Os 3 livros de Dylan Dog e 1 de Dampyr editados por A Seita.

É frequente considerar-se que a banda desenhada tem uma ténue barreira entre a arte e o entretenimento. Uma discussão que por vezes é comum a outros meios, como o de videojogos, por exemplo, mas que raramente chega às artes clássicas estabelecidas ou ao próprio cinema. É um facto que as revistas de banda desenhada, cujo formato é habitualmente utilizado por grandes editoras, não são académicas por natureza. São narrativas de entretenimento com propósitos comerciais. Mas o mesmo se poderia dizer de outros meios, onde arte e entretenimento convivem.

Sendo a BD um meio que se popularizou na sua forma destinada a crianças e jovens, tem-se debatido nas últimas décadas para definir a sua identidade enquanto um meio diferente dos demais e alcançar a sua maturidade entre todos os grupos etários. A questão do meio anda de mãos dadas com o reconhecimento académico e da crítica de arte. Se o termo “graphic novel” é atualmente a delícia do marketing, a sua origem remonta a diferentes tentativas anglófonas de tornar mais sério o meio (por oposição a “comics”), algo a que também não fomos estranhos em Portugal com a substituição gradual do termo “histórias aos quadradinhos” por banda desenhada”.

A validação da BD tem sido frequentemente de natureza externa e emprestada à literatura, como a celebração do Prémio Pulitzer ser atribuído a Maus de Spiegelman ou o facto de Watchmen constar de uma simples lista da revista Time onde se colocaram os considerados “100 Melhores Romances de Sempre”. Outra forma desta vã validação externa é a sua leitura estar associada a ídolos dos mais variados campos. Se associados à erudição, ganha pontos extra.

É óbvio que as revistas mensais da italiana Sergio Bonelli Editore têm fins comerciais e são uma peça importante na indústria italiana de fumetti, com diferentes equipas alocadas a cada título para garantir a produção dos mesmos a tempo e horas. Esta obrigação em produzir e de decisões editorais de spin-offs e cancelamentos baseados em vendas em nada é impeditivo de que sejam criadas bandas desenhadas que não se restrinjam ao mero entretenimento.

Dylan Dog, uma das personagens mais famosas da Bonelli e sucesso de vendas, teve também direito à sua validação externa através de uma frase do escritor e filósofo Umberto Eco, que, traduzida, corresponderia a “Eu poderia ler a Bíblia, Homero e Dylan Dog por dias e dias, sem me aborrecer.” E a BD ser um dos temas abordados no seu romance “A Misteriosa Chama da Rainha Loana” contribui ainda mais para tal validação.

Na verdade, se analisada a frase de Eco, a frase teria o mesmo impacto qualquer que fosse a BD por si proferida, em especial quanto mais ao entretenimento estivesse ligada. Ou, por exemplo, livros de anedotas. Mas o facto de escolher uma BD do seu país, publicada em revistas distribuídas em bancas, continua a correr o mundo, mesmo após o seu falecimento. No entanto, quando o criador de Dylan Dog, Tiziano Sclavi, questionou Eco sobre as razões que o levavam a gostar da sua personagem, a resposta dificilmente nos faz crer que o Dylan Dog fosse considerado por Eco como o expoente máximo da BD. Eco afirmou ser bem desenhado, fazer citações inteligentes e porque, embora considerasse ter um conhecimento vasto de anedotas, o Groucho frequentemente contava uma anedota que desconhecia.

Ignorando as validações externas, algo que as atuais edições bonellianas nacionais já não enfrentam é o preconceito relativo às edições importadas do Brasil anteriormente. Revistas de reduzidas dimensões, com papel de má qualidade e capas frequentemente de gosto duvidoso e cores planas, colocavam de pé atrás muitos leitores nacionais que, aliado, ao reduzido preço das mesmas, desvalorizavam, sem ler, o seu conteúdo. E sim, o preço e a qualidade de edição é outra forma de aparente validação. Quanto mais luxuosa for uma edição de BD – caixa, lombada e/ou título em dourado, capa e papel de material de qualidade, grandes dimensões, etc, e alto preço de venda ao público – maior é a assumpção dos leitores de que a obra deve ser de grande qualidade para assumirem o risco da editar nesse formato.

Concluindo o prólogo à análise, que já vai longo, nada como nos debruçarmos sobre os valores intrínsecos de cada obra do que sobre as vãs tentativas de validação externa.

Editar Dylan Dog em Portugal não é tarefa simples, apesar de contar com a omnipresença de João Miguel Lameiras, fã devoto da personagem e, mais importante, que tem garantido, apesar das 3 diferentes editoras onde Dylan Dog foi editado no nosso país, uma continuidade, não cronológica, mas de assiduidade.

