Uma viagem pelos alfarrabistas e revistas em segunda mão, com o propósito de completar a coleção da revista Tintin.

Garimpar. Em sentido figurado, é a ação própria daquele que procura algo com afinco ou de forma minuciosa. Foi, sem o saber, o que andei a fazer ao tentar completar a coleção que me foi dada dos fascículos da revista portuguesa Tintin. Eu, pura e simplesmente, costumava dizer que “andava à caça” e só há bem pouco tempo soube que se usava esse termo. Se é prática comum ou não, desconheço, mas considero-o apropriado.

O facto de recentemente ter terminado esta maravilhosa coleção fez-me levantar um sem número de dúvidas: será ainda uma revista cobiçada, sobretudo pela camada mais jovem? Há ainda mercado? E os números? Conseguem-se todos?

Antes de responder… Permitam-me que faça uma pequena pausa, para elucidar os leitores menos informados sobre o que falo, muito sucintamente, atenção, que estas revistas dão pano para mangas e camisolas com capuz, mas teremos tempo para aprofundar. Resumidamente, aqui vai. Em 1968, é lançada em português uma revista de banda desenhada que pretendia demonstrar o melhor da BD franco-belga. É assim criada uma versão portuguesa da Tintin francófona, que é publicada pela Bertrand. Tinha como chefe de redação um senhor de nome Diniz Machado, e o seu adjunto, que em muito dinamizou a revista quer pelos artigos que expunha quer pelo correio que respondia, era o Sr. Vasco Granja (eu, fiquei a conhecê-lo como o pai da Pantera Cor-de-Rosa na década de 80 do século passado). E assim foi. Durante 15 anos, Tintin, Astérix, Lucky Luke, Michel Vaillant, Bernard Prince e muitos outros foram compilados em 750 revistas que saíram semanalmente com a hipótese de serem encadernadas a cada semestre. É o próprio Granja, que nos últimos anos a tenta inovar, introduzindo Hugo Pratt (pai de Corto Maltese) e alguns autores portugueses como Fernando Relvas e o seu Espião Acácio. Porém a Editora, a Livraria Internacional (que fica com parte dos direitos da revista depois de 25 Abril de 1974), com graves problemas financeiros, e a Bertrand, que não via o retorno financeiro desejado, decidem descontinuar a revista, e assim, a 2 de Outubro de 1982, 15 anos e 749 revistas (fora as cinco anuais) depois, surge a última revista, marcada por um número de histórias incompletas e sem uma capa alusiva a uma despedida. Fim inglório, para uma das melhores revistas portuguesas de banda desenhada, reconhecida internacionalmente pelo óptimo trabalho de mostrar o que de melhor se fazia em BD até então, uma sobrevivente que assistiu a uma queda de cadeira, a uma queda de regime, a um nascimento de uma democracia, sempre a encantar jovens dos 7 aos 77 anos.

Depois da breve elucidação, voltemos às minhas questões iniciais: é uma revista cobiçada? Ainda há mercado? Conseguem-se todos os números?

As respostas são dois sins e um talvez. Sim, creio ser cobiçada pela “pegada” cultural que deixou; temos de ter em conta que está compilado em 750 revistas um acervo bastante rico não só em banda desenhada, mas também em artigos, entrevistas com autores da época, ou correspondência entre a revista e os leitores. Não gritarei aos quatro ventos que é indispensável numa biblioteca e que todos a deveriam ter, mas é uma coleção de peso e tem procura.

Sim, ainda há mercado. Encontra-se muita gente que tem algumas revistas, ou partes de coleção encadernadas; outros há que têm alguns semestres, mas por qualquer motivo não fizeram a coleção toda e sabendo que há uma procura vão pondo à venda; há alfarrabistas e livrarias que ainda vão tendo alguns números, em feiras de livro e velharias sempre se vai encontrando, tendo em atenção, sobretudo nesta última, ao estado das mesmas, pois são muito manuseadas e muitas vezes mal acondicionadas.

