E se nunca tivessem ouvido falar de Jodorowsky?

Descobri Alejandro Jodorowsky!

E, meus amigos, a viagem que foi …

Enquanto continuava a minha busca dos últimos e fugidios fascículos da revista Tintin, fui obrigado, e ainda bem, a enveredar por grupos de BD e pesquisar um sem fim de alfarrabistas.

Para quem deambulava por feiras de livro e de velharias e alfarrabistas locais, no que vim a saber que é apelidado de “Garimpo”, com todo o sentido, esta envolvência em grupos foi enorme, satisfatória e, sobretudo, enriquecedora. Foi justamente numa conversa com um membro de um desses grupos onde procurava números dessa saudosa revista, que saiu a seguinte pergunta:

– A mim, falta igualmente completar a colecção de Jodorowsky, tem alguma coisa dele?

“Ok”, pensei eu, “Jodoquem??? “, respirei fundo, e disse: “Desculpe, desconheço, é algum autor recente?”

A resposta não tardou em forma de um link para uma amostra de uma prancha. E que prancha! Ficção científica no seu melhor! Naquele momento, todos os meus sentidos despertaram e tive de me perguntar: “como é que isto me passou ao lado?”.

Contive-me, recuperei a calma e, muito serenamente, disse ao entusiasta do outro lado da linha: “Sim, parece ser muito interessante, vou ter de pesquisar mais”. Como se adivinhasse o que senti, a resposta do outro lado veio da seguinte forma: “Faça isso, vai-se surpreender, um abraço”.

Assim fiz.  Fui procurando e percebi que Jodorowsky não era um ilustrador, mas um argumentista que tinha trabalhado com Dargaud, Jimenez e Moebius. A pouco e pouco estava a ficar mais curioso e a internet não fornecia senão pequenas amostras quando eu já queria a dose inteira. Assim, enviei a seguinte mensagem ao meu “dealer” de BD: “Psst,  Jodorowsky? Tem alguma coisa?” Minutos depois, vem uma foto de um álbum edição ASA/Público de um livro com duas histórias de uma parceria desconhecida para mim: Jodorwosky e George Bess. Nome do álbum? O Lama Branco com as histórias O Primeiro Passo e A Segunda Visão, veio ainda acompanhado de um “Não sei se tenho algum Incal…” mas não tinha.

Fechado o negócio, começou a ansiedade a tentar dominar, contudo estava determinado a descobrir quem era este homem. A wikipedia já tinha fornecido alguns dados importantes. Percebi que descrevê-lo só como argumentista era desvalorizar o que este homem realmente é: um fantástico criador de histórias, com uma imaginação fora de série que nos leva a viajar por mundos infinitos, quer em livros, quer em filme. Um deles saltou-me à vista: DUNE. OK, eu conheço  o filme de David Lynch, lembro-me de o ver na década de 90 do século passado, e de o ter achado interessante, mas desconhecia que Jodorowsky tinha pensado em fazê-lo primeiro. Decidi pesquisar no YouTube por Jodorowsky’s Dune e encontrei um documentário; e aí sim, aquela frase de início: “A minha ambição foi tremenda, queria fazer algo sagrado, um filme que nos fizesse alucinar como o LSD mas, sem o tomar, para mudar as jovens mentes do mundo todo” é qualquer coisa …

Vejo-me obrigado aqui a fazer uma pausa. Se, por um lado, desejo partilhar toda a viagem desse documentário convosco, sobretudo aqueles que como eu desconheçam Jodorowsky, também me sinto na obrigação de ficar calado, e deixar que cada um embarque nessa viagem e descubra por si próprio, desde com quem trabalhou, a quem queria que participasse, quem ele visionava para fazer um tal papel, como os convidou ou se aproximou deles, quem queria para fazer a banda sonora, quem estava com ele como ilustrador… Eu aconselho a ver, nem que seja o “cheirinho”do trailer que está no IMDb e tirem a vossas conclusões.

Estava ainda a digerir o que o documentário me tinha ensinado sobre -agora, para mim – tão fascinante sonhador, quando ouço o distinto e conhecido som de uma Scooter a acelerar pelo passeio (sim leram bem, o carteiro adora o passeio da minha rua, é a sua pista privada). Trazia a boa nova!

O tão esperado livro que me daria a conhecer Jodorowsky estava agora nas minhas mãos e não me desiludiu. Dividido por capítulos (algo que nunca tinha visto, daquela maneira), é a historia de um Lama no Tibete que tem um sonho premonitório de que algo terrível acontecerá. Percebe que tem de reencarnar, ter um corpo mais jovem, para se tornar num guerreiro e combater um mal que se avizinha; contudo, outras forças são contra este surgimento e quando se dá a origem do novo vaso que servirá de veículo para o Lama, algo terrível acontece – um assassinato. O que os assassinos desconheciam é que havia outra criança a nascer nesse mesmo lugar , uma criança estrangeira , que fica a ser educada como tibetana e, é claro, não é mais do que a encarnação de O Lama. Daí o nome de o Lama Branco.

Este universo de emoções é explorado de uma maneira tão direta, tão impactante, quer em texto, quer em imagem, que não nos transporta para o livro, somos como que empurrados para dentro dele e ali estou, ora no meio de um sonho, a ser crivado de balas, ou a assistir à ideia de como seria um largar de um corpo pelos olhos de Jodorowsky, estou em plena alegria a assistir a um nascimento, e, de repente, horror, uma morte, não uma morte qualquer, uma morte infantil, revolta, um clamar de justiça e nova morte, novo horror, de repente, uma nova vida, esperança… O quê? Uma prova de vida, num ser tão pequeno? Ainda não acabou? Não! Já estou a ver rituais, enganos, seres maléficos, um mundo de podridão onde impera o egoísmo e o egocentrismo e a criança escolhida continua a tornar-se de corpo e alma um guerreiro, sofrendo provações diversas, sentindo dor, sofrimento, amor. Jodorowsky para mim é isto: uma montanha russa de emoções, onde ele é senhor dos carris e se junta a quem consegue construir uma carruagem que nos transporta através dela, sem pensar no final da viagem.

É de uma profundidade imensa, eu “pedi”a dose toda, não foi? Se só a pequena amostra de O Lama Branco mostrou esta viagem o que fará nos restantes???

Quando na última vinheta percebi que tem um “continua”, deu-me um amargo de boca. Estava embrenhado num Tibete onde se vivia em amor, ódio, medo, rancor e é através do sentir que nos descobrirmos… E acabou a dose. A série francesa tem 6 volumes…

Eu fiquei muito agradecido por me terem posto este nome à frente e espero que esta partilha tenha suscitado interesse em descobrir, assim quem como eu, desconheça este autor. Da minha parte, descobri um homem sem medos, confiante, sonhador. Sinto uma ponta de inveja boa, por aqueles que já leram Incal, ou toda a Casta dos Metabarões ou outro álbum que tenha escrito Jodorowsky.

Viajaram por um mundo de emoções fascinante, bravo! Espero fazer o mesmo, e trocar belas sinergias com todos.

SOBRE O AUTOR |

Rui Vasco Cunha
Rui Vasco CunhaColaborador
Criado por tios em 2.º grau em tempos conturbados, teve contacto com BD em muito novo quando descobriu num armário bafiento, em sacos plásticos, uns livros de Michel Vaillant e Taka Takata entre outros. Além de uma rinite alérgica de estimação, mantém a paixão por BD. Gostava de editar o seu próprio livro; enquanto isso não acontece, vai escrevendo…