Um olhar a O Homem que Matou Lucky Luke.

De entre os vários álbuns de BD franco-belga que possuía na infância, era impensável não existir um de uma das séries mais populares, Lucky Luke. Mas assim acontecia, nunca nenhum álbum do cowboy mais rápido que a própria sombra me tinha sido oferecido. Um certo dia, decidi a mudar tal destino e na posse do dinheiro que tinha juntado dirigi-me ao primeiro piso do supermercado à beira da casa dos meus pais, cujo primeiro piso funcionava como uma espécie de livraria e papelaria.

Numa mesa rasteira, encontravam-se sempre espalhados em grande desarranjo dezenas de dezenas de álbuns de BD infantil da Meribérica e, embora não fosse permitida a leitura, era possível manusear por alguns instantes cada álbum. Vários dos meus exemplares da série Astérix tinham sido adquiridos dessa forma.

Desconheço exatamente porque a minha escolha do primeiro álbum de Lucky Luke recaiu num dos livros mais recentes entre os editados pela Meribérica, O Bandido Maneta de Bob de Groot e Morris, mas o acaso não foi bondoso com este leitor. Como todos os álbuns desta altura, foi lido e relido muitas vezes com grande satisfação, mas a consciência de que não se encontrava no top das minhas preferências, como o humor delirante de Astérix ou as aventuras de Spirou, para citar somente dois exemplos, imperava.

O meu percurso de leitura de Lucky Luke foi, portanto, realizado com muitos poucos mais álbuns, sem nenhum interesse em especial da minha parte, considerando-o mais aborrecido que a maioria da BD franco-belga que lia.

Somente muitos anos mais tarde descobri os livros do Lucky Luke do homem que o salvou, René Goscinny. Afinal, o autor que escrevia o meu adorado Astérix também tinha escrito alguns álbuns de Lucky Luke? E, melhor, eu divertia-me muito com a sua leitura?

Hoje, com o conhecimento quase instantâneo ao nosso alcance nesta era da informação, seria impensável para qualquer criança ou adolescente interessado não descobrir propositadamente, ou inclusivamente por acaso, a importância que Goscinny teve na conquista dos leitores do Lucky Luke criado por Morris, assumindo o seu argumento em pleno desde 1955 até ao seu falecimento. Mas os tempos eram muitos diferentes então.

Desde esse momento, existiram dois diferentes Lucky Lukes nas minhas leituras, o de Goscinny (o meu preferido) e o que não era escrito por si (que ora me aborrecia, ora era mediano). E, talvez, por a descoberta do Luke de Goscinny ser mais tardia no que toca aos “heróis da infância” nunca foi propriamente o personagem a me cativar propriamente – e as animações televisivas pouco ritmadas também em nada o ajudaram – mas sim os álbuns de Lucky Luke escritos pelo argumentista de Astérix (ignorando, então, o próprio anacronismo desta associação de ideias).

O posterior humor das séries spin-off de Lucky Luke também não me conquistou, fosse Rantanplan – que me entediava – fosse Kid Lucky, este último inicialmente criado por Jean Léturgie e Pearce (pseudónimo coletivo de Didier Conrad e Yann) antes de ter direito a série própria por outros autores, tendo Léturgie e Pearce criado uma nova série independente denominada Cotton Kid (cujo primeiro volume foi publicado entre nós pela BookTree), onde exploraram diversas ideias que tinham para Kid Lucky.

A série que sucedeu à de Morris, As Aventuras de Lucky Luke segundo Morris, não solucionou os meus problemas com o nosso cowboy, que não se encontravam obviamente no desenho mas em achar os argumentos enfadonhos. E o meu interesse só foi renovado recentemente com o primeiro álbum de Lucky Luke (vu par…).

À semelhança da série Spirou et Fantasio par… – que, infelizmente, permanece inédita no nosso país, não tendo existido interesse da editora que detém os seus direitos para a sua publicação – em Lucky Luke (vu par…) cada autor faz a sua homenagem ao personagem.