O que nos leva à última pergunta: conseguem-se todos os números? Talvez, se tivermos em conta que são 750 números com milhares de exemplares, não deveria haver problema, mas há alguns obstáculos. Primeiro, a Bertrand a cada semestre lançava uma capa para serem encadernados o que resultou em muitas coleções estarem encadernadas e, por isso, se estimadas, de muito mais valor, ou seja, em alguns anos conseguir este ou aquele número solto já é mais difícil. Segundo, temos igualmente o factor tiragem: houve anos melhores e anos piores o que torna a busca de alguns anos ainda mais difícil de encontrar. Exemplo disso é justamente o último ano, que teve uma tiragem já de si muito reduzida. Dada a relativa raridade, os números do último ano são frequentemente caros, graças a essa chamada combinação explosiva resultante da procura e da oferta, com preços que podem estar inflacionados. Algo muito importante, é que estes para estes últimos números não saiu uma capa para encadernar, ou seja, estão soltos – encontrar todos os números seguidos em bom estado de conservação vale a pena se o preço for justo. Por último, refira-se a raridade de algumas revistas devido à sua antiguidade. Eu, pessoalmente, considerei por muito tempo que a maior dificuldade seria encontrar a n.º 1 do primeiro ano por esse motivo. Estava redondamente enganado – desse exemplar encontrei 6 exemplares. Qual o problema? Duas pessoas só vendiam o semestre completo a um preço que faria o capitão Haddock ter um acesso de raiva; outra só vendia o semestre completo e a preço aceitável, mas recusei porque já tinha conseguido várias do semestre faltando mesmo a n.º 1; outra estava num alfarrabista de Lisboa, mas pensei eu, que devia ser uma fortuna; outras duas estavam à venda, mas a preços exagerados, a meu ver. Perante isto, e por uma questão de qualidade, entrei em contacto com o alfarrabista e fiquei surpreendido: preço aceitável, em ótimo estado, como podem ver pela imagem (sim, como o Patinhas também tenho a n.º 1!).

Isto para demonstrar que é preciso ter cuidado e garimpar com calma. Há muito boa gente que acha que algumas revistas valem ouro, dada a dificuldade em encontrar certos números. Entendo. Mas prefiro procurar quem as venda a um preço mais justo.

As mais difíceis para mim, e realmente não encontrei muitas, são justamente as do primeiro, segundo e terceiro anos sobretudo as n.º 1 e 2 desses anos com preços pouco decentes.

Com muita pesquisa, ajuda de entusiastas, vendedores honestos e, como em tudo, uma dose de sorte ao ter encontrado alguns comerciantes de livros em feiras de velharias e até online que me venderam e, passo a expressão, e desculpem se ofendo alguém, ao preço da “uva mijona” algumas raridades dos primeiros anos, consegui terminá-la. Estou feliz!

Em modo de conclusão, aconselho alguma cautela e cabeça fria. Verifiquem in loco, no caso das feiras, se estão completas, pois uma boa capa não quer dizer uma boa revista. Se alguém tem para venda um semestre difícil, percebam que por vezes pode compensar o investimento, mas atenção aos preços que praticam alguns particulares; pesquisem alfarrabistas e livrarias antigas, pois podem ter surpresas agradáveis; se surgir a hipótese de comprar um semestre encadernado, certifiquem-se de que está completo e vejam qualidade preço segue a mesma regra: os primeiros anos são mais caros mas do 6.º ano para cima costuma haver com mais frequência, com a exceção que confirma a regra, o mítico 15.º ano. Relativamente a esse, eu tenho muita pena mas têm de se preparar para a eventualidade de largarem umas “lecas”, se, não for o caso, inveja da boa, pois imagino que é como ganhar o Euromilhões. Regateiem muito e pesquisem bem antes de uma compra, sobretudo se forem daqueles que são um bocado mais complicados de encontrar, como, no meu caso, a revista n.º 1 do 2.º ano, que só vi à venda solto num sítio e aí tenho de confessar compensou o investimento.

A ti, Garimpeiro, só te desejo boa sorte.


Revisão: Paula Nogueira

SOBRE O AUTOR |

Rui Vasco Cunha
Rui Vasco Cunha
Criado por tios em 2.º grau em tempos conturbados, teve contacto com BD em muito novo quando descobriu num armário bafiento, em sacos plásticos, uns livros de Michel Vaillant e Taka Takata entre outros. Além de uma rinite alérgica de estimação, mantém a paixão por BD. Gostava de editar o seu próprio livro; enquanto isso não acontece, vai escrevendo…