O Ciclo da Morte.

A “O Ciclo da Mãe” e “O Ciclo da Esposa”, sucede-se agora “O Ciclo da Morte” neste fresco monumental da Roma de Nero que é a série Murena.

“Espinhos”, o primeiro álbum deste ciclo, e o nono da série, será o último desenhado pelo saudoso Philippe Delaby que morre de ataque cardíaco poucos meses depois de ver este seu último trabalho publicado. Uma partida prematura do homem que elevou esta série a um lugar cimeiro no panteão da BD mundial.

O segundo álbum deste ciclo, “Le banquet”, era particularmente aguardado pelas centenas de milhares de fãs de Murena em todo o mundo. Entre a publicação de um e de outro, passam quatro anos, o que não é de estranhar. Acompanhar a excelência de Delaby não é fácil, dado o elevado nível gráfico a roçar a perfeição a que habituou os leitores.

O escolhido por Jean Dufaux é Theo Caneschi, com créditos firmados em séries como Le Pape Terrible e Le trône d’Argile. E se, por um lado lamentamos a ausência do perfeccionismo de Delaby, por outro temos de concordar que Theo traz à série um outro toque igualmente interessante, como veremos mais à frente.

Dufaux mantém-se ao leme da saga com mestria, levando-nos agora para o momento na vida de Nero em que o Imperador decreta a perseguição aos cristãos. Murena já não é o mesmo e, entre tentativas de ajudar aqueles que tudo perderam no grande incêndio e a reaproximação a Nero, acaba nos braços ora ternos ora manipuladores de duas mulheres. E a sua perda de memória vai lançá-lo no meio de uma conspiração para assassinar Nero.

Vejamos os dois álbuns já publicados neste ciclo e uma pequena preview do terceiro que será publicado em novembro de 2020.

9 – ESPINHOS

Originalmente, é publicado em álbum em 2013 pela Dargaud. Em Portugal, foi editado pela ASA também em 2013.

Ano de 64.  Rescaldo do grande incêndio. Roma está envolta num mar de cinzas sobre o qual Nero sonha e planeia reconstruir uma cidade digna da sua grandeza.

Mas antes de se entregar a essa tarefa, o demiurgo humano deve apaziguar a cólera do seu povo que ameaça voltar-se contra si após os rumores que circulam em Roma e que sussurram ser o imperador o culpado do grande incêndio que devastou grande parte da cidade. Urge oferecer à turba enfurecida a vida dos culpados. E se a comunidade judaica do Lácio é uma forte candidata ao lugar de réu, é sobre um grupo ainda mais restrito que cairá todo o peso do crime – a seita dos cristãos, liderada por Pedro. A divisa romana “Sangue e jogos” aplicar-se-lhes-á implacavelmente, dando ao povo uma distração que uma outra divisa romana explica bem: “Pão e circo”.

Mas não se julgue que a tomada de decisão, por parte de Nero, de culpar e perseguir os cristãos é tomada num impulso de loucura. Nero hesita, duvida. Tigelino manobra contra a comunidade hebraica e manipula o imperador. No processo, Tigelino amealha denários, Nero escapa de uma crise política e Popeia consegue, de algum modo, proteger os seus amigos judeus.

Enquanto isso, Lúcio Murena entra numa espécie de clandestinidade e funde-se no seio da comunidade cristã, o que lhe rende um certo sentimento de redenção. E, com os favores da jovem e sensual Cláudia e do romance que se adivinha, parece ganhar novo alento. Um alento que acaba por mitigar o ódio que sentia por Nero.

Quanto a mim, Dufaux e Delaby atingem um pico nas suas carreiras com este álbum. E se “Espinhos” poderia ser um agradável divertimento, um relaxante momento de leitura, o maquiavelismo do argumento e o realismo do desenho vêm endurecer a visão de uma Roma dura e cruel que já transportávamos dos álbuns anteriores.

Entre um Nero rodeado de dúvidas e que ainda não foi consumido pela loucura, um Lúcio Murena que renasce para a vida graças aos lábios experientes de Cláudia, e a crueldade despida de escrúpulos do poder imperial contra os cristãos, Dufaux oferece-nos uma narrativa complexa e inteligente que Delaby transforma de forma grandiosa em imagens.

