vistas tantas vezes como “deusas” no universo de Sin City. No fundo, muito pouco nestas personagens será relacionável com o leitor, torna-se difícil compreender o que vai na cabeça dos mesmos e isso acaba por desligar um pouco o motivo da empatia para com o herói de cada volume.

Não fosse eu saber melhor, quase podia ponderar que a persistência de Miller é representativa de uma fantasia pessoal que decidira construir em formato de banda desenhada.

Num plano geral, a obra tem um ritmo bastante razoável e Miller parece estabelecer aqui um carinho pessoal para com os seus personagens. Os locais vão-se tornando familiares e ao fim de poucos volumes já vamos deduzindo o que poderá vir a acontecer, onde, ou até que personagens, já conhecidos, poderão vir a intervir.

Sin City é uma obra fictícia que funciona como um retrato exagerado e negro de grande parte dos problemas da sociedade, referindo-me à prostituição, aos tráficos ilegais, à corrupção e à pedofilia, como alguns exemplos. Uma série brutal e sem censuras.

Apesar da falta de inovação nos diferentes volumes, é impossível não reconhecer a integridade do autor ao longo destes nove anos e destes sete volumes, apesar de parecer que se começa a perder aos poucos à medida que nos aproximamos do fim da série. Além disso, o último volume, embora conclusivo, deixa em aberto a possibilidade para uma futura continuação, que até hoje não ocorreu…

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…