Blankets: Biografia de um Craig Thompson puto.

A literatura é um mundo, a banda desenhada um continente, uma imensidão de tudo por explorar. Por mais que achemos que somos muito conhecedores do género e que já lemos de tudo e mais alguma coisa, nunca estaremos, nem perto, de conhecer metade. Façam-se dezenas de subgéneros e nunca teremos tempo para os conhecer a todos, mas nada nos impede de tentar… E quando há uma obra que sobressai, que se destaca sobre todas as outras, sabemos imediatamente que temos de a conhecer. Acaba por se tornar um ícone, uma leitura obrigatória, talvez até, um legado, a chamada obra-prima.

Blankets de Craig Thompson é um desses.

Um livro que, à primeira vista, impõe respeito. As suas quinhentas e muitas páginas podem facilmente deixar os leitores mais preguiçosos à beira de um ataque de ansiedade ao ponderar sequer a sua exploração, mas nada temam. Blankets foi, na verdade o maior livro que já li em menos tempo. O ritmo que Thompson dá à história é absolutamente maravilhoso. Rapidamente nos apercebemos que o tamanho da obra não é um impedimento, mas sim uma mostra do tamanho da sua “grandeza”.

Em Blankets não vamos encontrar muitas vinhetas por página, ou extensas descrições dos momentos e, nem sequer, diálogos intermináveis e pesados. Thompson tem a receita certa para dar ao leitor um tempo bem passado com um livro fisicamente pesado nas suas mãos. Ao fim de poucas páginas dá-se logo aquele “clique”, em que parecemos sentir que o autor nos força a continuar a leitura, tira-nos qualquer vontade que pudéssemos ter de pausar… Será para vós uma sensação incógnita?

Em Portugal, a Devir não traduziu o título, tendo optado por deixar o original, Blankets, que, traduzido à letra, significa cobertores ou mantas. A obra chegou ao nosso país em 2011, oito anos após a publicação original pela Top Shelf Productions.

Esta obra trata-se de uma biografia inicial da vida de Thompson, em que o mesmo resolveu focar-se apenas na sua infância, com uma forte influência cristã no seio da sua família e, mais tarde, na sua adolescência ou pré idade adulta, mais especificamente no seu fortemente vivido primeiro amor.

A premissa de Blankets não é complicada e, em primeira instância, nem parece uma biografia muito significante ou distinta de outras que conheçamos ou até das nossas próprias. Ao contrário da biografia de Marjane Satrapi, em Persépolis, a de Thompson não parece extraordinária. No entanto, é a forma usada pelo autor para contar a sua história que o faz merecer os dois prémios Eisner atribuídos à mesma.

Nesta obra o autor sabe transmitir aquilo que sente ou que sentiu nos momentos mais contrastantes, representando-os na banda desenhada de uma forme sublime, focada e bela. A arte parece remeter-nos para um ambiente imaturo, inocente, inclusive infantil. O seu traço é muito próprio e alegre. A opção pelo preto e branco não deixa a obra à mercê das expectativas nem lhe tira o mérito.

Apesar de parecer que Thompson tem uma memória extremamente boa, é impossível não associar uma boa parte dos acontecimentos a uma criatividade autêntica. Ainda assim, acaba por associar a momentos simples, aspetos muito bonitos, referências engraçadas e um certo humor simples. A capacidade que o autor tem para nos transmitir todos os aspetos mais tocantes de se ser uma criança são de louvar.

Para que a história se torne mais envolvente e não pareça apenas uma progressão onde os acontecimentos passados ficam esquecidos, Thompson utiliza um símbolo que vai também servir de motor à premissa desenvolvida. Ao longo da obra vamos sendo apresentados a vários cobertores, mantas ou lençóis, desde os tempos em que partilhava a cama com o irmão mais novo, ao cobertor que lhe é oferecido pela sua primeira paixão, que o terá manufaturado. Este último parece ter um destaque especial e vai muitas vezes enfeitar as páginas de Thompson com os vários padrões retalhados no mesmo.

Tenho a certeza de que o final desta história me continuará a fazer “comichão” durante anos vindouros, mas não posso descredibilizar ou minimizar o impacto do mesmo. A verdade é que fico com uma estranha sensação de que não devia ter sido assim, de que deveria haver um final mais palpável, mais objetivo, que soasse mesmo a fim, mas afinal a vida não é mesmo assim. Tratando-se de uma biografia, é importante que a abordagem na leitura seja também diferente e que aceitemos as injustiças e infelicidades decorridas.

Não me cansa recordar a beleza de Blankets no seu todo. A obra leva-nos mesmo para um ambiente acolhedor, onde quase podemos sentir novamente o que é ser criança e adolescente. A nostalgia vai fazer o leitor recordar tempos melhores, tempos de inocência, que terão, certamente, tido as suas fases menos boas e, é sobre isso que Thompson nos fala através das suas pranchas.

Este é um livro que aconselho a todo o tipo de leitor maduro. Muito dificilmente não o deixará imerso na beleza e ingenuidade do seu próprio passado, através da influência do passado de Craig Thompson.

Blankets
Craig Thompson
Editora: Devir
Série: Biblioteca de Alice, vol. 1
Ano: 2011
Páginas: 592, preto e branco
Encadernação: capa dura com sobrecapa
Dimensões: 17 x 24 cm
ISBN: 978-989-559-199-2
PVP: 39,99€

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…