Para além dos vários momentos em que assistimos às movimentações de Tigelino, quer com Nero, quer com Popeia ou (S.) Pedro, e aos bastidores da política, tão bem narrados por Dufaux, tenho para mim que este álbum tem três momentos-chave que comprovam, igualmente, a superioridade da narrativa e do desenho.

Um primeiro momento é aquele em que finalmente assistimos, no curso de 6 violentas páginas, ao epílogo do confronto entre os gladiadores Balba e Massam.

Toda a luta parece lógica, sem movimentos supérfluos, numa coreografia heróica, mas realista.

Os detalhes do desenho são impressionantes. Desde as protecções de braços ao cordame que compõe a rede ou as veias inchadas na mão de Massam, tudo é desenhado com um requinte que se grava na retina do leitor por anos a fio.

E as expressões faciais de esforço, sofrimento, angústia e raiva dos dois gladiadores demonstram bem a razão porque Delaby era considerado um mestre na sua arte.

O segundo momento-chave é o suplício, crucificação e morte do apóstolo Pedro. Ao longo de 3 páginas, o silêncio absoluto do mais próximo seguidor de Cristo chega a ser incomodativo e cria um ambiente pesado, reforçado pela narração de Dufaux em caixas.

O rigor histórico da cena, tanto a nível da narração como do desenho é impressionante e pouco habitual. O método real da crucificação romana está todo lá, desde a tortura anterior à crucificação, a forma da cruz – a chamada cruz tau – ao apoio de pés que permitia que o supliciado morresse mais lentamente.

É uma cena muito emotiva, marcada pela coragem de Pedro, a indiferença dos legionários e a estranha angústia do centurião, com um ambiente de final de tarde, como que anunciando o fim, que chega na noite escura marcada pelas fogueiras longínquas onde queimam os restantes supliciados.

Antes de falar do terceiro momento-chave, gostaria de realçar, mais uma vez, a elegância dos pormenores com que Delaby nos brindou neste seu opus final.

O cuidado com o vestuário, as armaduras e as jóias…

…o detalhe e rigor histórico de certas cenas, como a que se representa em baixo, onde legionários tiram da cruz os crucificados sem se esquecerem de tirar também os pregos pois o ferro era mais precioso então do que agora…

…a composição de cenas de rua, em tabernas ou em palácios e os vários planos de perspectiva em plongée

…tudo se aglutina para tornar esta obra obrigatória muito para além do mundo da 9.ª Arte.

Uma nota breve acerca das cores. A colorização a cargo de Sebastien Gérard, embora muito boa, não chega ainda ao nível de Jérémy Petiqueux.

E, por fim, o terceiro momento-chave. O momento da polémica que deu origem a uma segunda versão do mesmo álbum com capa diferenciada e que em seguida se apresenta.

Tudo gira à volta de uma cena mais escaldante entre Murena e Cláudia. Originalmente, quatro pranchas narravam o encontro entre os amantes. Mas a Dargaud achou a cena muito forte para o público em geral e censurou-a. O resultado final, na edição dita para o “grande público” foram as duas pranchas seguintes.

Desta edição fizeram-se 100.000 exemplares. Uns meses mais tarde, é publicada nova edição, com uma tiragem muito reduzida (para França) de 7.000 exemplares. Nesta são incluídas as duas pranchas em falta e, suponho por pressão de Dufaux, que resolve dar um estalo com luva de pelica ao director editorial da Dargaud, a edição é ainda enriquecida com um caderno acerca da sexualidade no tempo dos romanos, escrito por Claude Aziza, latinista e eminente especialista em história da Antiguidade Clássica.

A cena em causa, esteticamente muito bela, não é mais do que um ménage à trois, algo que não deveria chocar numa série que já teve incesto, violações, orgias, tortura e muito sangue, tudo dentro do contexto histórico da sociedade romana.