Colecção Aleph começou por ser editada pela G. Floy, na qual foram publicados os dois primeiros números da série, ambos dedicados a Dylan Dog. Após a reformulação da G. Floy em 2019, com a mudança dos negócios para a empresa polaca de Christine Meyer, a Mucha Comics, A Seita prossegue com o lançamento dos projetos exclusivos para Portugal, que orbitavam José Freitas na G. Floy, incluindo a Colecção Aleph, em colaboração com João Miguel Lameiras e Mário Marques. É também n’ A Seita que José Pedro Castello Branco se torna um dos editores da série.

Com um historial tão vasto de bandas desenhadas publicadas em Itália, frequentemente autolimitadas à própria revista, a escolha daquelas a publicar acaba por ter em conta elementos tão distintos como acontecimentos importantes na cronologia do personagem ou histórias que cativem os editores. Atendendo aos originais serem a preto e branco – exceto edições originais – não há necessidade em se preocuparem com a colorização, por vezes um obstáculo à edição de material antigo por a mesma se encontrar datada.

Os 3 livros de Dylan Dog editados por A Seita demonstram que o material é escolhido de entre a totalidade dos anos publicados – O Imenso Adeus (revista #74) é de 1992, Após um Longo Silêncio (revista #362) é de 2016 e Trevas Profundas (revista #383) é de 2018 – bem como não ser necessário respeitar a cronologia das mesmas, dado a independência das histórias.

Relembre-se também que a edição de Dylan Dog é relativamente recente no nosso país. Foi inclusivamente antecedida em 2015 pela sátira disneyana Dylan Rat e a Ascensão dos Ratos Chatos, publicada na Disney Comics #134. Seria somente em 2017 que a Levoir editaria a primeira BD deste personagem em Portugal, incluída na sua 3.ª série Novela Gráfica em 2017, Mater Morbi.

Menos de um ano volvido, Dylan Dog foi pela segunda vez editado em Portugal, desta feita com A Saga de Johnny Freak (Colecção Bonelli vol. 3, Levoir), que incluiu a BD clássica do personagem publicado no #81 da sua série mensal, a qual inaugurou a série que a editora brasileira Conrad dedicou a Dylan Dog. O livro foi complementado pela sequela publicada no #127, um inédito em língua portuguesa. Seguiu-se o volume 10 da referida coleção, com o título Os Inquilinos Arcanos, onde se apresentavam 3 BD curtas, incluindo a que deu nome ao volume e A Grande Nevada e Bailando com um Desconhecido.

Após a experiência resultante na trilogia de livros lançados na Levoir, seguiram-se duas obras editadas pela G. Floy, que inauguraram a Colecção Aleph naquela editora. Com esta mudança, mantém-se a capa dura, mas muda-se o papel e as dimensões, que passam a se aproximar mais do formato italiano, menor que o norte-americano. Nesta fase, foram editados os volumes O Velho que Lê (onde também constava a BD curta “A Pequena Biblioteca de Babel”) e Até que a Morte vos Separe.

Paralelamente, Dylan Dog já foi alvo de duas exposições em território nacional. Primeiro, na exposição comissariada pelo site Bandas Desenhadas no XIV Festival Internacional de BD de Beja, a propósito da presença de Fabio Celoni em Portugal, tendo o autor regressado em 2019 ao Coimbra BD 2019 com uma nova exposição.

Trevas Profundas, o primeiro livro de Dylan Dog publicado por A Seita, foi lançado em outubro de 2019, a tempo do Amadora BD 2019. É a BD mais recente de Dylan Dog editada em Portugal e uma das razões da sua escolha será possivelmente ter um argumento coescrito pelo realizador de cinema (validação externa) Dario Argento com Stefano Piani, ilustrado por Corrado Roi. Sobre esta obra já escrevemos:

Entre o onírico e o real, Dario Argento, com o auxílio de Piani, coloca Dylan Dog numa demanda à procura de uma modelo por quem fica obcecado, entrando no universo BDSM. Roi nunca desaponta.

– Nuno Pereira de Sousa (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

Uma narrativa releva-se bem construída quando a inserção da temática BDSM na série Dylan Dog não destoa.

– Susana Figueiredo (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

A temática BDSM tem sido pouco abordada na banda desenhada editada no nosso país, sendo quiça esta outra das razões pela eleição desta história como publicável entre as demais do Dylan Dog. Roi faz um excelente trabalho na ilustração. Quanto ao argumento foca-se provavelmente mais na obsessão de Dog com a modelo, sendo pertinente e talvez mais interessante a introdução na trama do conceito dos “whipping boys”.

