Um olhar sobre a inquietante obra de Nick Drnaso.

Antes de mais, começo por confessar que a escolha do tema e da obra foi fortemente influenciada pelo programa difundido no Youtube da autoria de André Oliveira, Gabriel Martins e Pedro Moura, 3 Graus de Carequice. Apresentando o programa sinteticamente, este trata-se de uma espécie de podcast em vídeo, como me dizia uma vez o André, “um clube do livro”, onde os três participantes e autores se reúnem semanalmente para discutir diversos assuntos à volta de um tema, baseando-se geralmente numa obra de banda desenhada previamente conhecida pelos três.

No número 5 do programa falou-se de Sabrina – obra duplamente nomeada aos Prémios Bandas Desenhadas 2019 nas categorias de Melhor Publicação Estrangeira e Melhor Argumento Estrangeiro -, utilizando “Tensão” como tema principal. O programa tem-me deixado curioso e tem-me dado a conhecer obras que, até então, não conhecia ou, pelo menos, não havia ponderado ler. Sabrina foi um dos casos.

É possível que durante a minha análise reparem em algumas referências semelhantes às discutidas nesse mesmo episódio, caso tenham conhecimento do mesmo. De qualquer forma, tentarei analisar o livro de forma mais sucinta e direta e tendo por base também a minha própria opinião que há-de ser diferente em diversos pontos.

Foi em abril de 2019, sensivelmente um ano após a publicação original pela Drawn and Quarterly, que chegou às livrarias do nosso país a versão portuguesa de Sabrina editada pela Porto Editora. Originalmente publicada no Canadá e EUA, Sabrina foi a primeira obra de banda desenhada a ser selecionada para o Booker Prize, tendo por isso gerado um enorme mediatismo à sua volta.

A obra conta com o argumento e arte de um único autor, o jovem autor de BD americano, Nick Drnaso.

Se alguma coisa, Sabrina é, no mínimo, uma obra extremamente interessante. O principal tema da mesma é bastante atual e a capacidade de Drnaso para construir a tensão e alimentar o suspense é soberba. É impossível terminar a obra sem reconhecer o controlo excecional que o autor exerce sobre a sua narrativa. Encontramo-nos em vários momentos da história a supor e expectar resultados que acabam por não ocorrer, sendo estes momentos construídos exatamente no sentido de provocar a tensão no leitor.

Comecei o livro a pensar que teríamos um mistério que se resolveria perto do final e, até certa altura, é como se o próprio autor nos quisesse fazer acreditar nisso mesmo, até que acabamos por entender, que a premissa do livro não se foca no mistério de Sabrina, mas sim no impacto que o seu desaparecimento está a causar nos familiares mais próximos e no mundo que assiste ao desenvolvimento do caso atrás de um ecrã, de um jornal ou de uma revista.

O livro tem um aspeto bastante modesto. A arte de Nick Drnaso é muito simples e as cores são básicas, sem apresentar diferentes tonalidades ou mesmo jogos de sombras e luz. Apesar do estilo não ser um entrave para a narrativa, sinto várias vezes que os momentos mais emotivos ficam aquém, uma vez que o desenho falha em expressar fisicamente as emoções dos personagens.

Por outro lado, o autor compensa esta falta com o uso dos silêncios e das pausas, que se tornam inquietantes, quase desconfortáveis por vezes. Este é mais um excelente exemplo de como manipular a banda desenhada não apenas através dos diálogos e da ação, mas também dos silêncios e dos momentos mortos.

Drnaso constrói uma narrativa soberba, dando uso a um conjunto de elementos e técnicas de escrita da banda desenhada, que compensam fortemente a sua arte básica e pouco expressiva.

Sabrina é uma obra excecional de temática pesada e desconcertante. Além da tensão que exerce sobre o leitor, esta deixa-nos quase em sufoco sobre temas como a depressão ou o receio.

A obra foca-se no mediatismo dado a casos de rapto, assassinato e outros nos dias de hoje e às teorias de conspiração que surgem por influência desse mesmo mediatismo. Em Sabrina, acompanhamos as constantes ameaças de intervenientes que não acreditam na “história” do desaparecimento de Sabrina e que culpam alguns dos entes mais próximos ou que questionam até a veracidade da existência da própria vítima.

Não é estranho ter a sensação de que a história se poderia ser reflexo de num acontecimento verídico num país como os Estados Unidos da América.

Pessoalmente, teria dispensado alguns dos momentos que cortam o ritmo da narrativa, como pranchas em que o autor encheu vinhetas inteiras apenas com texto representativo daquilo que o personagem se encontra a ler no momento específico. Em alguns dos casos, este texto não parece acrescentar nada importante à premissa e, como disse, corta bastante o ritmo da obra, pelo que o autor poderia ter optado por textos mais curtos e significativos, ou por ilustrar as páginas com um pouco mais de arte, pelo menos.

No seu todo, Sabrina, é uma obra muito forte e a sua seleção para o Booker Prize não me surpreende. Está longe de ser uma obra perfeita, mas o seu impacto é inegável.

É um livro sem momentos de ação, embora não seja por isso, exatamente monótono. No entanto, esta falta pode ser um entrave para muitos leitores, pelo que não será, certamente, adorado por todos. Destaca-se na banda desenhada pela diferença e o bom emprego das técnicas associadas à escrita do género.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…