E se, pessoalmente, teria ficado em êxtase se alguma editora nacional tivesse anunciado a publicação de Spirou et Fantasio par…, o anúncio d’ A Seita em publicar integralmente Lucky Luke (vu par…) não só é de celebrar pelas obras em si como também por abrir um precedente de romper o monopólio do “não editamos nem deixamos editar” que impera um pouco por todo o mundo e em Portugal não foge à regra.

Publicado no mercado franco-belga em 2016, ano em que se comemoraram os 70 anos da criação do famoso personagem de Morris, O Homem que Matou Lucky Luke, da autoria de Matthieu Bonhomme, inaugurou, deste modo, a série. No entanto, até ao momento, somente seria editado mais um álbum nessa série no ano seguinte, Jolly Jumper ne répond plus, da autoria de Guillaume Bouzard. Curiosamente, na Alemanha, após a edição destes dois álbuns, em 2019 foi editado um terceiro volume na série alemã (Lucky Luke Hommage) concebido pelo autor de BD alemão Mawil e editado pela Egmont, intitulando-se o álbum Lucky Luke sattelt um.

A Seita anunciou a edição não só do álbum de Bouzard mas também o do álbum alemão de Mawil, completando-se deste modo a série até ao momento – e espalhada por dois países e editoras distintas -, demonstrando a seriedade da sua proposta e o respeito pelo leitor. Inclusivamente, o plano d’ A Seita seria a publicação do álbum de Mawil antes da sua edição em França, plano esse realizado antes da pandemia da COVID-19 e que não sabemos se se irá concretizar mas que, na realidade, é indiferente para o leitor nacional.

Para esta empreitada na cooperativa editorial, multiplicaram-se os editores. À coordenação de José Freitas, associam-se os editores João Miguel Lameiras, Mário Marques e José Pedro Castello Branco (todos os três, editores da Colecção Aleph), Bruno Caetano (Comic Heart), e ainda João Antunes e Júlio Moreira.

Da ficha técnica do álbum O Homem que Matou Lucky Luke, não consta o número de exemplares da primeira tiragem da edição nacional efetuada, mas 750 exemplares correspondem à capa da versão em preto e branco do álbum no mercado franco-belga e constituem a edição exclusiva da Fnac do livro. Relembre-se que esta obra recebeu o Prémio belga Saint-Michel de Melhor Álbum em 2016 e os Prémios do Público Cultura e dos Liceus no festival de Angoulême em 2017.

Sobre o álbum, já escrevemos:

Entre o cartoony e o desenho realista, a versão do Lucky Luke de Matthieu Bonhomme é provavelmente a mais interessante desde o desaparecimento de Goscinny.

– Nuno Pereira de Sousa (Bandas Desenhadas, 30 de junho de 2020)

Uma visão menos humorística e mais western de Lucky Luke com uma história interessante.

– Susana Figueiredo (Bandas Desenhadas, 30 de junho de 2020)

João Miguel Lameiras assina um generoso posfácio, profusamente ilustrado com esboços e ilustrações a preto e branco de Bonhomme para a presente banda desenhada, que prova ser uma leitura que certamente agradará os leitores e enriquece a edição nacional.

Quanto à obra, aquela minha pequena frase supracitada resume muito bem a minha opinião sobre este livro, no qual podemos ainda salientar a qualidade de impressão e papel utilizado.

Mas seria também esse o meu pequeno reparo a Bonhomme, o ter optado graficamente por um estilo mais cartoony que o seu habitual e pelas cores planas. Esta é uma oportunidade dos autores criarem a personagem como se fosse sua e o compromisso entre o que anteriormente foi realizado em Lucky Luke e a identidade gráfica do autor não beneficiaria, em princípio, a obra. No entanto, também não prejudicou em nada a obra em questão. Apenas ficaremos sempre a imaginar “e se…”.

Venham os próximos!

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.