Sempre houve alguns factores omnipresentes nas bandas desenhadas de Dylan Dog que nunca gostei e que também estão presentes neste volume, como não poderia deixar de ser. Embirro com a expressão “Judas Dançarino”, tão característica e tão utilizada pelo personagem. Quebra-me sempre a narrativa, pois não consigo achar credível o seu uso. Outro grande problema é não apreciar minimamente o seu personagem coadjuvante. Talvez por não ser fã dos Irmãos Marx, a técnica tão habitual da Bonelli em roubar rostos de atores de cinema para os seus personagens, teve, no que toca a mim enquanto leitor, um mau resultado em Groucho, de quem também retirou o nome. Quebra-me completa-me a imersão na leitura ver o ator – ou a sua caricatura – prestes a ser o comic relief e a relembrar-me constantemente que ao invés de algo com alguma seriedade ou maturidade estou a ver um dos seus filmes, o que, vos garanto, me é penoso. Mas ultrapassável, não digo que não. E, obviamente, não me repetirei nestas questões na análise dos demais volumes.

Para a Coimbra BD 2020 (para o qual estava planeada a presença do ilustrador Ambrosini, cancelada devido à pandemia de COVID-19), A Seita publicou não um mas dois livros de Dylan Dog, O Imenso Adeus e Após um Longo Silêncio.

Sobre o primeiro, já escrevemos:

Uma demanda onírica e nem sempre linear por uma primeira paixão de verão. Ambrosini utiliza as aguarelas para as analepses, por oposição à tinta-da-china, criando um instrumento gráfico de rápido reconhecimento cronológico.

– Nuno Pereira de Sousa (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

Romântica, sem ser lamechas, trata-se de uma história envolvente, brilhantemente ilustrada.

– Susana Figueiredo (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

Marcheselli e Sclavi coescrevem este argumento, uma homenagem a um primeiro grande amor. Sendo Dylan Dog apelidado de detetive ou investigador do paranormal, do pesadelo e/ou do oculto, não poderiam-no fazer sem uma dose de esoterismo. Sendo a história da revista Dylan Dog mais antiga entre as editadas no nosso país, é a prova de como a não utilização de cor no passado facilita a edição contemporânea de BD sem a sensação de ser uma obra datada.

Sobre Após um Longo Silêncio já escrevemos:

Casertano faz um bom trabalho a preto e branco, com um argumento fantástico de Sclavi.

– Susana Figueiredo (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

Se Casertano não desaponta e a utilização esporádica de fotografias permite uma imersão mais real, a abordagem do tema do alcoolismo não é das mais interessantes, outras das características do personagem que frequentemente gera histórias aborrecidas.

Mas Dylan Dog não é a única série bonelliana italiana editada na Colecção Aleph. Mimetizando a Colecção Bonelli da Levoir, foi também editada por A Seita mais uma aventura de Dampyr passada no nosso país. Publicada em outubro de 2019, teve direito a exposição no Amadora BD 2019.

Sobre este volume já escrevemos:

Para os que acharam insosso o primeiro livro de BD de Dampyr editado em Portugal e ficaram com saudades das aventuras publicadas pela Mythos que chegaram em tempos às bancas portuguesas, certamente irão gostar deste volume. Os que não conhecem o personagem mas são fãs de Lovecraft ou Fernando Pessoa, provavelmente também. E até os fãs de Carl Barks possivelmente farão um sorriso.

– Nuno Pereira de Sousa (Bandas Desenhadas, 30 de junho de 2020)

Coprera em grande forma numa interessante história de Boselli.

– Susana Figueiredo (Bandas Desenhadas, 31 de julho de 2020)

Dampyr foi um personagem que segui com grande atenção quando as suas primeiras 12 bandas desenhadas chegaram a Portugal há 15 anos pela importação das revistas brasileiras da Mythos. No entanto, aquando das posteriores aventuras passadas em Portugal, editadas pela Levoir, interroguei-me se o género me tinha deixado de interessar ou se as aventuras de Harlan Draka – nascido da união entre um mestre da noite e de uma mulher humana – no nosso país tinham ficado aquém do o que a memória reteve das primeiras bandas desenhadas.

Felizmente, A Seita editou O Suicídio de Alesteir Crowley, com argumento de Mauro Boselli e desenho de Michele Cropera, o que me permitiu tirar as dúvidas, desfrutando em pleno de uma banda desenhada que não só me trouxe de volta uma boa aventura de Dampyr como Fernando Pessoa e o universo lovecraftiano.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.