Para concluir, o traço preciso de Delaby torna-se meticuloso, e o seu realismo torna-se real, fazendo prova de um domínio da técnica que raramente permite falhas.

Além disso, Delaby sabe dar toda a força necessária a cada uma das suas vinhetas, conferindo assim a cada lugar uma ambiência própria e a cada protagonista uma personalidade única.

Com este último trabalho do desenhador, Dufaux e Delaby quase criam um cânone e cristalizam uma certa forma de excelência que podemos ver um pouco na série Alix Senator.

10 – LE BANQUET

Publicado originalmente em álbum em 2017 pela Dargaud. Até à data da publicação deste artigo, não tem edição em Portugal.

Corre o ano de 65 d. C.. Na sumptuosa casa do novo-rico Trimalquião, um gigantesco banquete pretende fazer com que a aristocracia romana esqueça os efeitos que o grande incêndio de 64 ainda faz sentir.

Entre os convivas está o imperador. Petrónio, o seu árbitro da elegância, promoveu o reencontro de Nero com Lúcio Murena. E embora estes dois se reconciliem, Murena não hesita em advogar a inocência dos cristãos e o erro das perseguições que Nero lhes continua a mover.

À saída do banquete, a mão invejosa e cruel de Tigelino faz-se sentir. A seu mando, Murena é atacado e jaz gravemente ferido na rua.

É recolhido e salvo por Lemúria, a irmã do respeitado e poderoso senador Caio Calpúrnio Pisão. Mas este salvamento tem um custo pesado para Murena. Primeiro porque o tratamento lhe retira a memória e o transforma no brinquedo do insaciável desejo sexual de Lemúria.

E depois porque Nero, estranhando a sua ausência, acaba por o associar à tentativa de assassinato de que é alvo – tentativa orquestrada por Pisão. Tigelino, urdindo nas sombras, acaba por influenciar o imperador e a caça a Murena tem início.

Este álbum é, sem dúvida, marcado pelo desaparecimento prematuro do desenhador Philippe Delaby e pela herança pesada que recai assim sobre Theo. Mas, quanto ao desenho, já lá vamos!

A narrativa de Dufaux continua poderosa e intrincada e não consigo entender, por completo, aqueles que o criticaram por escrever um álbum redundante que retoma temas já muito tratados em álbuns anteriores (como é o caso da relação amor-ódio entre Murena e Nero).

Na verdade, a trama complexa é apresentada com uma série de piscadelas de olho à história factual e uma série de liberdades narrativas que encaixam bem no correr da acção.

Desde logo, a cena que dá o título ao álbum. A cena do banquete aqui real é, na verdade, uma das aventuras relatadas na obra maior de Petrónio, Satíricon. Dela apenas fragmentos chegaram aos nossos dias e o mais conhecido deles é, precisamente, o “Banquete de Trimalquião” no qual é narrada uma faustosa e excessiva festa, marcada pelo luxo, decadência e extravagância patrocinada por um novo-rico romano.

E é deste banquete que vão irradiar todas as pequenas tramas que confluem para o curso da História. Senão, vejamos! Murena é atacado à saída do banquete, é recolhido por Lemúria e acaba por perder a memória. O seu desaparecimento intriga Nero que ordena uma investigação. Tigelino manipula a informação e acaba por informar o imperador que Murena se encontra refugiado em casa do conspirador e traidor que planeou o seu assassinato – Pisão. E é neste ponto que a ficção casa com a realidade, pois a conspiração de Pisão é conhecida pelos escritos do historiador romano Tácito. Como é também a acusação feita a Séneca de ter participado na conspiração – logo ele, fiel conselheiro e defensor de Nero de quem, tantas vezes, tentou justificar os excessos.

É então assim que Dufaux nos descreve agora as lutas pelo poder perpetradas pelos vários clãs imperiais, agravadas pela reconstrução de Roma à imagem de Nero e o que isso implica nos cofres não só do tesouro público como dos cidadãos abastados.

Theo, como já se disse, tem aqui um trabalho difícil, nada facilitado pela expectativa criada em milhares de fãs de Delaby. Mas deve dizer-se que o seu trabalho é notável a vários níveis.

Desde logo porque, mantendo-se dentro de uma certa continuidade do trabalho de Delaby, consegue simultaneamente apresentar um traço muito próprio.

Depois, porque consegue criar um traço preciso e detalhado nos décors e nos elementos arquitectónicos, apresentados muitas vezes em perspectivas arrojadas.

O domínio da anatomia humana, a representação dos corpos, os enquadramentos bem pensados são outras características do seu trabalho, bem visíveis em algumas cenas imaginativamente compostas do banquete de Trimalquião, onde cada vinheta deve ser apreciada com grande atenção – o leitor encontrará sempre um pormenor ignorado, semi-escondido num primeiro, segundo ou terceiro plano.

O traço mais anguloso do que o de Delaby e uma divisão de página mais nervosa, sobretudo nos momentos de confronto físico, tornam o seu desenho menos “clássico” do que o dos álbuns anteriores. Certas cenas de acção chegam a lembrar as dos comic books americanos. Mas nem por isso o seu trabalho é menos conseguido.

O “choque” ou estranheza, para mim, surge na representação do rosto dos personagens, precisamente por uma das características do traço de Theo. Todos eles são mais angulosos e, assim, menos realistas e menos expressivos.

Embora tenha de admitir que a minha preferência vai para o traço de Delaby, parece-me que a nova dupla Dufaux/Theo reúne todas as condições para continuar este magnífico fresco de Roma Antiga. E “O Banquete” é um digno sucessor dos álbuns anteriores.

11 – LEMURIA

A publicar pela Dargaud em novembro de 2020.

Eis a sinopse da editora:

Em Roma, após o grande incêndio de julho de 64, o imperador Nero é assolado pela dúvida. O seu amigo Lúcio Murena desapareceu. Terá este participado numa conspiração contra ele, como pretendem alguns? Nero acreditou que sim, mas não sabe agora o que pensar. A ausência de Lúcio corrói-o, como se o seu próprio passado tivesse desaparecido. Lúcio está nas mãos de uma mulher, Lemúria, que o drogou de modo a fazer dele o objecto do seu prazer.

Lúcio decide fugir, pois deve recuperar a sua liberdade de modo a reencontrar-se a si próprio. Mas a sua memória é incerta. Apenas Petrónio o poderá ajudar a reatar com aquele que ele já foi. Enquanto isso, nos círculos do poder, alguns próximos do imperador fomentam uma cabala. Tornando-se o homem mais procurado da cidade, Lúcio conhece uma estranha mulher, apelidada de “Hidra”. Ela guarda um terrível segredo.

Um segredo que ela só poderá partilhar com Nero…

Três anos após “O Banquete”, o regresso muito esperado de uma série de culto, servida pelo traço clássico de Theo Caneschi, digno sucessor de Philippe Delaby.

EXTRA

Hors-Série L’Histoire: Rome au Temps de Néron

Em 2009, a prestigiada revista L’Histoire publica um número especial de 114 páginas acerca de Roma no tempo de Nero.

Para todos os leitores que queiram saber mais sobre este período da História Clássica, este número da revista é um must. Ainda para mais porque todos os artigos (ou quase) têm ilustrações de Philippe Delaby.

Dividida em 6 partes (Nero; O Império; Roma; A Sociedade; As Artes e as Letras; Em Imagens), cada uma delas composta por vários artigos, num total de 21, todos escritos por eminentes especialistas, a revista é um excelente complemento à leitura da série Murena.

Os gladiadores, os escravos, as corridas de bigas, a reconstrução de Roma, a perseguição aos cristãos, a lenda negra de Nero são alguns dos artigos que nos mostram o quão seriamente Dufaux e Delaby abordaram a Roma de Nero.

Para além de um léxico final de duas páginas, temos ainda uma curiosa entrevista a Dufaux onde ele fala do verdadeiro e do falso na série Murena.

Termino citando Michael Green, professor de História Romana no King’s College de Oxford e conselheiro histórico do filme Gladiador:

Murena é o melhor fresco histórico que me foi dado a conhecer.”

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.